A Planta Maligna

E a destrutividade que entramos em nossas relações.

Vincent Van Gogh, Details

Recheada de espinhos, decrépita ao que vê, enrola-se, toma conta e, finalmente, envolve o objeto, vestindo-o com suas folhas. Mesmo assim, é bonita. Nela crescem flores e o verde de suas folhas é vibrante como o das árvores. Mas ela não é uma árvore. É esquiva, de movimentos lentos e silenciosos, mas, ao mesmo tempo, definitivos como um parasita bem instalado. E ela sabe o que quer, pois é astuta, e seus domínios seduzem.

Então você, hipnotizado pelas curvas e as flores ao redor dela, aproxima-se para tocá-la. E a ilusão de que o toque será algo divino pode ser tão poderosa que, ao tocá-la de fato, não sentirá os espinhos, camuflados pelas folhas verdes. Então você continua ali, e, quando se dá conta, está inteiramente laçado, tomado pelos galhos retorcidos da planta maligna.

Então o momento definitivo começa a chegar, os espinhos perdem a timidez e mostram-se com imponência: ela começa a torturá-lo só pelo prazer. As folhas deixam a verdura e as flores começam a rir soturnamente, e assim a planta aperta, para fazê-lo sangrar, sem medo de mostrar sua natureza macabra. Já cansado, você perde a esperança, deixando de acreditar até nas flores que antes o seduziam — que agora começam a murchar, e tudo se esvai.

Com tantos galhos e espinhos ao seu redor — que já a essa altura não flagelam mais — você percebe que perdeu o contado com a verdade, e que de nada valeu apaixonar-se por uma mentira, deixar-se seduzir pela beleza externa de uma planta faminta pela angústia humana.

Não se pode ter o amor sem que se leve o medo.

Assim, quando você finalmente escapa, ela timidamente retorce os galhos, e começa a adoecer pela falta de um corpo. Você respira profundamente e decide deixar de ser uma presa. Então vai embora, agora sem medo das flores ou do mais fino dos espinhos.

Não se pode ter o amor sem que se leve o medo.”, essa sim, é uma fabulosa mentira.