A vez do encontro

Vocês já tiveram um primeiro encontro?
Provavelmente já, então o que eu vou contar não é nada novo. Mas pra quem caiu nesse texto achando que ia ler o relato de alguém atrapalhado passando vergonha, cê tá exatamente no lugar que queria.

Eu não sou um cara cheio “dos contatinhos”. Sério, a minha experiência com esses aplicativos tipo Tinder se baseia em “puta merda, ela nunca vai estar afim de você” e “hahahah desculpa, minha amiga que tava usando kkkk”.

Se você ainda não acha isso horrível, é porque você não encontrou ninguém que te tirasse o “AGORA VAI” da garganta e depois de três dias com whatsapp ou facebook, se deparou com uma foto de casal, mudança de status de relacionamento ou viu que a pessoa apoiou o golpe.

Dei “match” com essa garota cerca de dois anos atrás. Logo nos primeiros dias, começamos a nos falar bastante. Ela tinha umas quatro fotos, uma legenda engraçadinha e algumas informações como a faculdade, o tipo de música que escuta e o que gosta de fazer — o básico nesse mundo de likes, matches e sei lá mais o que.

“OI, MEU NOME É MEL E EU SOU APAIXONADA POR SORRISOS”

Com uns dias de conversa, a frequência de resposta começou a abaixar. O intervalo entre uma mensagem e outra beirava horas e eu já tinha entendido o recado — “acabou, vai pra próxima ou para de vez com essa história de aplicativos”- até que o celular fez aquele barulho de mensagem e eu li aquele “Menino, desculpa!!! Esse tinder é uma bosta e não avisa que chegou mensagem. Perdoa o vácuo e não desiste de mim. Pode me chamar no wpp? É *****”

yuke???

A guria não tinha cansado de mim. Era só um bug do aplicativo. Ela pediu desculpas por algo que não era culpa dela, além de ter me passado o telefone e colocado um “perdoa o vácuo e não desiste de mim” na mensagem, o que eu rapidamente interpretei como “calma, um dia a gente vai se casar e vamos dar gostosas gargalhadas lembrando dessa situação”.

A gente ia muito casar. Na minha cabeça eu tava até escolhendo os nomes dos cachorros e as fantasias de halloween.

O Jorge é o do meio.

Com o whatsapp na mão, eu precisava mandar a primeira mensagem. Eu não sabia se mandava um simples “oi, é o Wesley”, se puxava assunto ou se pedia opinião sobre alguma coisa. Naquela hora, acho que até pensei em desistir de tudo e seguir os ensinamentos de Zeca Pagodinho

“Deixa a vida te levar, cara…”

Tomei coragem, falei alguma bobeira e tive sorte de fazer ela rir. Começamos a conversar sobre várias coisas, principalmente sobre música e a faculdade. Depois de alguns dias, ela me disse que iria passar o final de ano fora do estado e que por isso queria me ver antes da viagem (nessa hora eu já abri o site de adoção e comecei a procurar pelo Jorge. Esse cachorro vai ser muito feliz).

Depois de algumas conversas sobre horários e lugares, conseguimos combinar um dia perfeito pros dois. Como bons estudantes paulistas e desempregados, marcamos de nos encontrar na plataforma do metrô. 
E foi aí que a vergonha começou.

Eu tenho o costume de chegar adiantado nos lugares e a ideia de me atrasar me apavora mais que tudo na vida. Chegando 15 minutos adiantado, me sentei num banquinho de três lugares, junto de um senhor que olhava fixamente para o celular. Tirei o meu do bolso, abri o twitter e fui ler um pouco da timeline, até que comecei a ouvir algumas vozes abafadas vindo da minha esquerda. Ignorei, afinal, é mais que normal conversar numa estação de trem. Como a cadeira do meio estava vazia, uma mulher que descia da escada ia em direção à mesma, até que num movimento rápido, ela se vira, olha para minha cara, olha para o senhor e desiste de sentar ali. Curioso com a situação, olho para o velho e entendo as vozes abafadas que ouvi pouco tempo atrás..

O velho tava vendo pornô. Sem fone. À uma bunda de distância de mim.

Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, uma voz que antes só tinha escutado pelo celular me diz um “oi” tímido. 
“Puta merda, a menina chegou e tem um cara vendo pornô atrás dela. O que eu faço?”

Minha bússola moral é o Naruto.

Foi aí que eu percebi que tinha ficado uns dois segundos em silêncio. Levantei rápido, a cumprimentei com um beijo na bochecha e apontei para a porta do metrô. Antes de qualquer “Tudo bem? Como foi a viagem?” ou algo do tipo, cinco palavras saíram descontroladas da minha boca

“esse tio tá vendo pornô”.

Sério. Não deu um minuto e eu já tinha falado “pornô” pra menina. Eu queria morrer, colocar um travesseiro nos trilhos e usar o trem de cobertor. 
Por sorte, ela achou engraçado e ainda disse “deixa o cara ser feliz”. 
Cara, além de linda ela tinha um ótimo humor. Entramos no vagão e começamos a conversar sobre idosos e situações embaraçosas no transporte público. Ela me contou da vez que uns caras estavam vendendo whiskey com energético no vagão e eu disse que queria chegar logo na velhice pra atingir o nível Sílvio Santos de “eu não tô ligando pra nada”. Depois de alguns risos e histórias do Sílvio Santos, chegamos até a Consolação e começamos a descer a Augusta.

Preciso confessar que até aquele momento eu ainda não tinha superado o vovô pornô e não fazia ideia de onde levar a garota. Lembrei da vez que bebi com alguns amigos da faculdade em um barzinho e comentei com ela, que concordou na hora com o lugar. Enquanto descíamos aquela ladeira, estranhávamos a falta de jovens álcoolizados, os clássicos isopores de vodkas baratas e a ausência das vendedoras de “tequila” (basicamente duas mulheres ao redor de um banquinho, com uma bandeja de sal, limão e uma garrafa de Jose Cuervo, cheia do azeite mais ácido que você pode provar).

Chegando perto do bar, me lembrei de uma piada do rolê passado, envolvendo a localização do bar.
Acontece que o mesmo fica de frente a um lindo casarão roxo, que na sua varanda apresenta um letreiro com a palavra “MOTEL” em dourado.
É. Eu tinha decidido levar meu primeiro encontro a um bar na porta de um motel. Era como se eu quisesse ser lembrado na rodinha de amigas por “O cara que falou ‘pornô’ antes do ‘oi’ e me levou pra tomar skol na frente de um motel”.

Pelo bem da minha imagem, o lugar estava fechado e precisávamos decidir um outro bar. Durante todo o tempo, conversávamos e eu ainda não tinha cometido nenhum outro vacilo. Mas só durou até ai.
Por impulso, arregalei os olhos e disse “BAR DO MACONHEIRO!” apontando para uma rampinha de madeira. Ela, sem entender, me acompanha confusa e sobe as escadas do lugar: uma lanchonete com vista para a rua e praticamente vazia, cheia de plantas e um papelão apresentando o menu. 
Acomodados, ela me pergunta o motivo do apelido do lugar. Explico que um amigo me apresentou o lugar com esse nome, dizendo que a juventude 4i20 frequenta o lugar e que ali o natural era apoiado. Durante minha explicação, ela me encarava firmemente, às vezes olhando para o lado. 
Sem entender o olhar penetrante, retribuo com um sorriso bobo e estico a mão para tocá-la. Minha mão não chega a alcança-la, já que um cardápio acerta meus dedos e eu entendo o olhar. Um dos funcionários estava ali o tempo todo e não parecia concordar muito com a fama do local. 
Agradeci o cardápio e enfiei a cara no meio da página de bebidas, enquanto ouvia a garota gargalhar de mais um dos meus micões. Percebendo a falta de “litrão” no cardápio, ela sugere procurar em mais um bar e eu aceito tão aliviado quanto poderia estar.

Sem olhar para trás, descemos as escadas e atravessamos a rua. Chegamos ao Ibotirama, mais um bar da região e nos sentamos nas mesas da calçada. O garçom se aproxima com os cardápios e rapidamente pedimos cerveja. 
Copos cheios, conversas fluindo e damos o primeiro gole.
Nesse momento, me lembro de um detalhe: eu odeio cerveja.

Daí pra frente a situação melhorou. Tomamos três garrafas daquele líquido amarelo que ainda me faz querer coçar a língua com amendoins, nos beijamos um pouco e subimos a rua. Decidimos que seria legal ficar um tempo embaixo do MASP contando histórias de adolescente e besteiras de infância, mas o momento logo foi interrompido por um mendigo malabarista que se intitulava O SAMURAI DO MASP. Como não queríamos levar uma CABADA DE VASSOURA na canela, demos as mãos e fomos tomar uma casquinha no shopping. Mais alguns beijos e chegou a hora de pegarmos o metrô. Dessa vez, sem nenhum velho assistindo indecências em local público.

Continuamos conversando por mais algum tempo. O dia da viagem dela chegou e não tive muitas notícias depois. Não foi naquela vez que consegui uma mãe pro Jorge, mas pelo menos pude conhecer o Samurai do MASP sem levar uma paulada. 
Foi um dia bom.