Nós.

Eu acordo primeiro como o de costume e enrolo ao máximo pra levantar e fazer xixi. Me incomodo com a bagunça das cobertas e com o frio que faz no quarto, você gelado, jogado na cama, dormindo e não dando a minima pro resto, te cubro. Pego uma das camisetas no chão, no escuro, sem escolher muito, e pelo cheiro eu sei que é tua. Coço o olho devagar e caço o óculos na mesinha, bom dia? Eu me pergunto em pensamento e não obtenho resposta.

Destranco a porta, abro com cuidado, fecho rápido pra luz de fora não te incomodar. No banheiro, xixi feito, dou descarga, abro a torneira, me olho no espelho, marcada... é, a noite rendeu... lavo o rosto, escovo os dentes. Do lado da minha escova, a tua, derrubo as duas. Saco! Reclamo.

Arrumo tudo com gosto de hortelã na boca, talvez menta, não importa. Abro a porta, volto pro quarto, tranco, tiro a roupa, deito e em seguida levanto. Vou fazer café. Água pra ferver, roupa pra lavar, algumas tuas, outras minhas, olho sorrindo, gosto de cuidar de você e da tuas coisas, cheiro de café no ar.

O telefone toca, minha vó, atendo com voz de sono, falando baixo, não quero te acordar. Do outro lado da linha ela percebe, pergunta, ta acompanhada? Eu não respondo, ela já sabe. Mudo de assunto, falo do casamento do primo e do bebê que está pra chegar, mas ela insiste. E ai, tão namorando? Derrubo café quente na mão, ja disse que não, vó! Ah, mas o que custa perguntar?! Quando será que vocês vão decidir o que vocês são? Sei lá...

Desligo, fico pensando nisso... algumas decisões a gente nunca quer tomar. E tanto faz, deixa pra lá. Foco. Café na xícara, a gata mia, ração no pote, rádio ligada de fundo e um sol lindo entrando pela sacada. É domingo.

Vou até o quarto, te acordo, você enrola, reclama, resmunga, faz manha e quase chora, te beijo, bom dia! Trago café, você sorri, me agradece, senta na cama, arruma o travesseiro de apoio nas costas, passa a mão no cabelo, me olha, faz silêncio e suspira, depois comenta... precisamos decidir. Fico séria, perco ar, boca seca, mãos frias, respondo: precisamos mesmo? faz tempo, eu sei, mas eu realmente... e você interrompe, precisamos decidir onde vamos almoçar hoje, e só.

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