Catalunya

Como foi possível chegar até aqui?

Como saberão, há cerca de duas semanas, realizou-se na Catalunha, o polémico (e ilegal — é importante não esquecer este facto) referendo com o objectivo de medir a vontade dos catalães optarem ou não pela independência.

Mas a pergunta que eu não consigo ter resposta é: “Como chegámos até aqui?”

Não querendo fazer uma revisão da História de Espanha (que pouco conheço), tal como Portugal, Espanha tem uma jovem democracia, pós-General Franco (1977), mas com uma escala e uma complexidade geográfica e social bem diferente da realidade portuguesa e até mesmo violenta.

Durante anos, eram recorrentes os atentados terroristas liderados pela ETA e a luta separatista do Batasuna no País Basco. Espanha superou esse desafio e nunca como agora se conseguiu viver um período tão pacífico.

Contudo, a crise financeira que acabou por afectar Espanha (como tão bem sabemos, também afectou Portugal) e a prosperidade demonstrada pela economia catalã, criaram as condições para que os nacionalistas conservadores, a esquerda republicana, juntamente com os radicais de esquerda, liderados pela intragável Carles Puigdemont apresentassem argumentos (bastante discutíveis) para que a Catalunha iniciasse um processo do pedido de Independência, através de um referendo, que dificilmente seria aprovado e validado pelo Tribunal Constitucional.

A Catalunha há muito que se tornou no centro da indústria espanhola, primeiro através dos seus portos e têxteis. Recentemente, as empresas financeiras, de serviços e tecnológicas, ganharam um maior peso na economia catalã.

Mas será o sucesso económico da Catalunha um factor suficientemente forte para que se justifique o pedido de Independência?

Pessoalmente, sempre me pareceu um capricho político do senhor Puigdemont. Fico até com a ideia que ainda ninguém, conseguiu efectivamente explicar, quais são as razões para o pedido de Independência.

Não tenho grandes dúvidas, apesar dos divergências que possam existir entre as diversas comunidades autónomas e Madrid (e sim, elas existem), que os espanhóis preferem, na sua maioria (e sim inclui, a própria Catalunha) manter-se unidos.

Agora, há perguntas que precisam de ser feitas e respostas que têm que ser dadas, pelas diversas entidades envolvidas (Governo espanhol, Generalitat, União Europeia, etc). É preciso explicar e garantir aos Catalães que moeda terão, que a União Europeia não será uma realidade a curto prazo, em que campeonato jogará o Barcelona (ok, brincadeirinha… é uma questão menos importante, mas socialmente relevante), etc. Em suma, é preciso explicar de uma vez por todas que o sucesso económico da Catalunha, poderá rapidamente torna-se num inferno e num caos económico. De resto, já existe uma lista de empresas que anunciaram ou aprovaram a sua deslocalização das suas sedes para outras cidades e regiões de Espanha. Se a situação não estabilizar, a lista vai seguramente aumentar. Se é que a lista não aumentou à data de publicação deste post.

Aliás, até me faz alguma confusão que se evoque o sucesso da economia como motivo para avançar para a Independência. Ora, se a Catalunha chegou até aqui, em contra-ciclo com Espanha, como comunidade/região autónoma, porque razão há justificação para mudar? Há alguma coisa que me está a falhar nesta análise?

Obviamente, não podemos esquecer o comportamento reprovável das autoridades espanholas. As acções violentas no dia do referendo só terão dado mais força ao movimento independentista. Mas isso não pode legitimar os objectivos obscuros do governo catalão. O governo espanhol quis fazer cumprir a lei e avaliou erradamente os limites.

Muito melhor do que eu e ainda muito melhor do que qualquer cronista, paineleiro ou comentadeiro, só o discurso (que se tornou viral) da deputada do parlamento catalão Inés Arrimadas do Partido Ciudadanos, realizado após o anúncio do pedido de Independência unilateral. O discurso é perfeito. Sensato, com um tom apaziguador, apesar das palavras duras (e certeiras, diria) para a postura xenófoba do Oriol Junqueras. Eventualmente, com este discurso, terá sido mais esclarecida e eficaz na sua mensagem do que Rajoy ou até mesmo do que o Rei Felipe VI.

Espero sinceramente, que a situação se resolva rapidamente. Com ou sem recurso ao Artigo 155 da Constituição.

Depois de ler “A Sombra do Vento” do Carlos Ruiz Zafón, fiquei curioso por conhecer Barcelona. Há 3 anos seguidos, que visito a cidade de Gaudi e inevitavelmente, estou a apaixonar-me pela cidade e pela cultura catalã e gostava muito que um grupo de saloios, liderados por um bully, não rebentasse com uma região e com uma cidade tão especial. Acho que posso falar em nome dos portugueses, dos espanhóis, dos europeus e de todos aqueles que gostam da Catalunha e Barcelona.

Nota mental: Agora que conheço Barcelona (e acho que ainda não conheço como gostaria), se calhar está na hora de reler “A Sombra do Vento”.