Saldão do Impeachment — Análises e Considerações

Terminada a votação do Impeachment na Câmara dos Deputados , é hora de analisar e entender à luz do resultado e dos votos como foi que se deu todo esse processo e tentar projetar algo do que acontecerá daqui em diante.

QUEM ENFIM VOTOU COM O GOVERNO

Desde o começo de 2016, o momento mais nebuloso para o Impeachment de Dilma Roussef aconteceu quando após o desembarque do PMDB da base aliada, o governo começou a negociar uma repactuação da coalizão com o PP, PSD e PR. No papel, com seus 122 deputados, estes três partidos poderiam garantir a permanência de Dilma no poder e ocupar quaisquer ministérios que eventualmente quisessem. Na prática, 76% de seus deputados votaram contra o governo a favor do Impeachment.

A motivação destes votos claramente não foi para ocupar cargos em um futuro governo Michel Temer, uma vez que os tinham a disposição com o PT em maior quantidade e importância do que conseguiriam com o PMDB. Resta claro que para estes partidos da antiga base aliada votar contra o Impeachment e permanecer no governo foi considerado demasiadamente desgastante para a sua imagem e para o seu futuro político em uma perspectiva de longo prazo.

Ao analisar os votos que o governo teve a seu favor contra o Impeachment, pode se constatar que não foi organizada uma grande aposta no sucesso do governo. Afora os votos ideológicos para marcar posição política do PT, PC do B, PSOL, dois terços do PDT e metade da REDE, 88 no total, os demais 58 votos que o governo conseguiu foram praticamente todos por acertos locais e por negociações pontuais.

Não por acaso, os governos estaduais foram muito mais eficientes na arregimentação de votos que o governo federal e Lula incluído em suas negociações. Isso se deu pelo fato dos governadores em exercício terem condições de cumprir suas promessas de de verbas, cargos e apoios políticos independentemente do resultado do Impeachment. Já o governo Federal precisava vender antes que mais nada a própria promessa da vitória.

Desta forma, o governador da Bahia Rui Costa (com o apoio de Jaques Wagner) entregou votos de 14 deputados dos partidos da antiga base aliada ao governo. No Ceará, o clã dos Gomes igualmente trouxe 6 votos ao PT e o governador do Maranhão Flávio Dino reverteu 5 votos destes mesmos partidos. Entre Roraima, Amapá e Acre, estados governados por aliados do PT, mais 5 deputados não embarcaram na onda do Impeachment junto com seus colegas de partido. Em Minas Gerais, o fragilizado governador petista Fernando Pimentel não obteve sucesso parecido entregando apenas dois votos vindos do PR.

Até por isso, o tão propalado efeito manada não foi significante no resultado final, inclusive com muitos deputados mantendo os seus votos contra o Impeachment mesmo nos momentos em que a derrota já se mostrava consumada para poder sustentar o seu acerto residual . É interessante notar, destarte, que o governo como alternativa de governo já estava fora do jogo quando do início da votação.

Apesar do Congresso ter emitido claros sinais de independência a partir do início de 2015, a bandeira de Eduardo Cunha em sua eleição na presidência da Câmara, o PT persistiu na fórmula da negociação ‘cala boca’ prometendo cargos e verbas ao invés de compartilhar com a base aliada e com o Congresso a decisão de rumos e políticas do Brasil. No momento mais agudo de sua crise, essas negociações precisaram acontecer em um quarto de hotel. Era difícil que desse certo.

O NAUFRÁGIO DO DISCURSO PETISTA

Constatar hoje que o discurso adotado pelo governo durante o processo de Impeachment não colou na sociedade e nem com os deputados é chover no molhado. A tentativa de imposição da narrativa do golpe que supostamente atentaria contra a democracia e a Constituição se tornou cada vez mais improducente e inócua à medida que a Lava-Jato revelava diuturnamente o desrespeito deste mesmo governo com a ordem legal. Entre outros foram presos não por excesso de zelo a Constituição, o líder do governo no senado, o tesoureiro do PT e até seu marqueteiro oficial.

Igualmente, o foco excessivo em Eduardo Cunha apequenou o governo como um todo e acabou demonstrando sua fragilidade ao precisar lutar de igual pra igual com alguém que, mesmo presidindo a Câmara, continuava sendo apenas um deputado. Não foi Cunha quem derrubou o governo — prova disso que dois de seus fiéis aliados votaram contra o Impeachment, os deputados Vinicius Gurgel e Waldir Maranhão.

Enquanto insistiu em discursar sobre palanques junto a militância e a movimentos sociais, o governo esqueceu de governar. Fazer os ajustes necessários — estes constantemente atacados pelo próprio PT, conversar com a sociedade e criar as condições reais para se manter no poder deveriam ser a prioridade desde 2015. Além de tudo isso, Dilma em particular jamais demonstrou conseguir entender e se sensibilizar com as frustrações reais da população por causa da crise econômica.

Foi aí que aconteceu a queda, no não governar. Quem não consegue juntar 1/3 do Congresso tendo a caneta na mão é porque perdeu pra si mesmo.

A ESTRANHA RELAÇÃO PT x PSOL

A radicalização da narrativa vitimista do PT como fazendo parte de uma esquerda popular sendo apeada do poder por golpistas de direita — — apoiados pela Rede Globo e pela grande imprensa — — acabou o isolando de qualquer consenso político. Não a toa, o único partido político que aderiu integralmente ao PT na votação do Impeachment além do PC do B que já é sua extensão, foi o PSOL com seus 6 deputados.

A propósito do PSOL, muito já disse sobre o seu complexo de Édipus na relação com o PT. Sendo uma costela do PT que ficou pelo caminho, o próprio PSOL considera como sua missão ser o PT de ontem para lembrar ao PT de hoje algo da pureza e ingenuidade que este teve um dia em sua juventude. O problema para o PSOL é acabar não sendo uma real alternativa de poder, não apresentar um caminho minimamente viável e, em última análise, sequer ter uma existência própria.

Todos sabem que quando o calo aperta para o PT, o seu filho PSOL pode ajudar. Ao invés de fazer uma oposição de esquerda, o PSOL faz a composição de esquerda. Neste processo, moveu toda a sua indignação contra Eduardo Cunha e ignorou solenemente todas as acusações que pairam sobre o PT. Ironia sintomática, das poucas exceções do partido no sentido de ser mais que uma linha auxiliar do PT é a ex deputada Luciana Genro, que é literalmente filha de uma das grandes lideranças do PT, o ex governador Tarso Genro.

Entretanto, nessa movimentação do PT em direção a esquerda e ao PSOL, aconteceu também o fenômeno inverso. O pai PT quando flagrado com a mão na botija no Petrolão adotou um discurso que se não o absolve ante a justiça e à opinião pública, pelo menos tenta limpar sua honra perante o seu filho até então rejeitado, o PSOL. Sem juízo de valor, essa relação se configurou similar com aquela do Zé Maria — Juliano da novela A Regra do Jogo.

Quem sabe, no entanto, este movimento não seja um presságio de que passa pela esquerda o caminho da necessária e possível refundação do PT.

ENTRE A POLÍTICA NO UNIVERSO CULT E NO MUNDO REAL

Embora o resultado final da votação do Impeachment na Câmara de 71,5% de aprovação refletiu com grande proximidade os 68% dos pesquisados em Março pelo Datafolha que se disseram favoráveis ao impedimento de Dilma, a elite de intelectuais, jornalistas e formadores de opinião diversos acabou ecoando a retórica de golpe do PT quase que como um posicionamento de classe. Por ojeriza a Cunha, como se fosse ele o principal mandatário da Petrobrás, por deputados supostamente deslegitimados e pelo fato de Dilma não ter roubado pro próprio bolso, algo pelo qual não foi acusada, consideraram que a presidente deveria ser imexível e incaível.

Quando da votação do Impeachment no plenário da Câmara, essa mesma elite se sentiu incomodada e diminuída pela forma em que os deputados se expressaram pra votar. Em resumo, excesso de Deus e excesso de família. Fazer o que se o público destes deputados consideram ser estes os dois dos predicados mais importantes que um parlamentar precisa ter, Deus e família? Trocar o povo não vale.

O VOTO RELIGIOSO

Dentre os vitoriosos do Impeachment vale destacar, também pelo contexto anterior, que a bancada evangélica votou em peso contra o governo. Nos partidos do PRB e do PSC, o Impeachment foi unanimidade entre seus 32 deputados somados. Mais um sinal que se trata de uma força política relevante, organizada e que é controlada à mão de ferro.

Além das dezenas de vezes que a palavra Deus apareceu na votação, em uma das vezes evocando também a paz de Jerusalém e em outra a proteção para a Nação de Israel, o voto judaico do deputado Floriano Pesaro a favor do Impeachment contou com a expressão ‘Arquiteto do Universo’. Representação é isso.

O ESPÓLIO DA VITÓRIA

Uma das perguntas que ficam é saber quem ganha e quem perde após o Impeachment dentro da oposição.

Além do mago do regimento Eduardo Cunha que resistiu sozinho a uma pesada artilharia do governo usando seu aparato de Estado e lançando mão de vazamentos seletivos a partir do Ministério da Justiça — e mesmo assim conseguindo levar a cabo a aprovação do Impeachment na Câmara sob sua regência, outros atores políticos foram importantes neste enredo de sucesso e saem fortalecidos.

Um dos aliados mais fiéis de Eduardo Cunha e sócio de primeira hora na vitória do Impeachment é o deputado Paulinho da Força com seus 12 deputados do Solidariedade que votaram a favor do Impeachment. Estando sempre na tropa de choque, Paulinho usou de todo seu pragmatismo e criatividade para fazer avançar o projeto do Impeachment na Câmara e na sociedade.

É sugestivo que nos protestos de rua contra a presidente Dilma, era em volta dos caminhões de som da Força Sindical com suas músicas e marchinhas populares que se sentia mais vibração e animação com a ideia do Impeachment. Contraponto claro a uma elite rica e ressentida que se via em outros pontos das manifestações. Sua bancada composta por bons comunicadores, alguns deles profissionais na área como o radialista Laudívio Carvalho da Rádio Itatiaia de Belo Horizonte, deram um show a parte durante a votação do Impeachment com direito a estouro de confetes e tudo o mais. Sua performance decisiva em todo esse processo é uma boa demonstração de como se pode fazer uma política eficiente e representativa fora do raio do PT e da esquerda.

O partido Democratas que nunca decolou de verdade desde que deixou de ser PFL apenas perdendo espaço e relevância, encontrou neste processo de definhamento do governo do PT uma bela oportunidade para ressurgir firme e forte no espectro da oposição. Sem titubear, se posicionou de forma consistente a favor do Impeachment tendo no deputado Mendonça Filho a coordenação da parte política do processo e foi quem acertou na mosca o número mágico de 367. Já na última janela partidária viu seu número de deputados aumentar significativamente.

O PSDB por sua vez padeceu de tudo que sobrou de consistência no posicionamento do DEM e do SDD. Foi claudicante e dividido desde o início para apoiar o Impeachment, largou o Deputado Eduardo Cunha na hora errada para logo depois ver Aécio Neves sua principal liderança nacional até então ser citado na Lava-Jato ficando com a pecha de partido igualmente corrupto. Mesmo sendo o maior partido de oposição acabou ficando completamente a reboque deste processo que interessava em muito todos os seus eleitores.

De sua trinca de líderes nacionais, Aécio que sonhava com uma decisão no TSE e Geraldo Alckmin que preferia o PT no poder até 2018, José Serra foi o único que apoiou o Impeachment e faz parte dos que ganham imediatamente com o mesmo. Assumindo um ministério importante no governo Temer, Serra poderá emprestar ao governo um pouco de sua identidade conhecida pela busca e obtenção rápida de resultados. Artigo mais que necessário para Temer. Por ser um personagem que o PT e a esquerda desde sempre amam odiar, Serra certamente irá dividir com Temer as críticas da oposição e de certa forma catalisará seus petardos. Uma situação de ganha-ganha que poderá credenciar Serra a disputar 2018 com alguma condição de ganhar, quem sabe até pelo PMDB.

Na mesma canoa furada que Aécio estava a favor do julgamento no TSE, Marina Silva permanece até hoje. Ela que passou 2015 inteiro calada e mantendo seu capital político, quando resolveu participar do debate em 2016 o viu diminuir. Parece não estar antenada. Mais um indicativo a lhe preocupar é o fato de seu partido mesmo sendo novo no Congresso não ter conseguido captar mais que 4 deputados na Câmara Federal. Fato este que se não a atrapalha na esfera moral lhe dificultará a vida no âmbito prático dos minutos de televisão em 2018.

E para finalizar no glorioso PMDB, ao sair de cena dos ministros Jaques Wagner, Ricardo Berozoini e Aloízio Mercadante entre demais figuras carimbadas do PT, devemos começar a nos acostumar com os novo senhores da república Wellington Moreira Franco, Romero Jucá, Eliseu Padilha e companhia limitada.

Enfim pode se declarar finda as eleições de 2014.

Rei deposto, rei posto.