Europa

Depois das intervenções de ontem no Parlamento Europeu, não podia deixar de regressar ao tema “Grécia”.


O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras marcou presença no Parlamento Europeu e não posso deixar de destacar algumas das intervenções de euro-deputados.

Antes de o fazer, gostaria ainda lamentar que o papel do Parlamento Europeu seja uma espécie de máscara para demonstrar à Europa e ao mundo que existe democracia participativa nos órgãos europeus. A questão é que o enquadramento formal e institucional do Parlamento Europeu está muito longe daquilo que se pertende, para uma Europa democrática, participativa e única. Apesar de dispôr de poder legislativo, contrário do Conselho Europeu e da Comissão Europeia, formalmente não tem iniciativa legislativa ao contrário do que acontece com os parlamentos de cada estado membro.

Nesse sentido, perde-se um pouco o espírito que se pretende para a existência de um parlamento.

De qualquer forma, não o impede de causar algum impacto em determinados momentos, especialmente quando figuras de relevância passam pelo plenário europeu. Foi o que aconteceu ontem com o primeiro-ministro grego. Alexis Tsipras marcou finalmente presença e os euro-deputados não deixaram de demonstrar a sua posição.

Como referi no último post, não tenho uma única posição sobre a questão grega e europeia (acho que a questão ultrapassa e muito a dimensão grega).

Se por um lado, a Grécia deve manter-se como estado-membro cumpridor com aquilo acordou e assinou, também não podemos esquecer que aquilo que foi acordado está muito distante de poder ser cumprido e pago.

Nessa altura, esperamos pela solidariedade europeia e dos credores que fazem parte da Troika. Mas não… pretendem continuar a apostar num caminho que correu mal e os gregos, em desespero, estão a demonstrar que o caminho tem que ser outro.

O que a Grécia também necessita de demonstrar é que está disposta a fazer um conjunto de reformas que insiste em não fazer, apesar das propostas eleitorais do Syriza. Vamos com 6 meses de governo e nada foi feito, especialmente em relação à redução da função pública (onde já ouvimos isto) e os privilégios e isenções dos armadores, das Forças Armadas, da Igreja Ortodoxa, das ilhas gregas e dos partidos políticos.

Foram alguns destes pontos que foram apontados pelo euro-deputado belga Guy Verhofstadt, cuja intervenção se tornou viral. São cerca de 7 minutos absolutamente épicos.

O que poucos terão ouvido foi a resposta de Tsipras, que aproveitou para esclarecer que nos últimos meses têm negociado muito e governado pouco e qual foi o resultado prático disso. Pessoalmente, perante a intervenção exuberante de Verhofstadt, a resposta de Tsipras desilude.

Mas há mais posições no Parlamento Europeu, especialmente da ala mais esquerdista (Verhofstadt faz parte da direita liberal), representada no próximo vídeo pela intervenção do euro-deputado britânico Nigel Farage, que prefere apontar que o problema está na adesão da Grécia ao Euro. A Grécia não tinha condições para entrar na Zona Euro. Por isso, que é sugerido a Tsipras é que lidere a Grécia na saída do Euro de cabeça levantada e siga o seu caminho de crescimento com uma nova moeda.

Com este post, ficamos com uma clara ideia que a Europa está dividida e finalmente a reconhecer que o processo da união monetária e do Euro foi um erro e é insustentável, considerand o modelo actual. De resto, os mercados começam, de forma relativamente tranquila, a reconhecer que alterações vão mesmo ter que acontecer, especialmente nos países do sul da Europa. Esses países devem regressar às suas moedas e o primeiro país será a Grécia e que Portugal, Espanha e Itália, podem ser os próximos.

A questão não será assim tão simples, mas o Richard Quest da CNN é muito claro quando refere que depois de ouvir um conjunto importante de pessoas e entidades, chegou à conclusão que a Grécia encontra-se numa situação de 50/50, no que diz respeito à aceitação das novas propostas/reformas ou saída do Euro.

Veremos que vai acontecer nas próximas horas/dias. Uma coisa é certa… a Europa terá que seguir um caminho diferente e este bater de pé da Grécia, poderá ter esse efeito… resta saber se será positivo ou não.