A Pirâmide das Crises — Quais crises vivenciamos hoje? Econômica, religiosa, política, etc?

Igor Santos
Sep 8, 2018 · 4 min read

Parte 2 — A Crise Intelectual

Na primeira parte dessa série “A Pirâmide das Crises: A Crise Moral” chegou-se à conclusão que a base da pirâmide das crises é justamente a crise moral, em que se dá pelo fato de indivíduos terem seus atos motivados por sentimentos humanos negativos.

A crise moral se consuma de fato no momento cujo ato motivado por sentimento negativo é vangloriado, aceito ou justificado, desequilibrando e desarmonizando a relação entre os atos e as recompensas/punições de maneira generalizada, resultando em um estado de coisas caótico.

Entretanto, há de se perguntar: alguém com boas intenções pode representar uma fonte de uma crise, ou apenas os indivíduos com más intenção são capazes de tal?

Bom, com base na lógica, claramente pode-se descrever vários atos que mesmo comprovada a boa intenção podem gerar consequências deploráveis.

Por exemplo, imagine que um pai de família decida contratar uma equipe para construir uma casa para morar.

A equipe conta com pedreiros e ajudantes de pedreiros, um mestre-de-obra e um engenheiro encarregado pelo projeto.

Por haver um engenheiro, o orçamento do projeto foi considerado muito elevado pelo pai de família, um sujeito simples e não abastado.

Após fazer algumas contas, ele toma a péssima decisão de recusar o engenheiro para conduzir a elaboração e implementação do projeto da casa para que o dinheiro, que seria gasto com o engenheiro, pudesse ser destinado à alimentação, ao pagamento de contas e à educação de sua família.

Assim, o projeto ficou por conta de ser elaborado e tocado pelo pedreiros.

É necessário concluir que quanto mais complexo for o projeto a ser desenvolvido, maiores são as probabilidades de os pedreiros errarem na sua elaboração e a construção vir a desmoronar, ocasionando possíveis mortes das pessoas que ali habitavam.

Então, plausivelmente e logicamente é possível dizer que um ato originado de boas intenções pode provocar um resultado de efeitos negativos, principalmente quando uma análise técnica e científica é ignorada.

O exemplo do projeto de uma casa é algo ridiculamente simples e ínfimo quando comparado a um exemplo de um projeto para guiar um país, que deve possuir medidas legislativas respaldadas juridicamente para definir todas as metas e diretrizes econômicas, educativas, sociológicas, culturais, etc.

O que significa que, analogicamente, “botar pedreiros para tocarem um projeto” é deixar para que a construção não se sustente e venha a sucumbir, ocasionando catástrofes a níveis nacionais quando ampliada a analogia ao nível de complexidade de um projeto de governo de uma nação.

Portanto, deve-se concluir que, juntamente com a crise moral, a crise intelectual também faz parte da base da pirâmide das crises, visto que tanto a moral quanto a intelectualidade, quando misturadas em dosagens perigosas, podem levar uma nação inteira a uma crise generalizada.

Além disso, há um outro agravante com relação à intelectualidade.

Voltando ao exemplo do projeto de construção de uma casa com pedreiros e um engenheiro.

Imaginemos a hipótese: todos os pedreiros abandonam seus cargos e deixam de trabalhar, sobrando dessa forma apenas o engenheiro para tocar o projeto.

Acontece que em questão de poucos dias o engenheiro é capaz de aprender o trabalho manual dos pedreiros e mais alguns outros para ficar produtivo nesse trabalho.

Já na hipótese contrária, ou seja, o engenheiro abandone o cargo e deixe de trabalhar, sobrando apenas os pedreiros para tocarem o projeto, o que aconteceria?

Mesmo com uma vontade imensa de aprenderem a desenhar um projeto de uma casa, trabalhando em conjunto e com uma boa pilha de livros técnicos, os pedreiros no mínimo levariam alguns anos para adquirirem o conhecimento básico sobre engenharia e mais alguns outros bons anos para se tornarem produtivos e precisos no trabalho de projetarem uma construção funcional e segura.

Isso leva a crer que o engenheiro possui um nível de conhecimento muito mais avançado do que o de pedreiros.

Levando em consideração as relações sociais humanas e as tendências de os indivíduos se organizarem socialmente de acordo com seus níveis intelectuais, pode-se acompanhar a discrepância intelectual que vai se mostrando aparente com o passar dos anos, não só no campo da engenharia, mas em todas as áreas de conhecimento científico (humanas e exatas).

A pergunta que deve ser feita: até que ponto essa desigualdade intelectual se desenvolve?

Quanto maior for a concentração e a disparidade de intelectualidade, maior é o poder que as elites intelectuais impõem sobre a maioria.

A próxima pergunta a ser feita: em qual ponto essa disparidade se torna irreversível, de maneira que a minoria controle totalmente a maioria e essa última nem mesmo se dê conta do que está acontecendo?

Pois é, essa disputa de intelectualidade tem nome. Chama-se Guerra Cultural, e é urgente dizer que ela já está acontecendo no Brasil há mais de 50 anos e os brasileiros praticamente já a perderam.

Continua…

Essa é a segunda parte da série “A Pirâmide das Crises”.

Originalmente publicado em: https://cerebrobinario.com.br/#/post/a-piramide-das-crises-parte-2-a-crise-intelectual

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