Sobre Assange, Snowden, Vigilância e Democracia:

Sei que é Carnaval, mas vi, entre ontem e hoje, o filme ‘Snowden’, dirigido pelo Oliver Stone, e com Joseph Gordon-Levitt interpretando e muito bem o ‘whistleblower’ — um detrator, ou alguém que alerta para algo, vaza segredos e etc.

Além do filme, há, para os interessados, o documentário ‘Citizenfour’ (o nome é esse, pois foi assim que ele entrou em contato com a documentarista Laura Poitras — que também tem outros dois filmes sobre os EUA pós-11/09; eles são “My country, my country” e “The oath” — recomendo o trio e, se alguém quiser, tenho os três para passar).

Edward Snowden, para os que não conhecem, é um ex-agente da CIA (Agência Central de Inteligência) e da NSA (Agência de Segurança Nacional), que vazou dados e informações sobre um sistema de espionagem global; desde 2013 está asilado em Moscou.

Julian Assange é australiano e um dos fundadores do Wikileaks. Está asilado na embaixada do Equador em Londres desde 2012; ele é acusado de estupro e agressão sexual por duas mulheres suecas e está asilado, pois, se extraditado, poderia ser processado e julgado por espionagem e outras coisas mais (por isso ele diz que há uma conspiração contra ele).

Espionagem e Facebook

1- é impressionante e assustador tudo que as agências governamentais de inteligência (principalmente dos EUA) podem fazer. Você pode, nesse momento, estar sendo espionado em nome da “segurança”;

2- Obama foi eleito dizendo que não agiria dessa forma (por exemplo: espionagem ilegal), mas depois do vazamentos dos programas de coleta de dados, ele até os defendeu. Lembrando que o governo dele, no ano de 2016, jogou 26,171 bombas no mundo e, hoje, tem tropas em 70% dos países. Terrorismo de estado é o nome mais adequado para isso;

3- no filme, um diretor de agência diz que as pessoas já aceitam ser vigiadas e que compartilham os dados de livre e espontânea vontade no Facebook, por exemplo, e Snowden rebate que pelo menos foi decisão delas isso. Isso é verdade, diariamente compartilhamos nossos dados nas redes sociais. Para se ter noção do que é possível se fazer com essas informações, leia esse trecho sobre a empresa Cambridge Analytica:

Kosinski e sua equipe aprimoraram incansavelmente seus modelos. Em 2012, Kosinski provou que, com base em uma média de 68 likes do Facebook por usuário, era possível prever sua cor da pele (95% de precisão), sua orientação sexual (88%) e sua filiação aos partidos Democrata ou Republicano (85%). Mas, ele não parou por aí. Inteligência, afiliação religiosa, bem como uso de álcool, cigarro e drogas, tudo poderia ser determinado. Com esses dados era até possível deduzir se os pais de alguém eram divorciados.
A capacidade de prever a resposta de alguém era a principal demonstração de força do modelo. Kosinski continuou a trabalhar incansavelmente e, em pouco tempo, seu mecanismo já era melhor do que psicólogos para avaliar pessoas apenas com base em 10 curtidas de Facebook. 70 curtidas eram suficientes para saber mais até do que os amigos de alguém, 150 mais do que os pais. Para conhecer uma pessoa mais do que o seu parceiro, bastavam 300 curtidas. Com mais likes do que isso, era possível conhecer mais até do que a própria pessoa sabia sobre si. No dia em que Kosinski publicou essas descobertas, recebeu dois telefonemas. Uma ameaça de processo judicial e uma oferta de emprego. Ambas do Facebook.

Brasil

1- o país entra nessa história pois aparece algumas vezes no filme (o diretor, inclusive, deu entrevistas aqui dizendo que houve um golpe no Brasil), no documentário e em uma recente entrevista de Assange para Fernando Morais onde ele diz que é claro que o país é o mais vigiado na América Latina (mesmo a Venezuela sendo o maior opositor dos EUA no continente), pois é a maior economia. Snowden diz que é mais do que uma guerra contra o terrorismo, mas um “controle econômico”;

2- quando foi descoberto que os EUA estavam espionando governos (incluindo o brasileiro), a então presidenta Dilma Rousseff (PT) cancelou um encontro que teria com Obama, que teve que se desculpar depois. Glenn Greenwald, do The Intercept, um dos jornalistas escolhidos para mediar a divulgação dos dados — aí entra a questão da ainda existente importância do ‘bom jornalismo’ — , que mora no Brasil, depôs no Congresso também. Hoje, nosso governo golpista conta com Michel Temer (PMDB), que, como divulgado no Wikileaks, foi informante da embaixada dos Estados Unidos, e, até uma semana atrás, José Serra (PSDB-SP), que, teve divulgado no mesmo Wikileaks, sua promessa de vender o pré-sal para empresas petrolíferas estadunidenses;

Democracia

1- em seu livro chamado “Golpe de Estado”, Edward Luttwack diz que o “poder do estado moderno” depende de seu permanente maquinário que, com seus arquivos e dados, pode seguir intimamente (ou vigiar, eu diria) e, se desejar, controlar indivíduos e organizações. Segundo ele, estados “totalitários e democráticos” (aspas dele para os dois regimes) diferem no uso deles. “O instrumento é o mesmo”, mas os “totalitários” usam mais completamente (fully) informações que estão disponíveis para todos os estados, mesmo os democráticos;

2- a democracia nos trouxe tudo isso (menos no caso Brasil e Temer): espionagem, Obama e agora Trump (que não vi falar nada sobre espionagem, mas defende algumas coisas como a tortura). Segundo Assange, na mesma entrevista, a única diferença do atual presidente dos EUA para Hillary é que a presidência dele deixa as relações de poder mais escancaradas do que ela deixaria, ou seja, no governo Trump o Secretário de Estado é o CEO de uma petrolífera; ela teve o mesmo cargo no governo Obama e defendeu o interesse das mesmas petrolíferas. Tradução: o poder continua nas mãos dos mesmos, o que muda é como ele aparece descarado no governo republicano atual;

Futuro e soluções

1- não tenho nenhuma proposição e não sei o que devemos fazer. Acho, entretanto, que não há problema, pois, como disse Slavoj Žižek, em discurso na ocupação de Wall Street em 2011,:

Temos toda a liberdade que desejamos — a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual — “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. — são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.

Não sabemos ainda como expressar nossa falta de liberdade, nossos problemas atuais, mas nosso papel é dizer, pelo menos, que do jeito que está não está certo.

Guilherme Bernardi.

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