Internet das Coisas sem Internet
Semanas atrás, algumas operadoras de internet fixa do país anunciaram que adotariam o sistema de franquia de dados em seus serviços de banda larga. Este é o mesmo modelo a algum tempo utilizado pelas operadoras móveis, onde o cliente precisa pagar por certa quantidade de dados e, atingido o limite, tem a conexão cortada ou paga pelo excedente. A notícia gerou revolta da população, que utilizou principalmente as redes sociais para demonstrar a indignação com a proposta. Aliados ao povo, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e vários setores do governo, incluindo a própria presidenta, demonstraram ser contrários à medida, o que fez com que a Anatel decidisse proibir a adoção da prática pelas operadoras por tempo indeterminado. Apesar disso, o que para muitos certamente é um pesadelo, ainda não acabou, pois a Anatel ainda discute a proposta. Refletindo sobre o impacto que a aprovação dessa proposta causaria na vida das pessoas, nos surgiu o questionamento: como a limitação do serviço de internet poderia afetar a Internet das Coisas?

Como já se sabe, o ideal que torna possível a Internet das Coisas é a (inter)conexão entre dispositivos. Assim como os dispositivos conectados que temos hoje, os dispositivos criados especialmente para a Internet das Coisas necessitam trocar dados entre si e fontes online o tempo inteiro, gerando um fluxo de dados que, dependendo do tipo destes dados, pode ser significante ou não. De modo geral, informações de texto não são muito grandes, mas o mesmo não acontece com imagens e vídeos. Desta forma, uma possível limitação no serviço de internet permitiria que alguns dispositivos funcionassem sem preocupar o usuário com a franquia, porém somente alguns. Hoje, a vida online não mais prioriza somente textos, como aconteceu por vários anos antes da internet popularizar-se. Hoje, ela é multimídia, e as mensagens escritas são apenas uma parte do todo, nem sempre a mais importante.

Observando nossas experiências e as de outros usuários de internet móvel, percebemos que a conexão com franquia acaba por limitar os usuários, e faz com que eles sintam-se impelidos a não utilizar certos serviços. Nos smartphones, comumente são desabilitadas funções como sincronização automática de e-mails, assim como dados de segundo plano de aplicativos e atualizações automáticas. Navega-se nas redes sociais porque comumente as operadoras não cobram por estes acessos, mas links externos a estas redes são sempre evitados. Ou seja, estabelecer franquias na conexão molda a maneira de se conectar do usuário.
Se a adoção de franquias nas redes móveis é capaz de modificar o comportamento dos usuários em relação à forma de navegação, é bastante provável que o mesmo se daria em uma rede doméstica. Mudariam as atitudes em relação a downloads, a execução de vídeos e músicas online, e assim o usuário passaria a selecionar o que utilizar e o que evitar, tanto dentro da rede como fora dela. Dispositivos de compartilhamento de imagens e vídeos teriam seus usos reduzidos. Chamadas de vídeo poderiam acabar por tornarem-se privilégio.
Além destas implicações, há outra questão ainda mais preocupante. O objetivo dos dispositivos criados para a Internet das Coisas não é somente entreter os usuários, mas sim facilitar-lhes a vida. Sem internet, algumas coisas tornariam-se simplesmente impossíveis, como em um exemplo dado em um de nossos primeiros textos, que mencionava mudar a temperatura da geladeira a partir do escritório ou de qualquer outro lugar. Uma vez que a realidade atual ainda não é esta, se as operadoras de internet realmente adotarem franquias, poderem acabar por inibir a utilização de muitos serviços e dispositivos que aos poucos estão surgindo e tornando a Internet das Coisas algo cada vez mais tangível.
A internet das coisas trouxe em seu cerne mais que o comodismo e a comunicação entre os dispositivos, trouxe um novo estilo de vida, o que fez com que o homem se tornasse “refém” dela, mas não por falta de atenção, ou algo do tipo, mas por um processo natural (já que cada tecnologia que se cria e se torna bem sucedida gera alguma dependência). A exemplo disto temos o fogo que, a partir do momento que foi descoberto pelo homem, passou a ser usado nos mais diversos momentos (na caça, pra se proteger ou se aquecer, etc.), adotou essa ferramenta tecnológica e não conseguiu mais se desprender dela. O mesmo está acontecendo com a internet. Portanto, abrir mão dela seria retroceder a estágios anteriores, e ter que reformular métodos de comunicação, desvinculando-se de tudo o que já tinha sido construído e adotado. Dessa forma, pensar em um acesso limitado à internet nos faz refletir: o que será dos nossos atuais modos de vida (e de todo esse universo que está sendo criado com a Internet das Coisas)? Que tecnologia surgiria para suprir as necessidades deixadas pela dificuldade do acesso a internet? Esperamos não ter uma resposta na prática, mas é bom começarmos a refletir sobre isso…