Não entre em pânico

No dia 06 de agosto de 1945, os Estados Unidos da América jogaram uma bomba atômica em Hiroshima — cidade japonesa de, naquela época, 245 mil habitantes. Cerca de 100 mil pessoas morreram ou ficaram condenados à morte; outras 100 mil, feridas. Na guerra, há limites?
Em maio de 1946, John Hersey (1914–1993) foi enviado ao local para escrever um artigo sobre como viviam as pessoas e como estava a cidade nove meses depois.
O jornalista e autor de outros livros ficou por um mês em Hiroshima e não contou histórias de outras pessoas ou boatos, mas exatamente o que ouviu da boca de testemunhas/vítimas. O artigo foi publicado perto do aniversário (uso essa palavra pela falta de uma melhor, pois ela remete a uma celebração e creio que ninguém celebra uma bomba) na revista The New Yorker — que na época era semanal, mas hoje é publicada 47 vezes ao ano, ou seja, cinco edições são para um período de duas semanas.
A narrativa segue a história de seis sobreviventes: um pastor metodista, uma viúva de guerra, um médico proprietário de um hospital privado, um pasto jesuíta, um jovem médico da Cruz Vermelha e uma funcionária da East Asia Tin Works; enquanto relata o pós-bomba deles, Hersey entra em algumas discussões sobre o povo japonês e sua cultura. Há um momento em que ele conta que um dos sobreviventes, pela região em que estava e, também, por sorte, não se feri; ele, por isso, ficou “bravo”, pois não achava justo que havia muitas pessoas sofrendo e ele sem nenhum arranhão.
Em uma outra parte, relata que os japoneses ouviram pela primeira vez, dias após o ataque, a voz do imperador pelo rádio e ficaram encantados, pois ele se deu ao trabalho de falar direto com eles. Eles ficaram felizes quando ele disse que a guerra havia acabado, e, num primeiro momento, acharam que eram os vencedores, mas, quando descobriram que não, ficaram menos felizes, mas ainda felizes, pois o soberano sabia o que era melhor para eles.
Uma das coisas mais difíceis de fazer em uma situação como essa, e Hersey conseguiu fazer, é contar a história sem exageros ou eufemismo; mesmo que sejam relatos diretos de quem viveu aquilo, tudo é tão forte e nos faz questionar o ponto em que chegamos graças à ciência. É difícil crer que o homem chegou a esse ponto de condenar uma cidade toda à morte como se fosse uma obra de ficção. Uma cena que marcou muito foi a de um sobrevivente que, ao tentar ajudar uma mulher caída a levantar, ficou com a pele dela em sua mão. A pele se soltou “como se fosse uma luva” e ela ficou caída no chão.
Quase no final do livro ele traz o debate ético e moral sobre a bomba e como isso não é consenso nem entre os japoneses. Alguns acham é um “vale-tudo”, pois não há inocentes ou civis numa guerra; outros acham que seria um crime em qualquer circunstância e outros ainda acham que os EUA poderiam ter dado um aviso ou deveriam ter demonstrado o potencial destruidor dela em uma cidade menor e, assim, evitado que Hiroshima e, posteriormente, Nagasaki (bombardeada três dias depois, resultando em cerca de 70 mil novas baixas) tivessem passado por isso. Há ainda os que acham que foi, pensando na figura maior, algo bom, pois fez com que o Japão se rendesse (isso no dia 15 de agosto) e evitasse um número maior de mortes. Mas explicar os lados não é a intenção do livro. A discussão é apenas posta lá.
Quando Hershey chegou nos EUA com a história, ela seria um dos artigos da revista, mas, por ter 30.000 palavras (para efeito de comparação, essa resenha tem cerca de 750 palavras apenas), recheou toda aquela The New Yorker. A capa dela, pela primeira vez, não tinha um trocadilho, um cartoon ou nada do tipo, mas apenas uma cena de um calmo piquenique — que me lembrou muito o aviso (“Não entre em pânico”) na capa do primeiro livro de O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams. Mais tarde ele foi publicado como livro. Na primeira edição, a nota de quem publicou termina dizendo que várias obras, livros e artigos foram publicados sobre como a bomba atômica funciona, mas Hiroshima não é sobre ciência ou o progresso do homem; e, sim, sobre o que uma bomba atômica faz. Isto visto pelos olhos de quem foi afetado por ela, passou por isso; e viveu.
Guilherme Bernardi.
