Quem atrapalha mais o país: os protestos ou o governo Temer?

(Foto: Reprodução)

Na sexta-feita do dia 28, cerca de 40 milhões de trabalhadores não foram trabalhar no que alguns classificaram como a maior greve da história do país. Empregados (sindicalizados ou não), estudantes e vários movimentos sociais participaram do maior ato contrário ao atual governo golpista de Michel Temer (PMDB) e seus projetos de ‘reforma’ (que deveriam receber outro nome, pois reformas são coisas para o melhor) que incluem a Trabalhista e a Previdenciária.

Já faz um ano que vivemos em regime de golpe e vários atos já aconteceram contra o ilegítimo governo atual, mas nenhum com essas proporções ou com tal pluralidade — visto que havia vermelhos, verde-amarelos e pessoas de todos os tipos.

Temer é um presidente que não foi eleito, que tem medo do público (como bem disse a ex-presidenta Dilma em uma entrevista recente — e que pode ser confirmado por uma das últimas propagandas do governo, na qual ele quase não aparece e não fala nada) e com um projeto de país que pouco interessa a grande maioria dos trabalhadores. Pegando esse contexto, a greve e os protestos parecem a única forma de resistir, ainda mais com uma Câmara dos Deputados adestrada e aprovando tudo a toque de caixa, enquanto, revive os piores dias de Eduardo Cunha em sua presidência (quando ele perdia votações numa noite e as votava novamente na seguinte para, então, aprova-las).

Ao mesmo tempo em que a greve parece o único ato capaz de enfraquecer o governo, há toda uma estratégia que tenta deslegitima-la e trata-la como algo de ‘vagabundo’ ou contra os ‘interesses do país’, pois quem pensa no Brasil estava trabalhando, dizem alguns.

Londrina teve um caso desses. Na cidade do Norte do Paraná, um vereador do PRB, Filipe Barros, e membro do MBL (um movimento apartidário, mas que tem vários de seus quadros filiados a partidos e atuando na política partidária) passou em frente à concentração logo no início e xingou os presentes (poucos até então) de ‘vagabundos’ e disse que se fosse em frente à sua loja mandaria bater neles. Hoje, 5 de maio, a Câmara de Vereadores recebeu uma notificação contra o vereador e houve protestos no plenário — até o fechamento, a sessão tinha sido suspensa por uma hora por causa deles.

O que pessoas como o vereador esquecem é que praticamente tudo que os trabalhadores hoje têm, foi conquistado na base da luta. A jornada de 8 horas diárias, por exemplo, é fruto direto de movimentos dos trabalhadores. Ou ele acha que o capitalismo (um sistema que preza simplesmente pela busca incessante pelo lucro) decidiu dar essa ‘colher de chá’ para quem labuta?

Recentemente li no livro ‘Bala Perdida’ — coletânea de artigos publicada pela Boitempo Editorial — o geógrafo britânico David Harvey explicava o porquê da necessidade dos protestos e atos tomarem as ruas e eles o fazem, basicamente, porque fora de um local público (ruas, bosques, praças…) eles não são públicos! Sem um espaço para ocorrer e sem atingir as pessoas, ele se torna sem voz e sem sentido. Por isso não há protestos contra o governo dentro de um condomínio, por exemplo, pois ele não tem nenhum caráter público.

Continuando na onda dos que criticam os protestos, o prefeito de uma cidade perto de São Paulo capital gravou um vídeo com os funcionários que fazem a limpeza e manutenção da prefeitura dizendo que eles iriam dormir lá (enquanto eles estavam de cabeça baixa), pois no outro dia não haveria ônibus. Para terminar, ele diz que concorda com a greve, mas só ’em dia que não é de trabalho’ para não atrapalhar os outros. Ora, acho que ele não entende o significado da palavra greve, mas fora de dia de trabalho não há greve. Simples assim.

Desobediência Civil é a única resposta a um governo que não ouve o povo. Henry David Thoreau, autor do texto, lembra que temos que ser, antes de tudo, ‘homens’ e que quem apenas segue as ordens sem nem as questionar passa a ser pior que ‘animais’, pois deixa de lado nossa capacidade de decidir. Se há uma lei injusta, um homem justo a cumpre e tenta convencer a maioria para que todos boicotem juntos ou ele não a cumpre de imediato? Isso é desobediência civil: não aceitar passivamente que o governo nos estrangule todos os dias e governe para alguém que não o povo.

Ou ainda, partindo para um dos pais do liberalismo e um dos filósofos usados como base para independência dos EUA, John Locke, se um governo é tirano e nós não o elegemos, não votamos nele, não temos representação, nada mais justo que nos insurjamos e não o obedeçamos, pois ele é ilegítimo. Oras, ninguém votou no governo Temer (mesmo que o argumento do ‘votou na Dilma, votou no Temer’ seja usado, o projeto de Brasil dela não era esse), a maioria dos deputados não é eleita diretamente (poucos são os que se elegem sem precisar de coligações e chapas) e a população, de quem, segundo a Constituição de 1988, todo o poder emana não é ouvida. Devemos simplesmente aceitar os mandos e desmandos frutos do golpe? Thoreau diria que o remédio não é pior que a causa da doença, por isso, Greve Geral!

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