Jovem de origem síria ajuda um amigo, a construir uma bomba
#IStandwithAhmed
Considerando os mais recentes acontecimentos, a legenda da foto que ilustra este post, podia ser o título deste post (ideia original — Boing Boing).
Omar Ghabra won Twitter with these photos, and this quip: "An Arab-looking man of Syrian descent in a garage w/his…boingboing.net
Na realidade, os mais atentos reconhecerão os dois jovens desta foto. O jovem de origem síria é Steve Jobs e o seu amigo Steve Wozniak, enquanto desenvolvem os primeiros computadores Apple. Como é do conhecimento de todos, o avô de Steve Jobs era considerado um tirano e proibiu a sua filha Schieble de casar com Abdulfattah Jandali. Homs na Síria era a cidade onde vivam os pais biológicos de Steve Jobs e devido às circunstâncias, não seria recomendável abortar (para além de ser proibido) e também não seria bem visto pela sociedade síria, Schieble ser mãe solteira. Como o pai estava a morrer, optou pela adopção em território norte-americano.
Quando se fala de Steve Jobs, raramente se faz esta associação. Para o comum dos mortais, Steve Jobs foi um notável cidadão norte-americano, que reinventou a forma como criamos e comunicamos. É verdade que nasceu já em território norte-americano, mas não podemos esquecer a sua origem e raízes e o que esteve na génese da fuga dos seus pais da Síria para os EUA (não comparável com a situação actual, obviamente).
Nas últimas semanas, tive imensa vontade em escrever sobre o tema dos refugiados e daqueles que desesperadamente tentam fugir a uma guerra que dura há mais de 4 anos. Mas as reacções que surgiram nas redes sociais, entre colegas e amigos, deixaram-me profundamente desiludido. Estamos em 2015. Os Estados Unidos são liderados por um afro-americano. O casamento gay é legal e aceite em muitas das sociedades ocidentais. Nunca tivemos acesso a tanta informação como agora. A Igreja Católica, através do Papa Francisco tem dado passos importantes no sentido de modernizar e tornar a Igreja Católica, mais apelativa, especialmente para os jovens. São pequenos passos, mas com um peso simbólico. Em todo este processo, acabei por descobrir que existem grupos de “católicos fundamentalistas” ou “extremistas católicos”, que são completamente contra a vinda de refugiados. Quem diria… “católicos fundamentalistas”…
Acabei por não escrever nenhum post (já sei, já sei… muitos estarão a pensar… “E devias ter continuado caladinho.”) e acabei por reagir somente nas redes sociais, no Twitter e no Facebook (com muitos blocks e unfollows). Mas depois do que aconteceu a Ahmed Mohamed no Texas, não podia ficar calado.
Last night, the Dallas Morning News reported an odd story. A teenager in Irving, TX brought a homemade electronics…www.engadget.com
Para quem perdeu a história, Ahmed Mohamed é um jovem de Irving no Texas, é “maker”, um interessado por projectos com electrónica e ciência, que teve a iniciativa de levar para a sua nova escola um projecto de um relógio numa mala. Se o primeiro professor considerou que o projecto era “really nice”, o outro professor decidiu chamar as autoridades com a acusação de ter criado uma “hoax bomb” ou “TV bomb”.


Aqui fica a explicação do que aconteceu pelas palavras do próprio…
Depois de ler os relatos do que aconteceu e depois de ver o vídeo com o relato na primeira pessoa e considerando todos os factos, eu não tenho grandes dúvidas, que a situação seria bem diferente se este jovem fosse caucasiano, com o nome “Michael Smith” e tivesse uma arma branca na sua posse (daquelas que já deviam estar proibidas há muito tempo e continuam a matar… especialmente norte-americanos e não os seus “inimigos”, argumento que muitos utilizam para justificar a posse de armas).
Eventualmente, seria temporariamente suspenso, os pais chamados à atenção e nada mais acontecia, especialmente a intervenção das forças policiais.
Será hipócrita não assumir que aquele professor, sem conhecer este novo aluno, terá imediatamente concluído, de acordo com o seu quadro de referências e preconceitos, de que se tratava de um jovem muçulmano, terrorista e que transportava uma bomba. Ainda por cima, chama-se Ahmed Mohamed.


Podem apresentar-me todos os argumentos que quiserem, mas o senhor professor deve estar completamente contaminado com aquele vírus que atingiu tantos portugueses nos últimos dias, do racismo e de xenofobia. Aliás… o vírus devia estar adormecido, caso contrário, Salazar não teria ganho o prémio de Maior Português do séc. XX.
Felizmente, os principais gigantes tecnológicos, como o Google e o Facebook já convidaram o Ahmed para visitar as suas instalações e o próprio Presidente Obama já reagiu no Twitter ao sucedido.
Aposto que o professor que chamou as autoridade ainda terá dito: “Eu não sou xenofobo… mas, esse rapaz é perigoso e pode cometer um ataque terrorista.”
De resto, nas últimas semanas, é a frase que eu mais oiço e leio: “Eu não sou xenofobo, mas temos que tratar primeiro dos nossos. Eles são perigosos. As suas tradições são uma ameaça. O Estado Islâmico está inflitrado.
Ora… segundo a Wikipédia, qual é mesmo a definição de “Xenofobia”?
Xenofobia (do grego ξένος, translit. xénos: “estranho”; e φόβος, translit. phóbos: “medo.”) é o medo, aversão ou a profunda antipatia em relação aos estrangeiros, a desconfiança em relação a pessoas estranhas ao meio daquele que as julga ou que vêm de fora do seu país.
Sinceramente, consigo encaixar esta definição em muitos dos posts e reacções que li nas últimas semanas.
Eu compreendo, que possa existir medo e receio, especialmente com a possibilidade do Estado Islâmico poder aproveitar-se das circunstâncias. Também é essa uma característica do terrorismo, de influenciar psicologicamente a nossa sociedade.
Não podemos simplesmente colocar de lado a nossa humanidade e capacidade de ajudar o próximo. Se o fizermos, estamos a ceder. Estamos a perder a “guerra” contra o Estado Islâmico.
Dito isto, não posso deixar de destacar dois dos movimentos mais activos neste momento, no apoio aos refugiados. De resto, não posso deixar de demonstrar orgulho pelo trabalho que tem sido desenvolvido em Portugal, bem diferente do que tem sido feito pelas entidades oficiais europeias, que não conseguem (mais uma vez), tomar decisões, seja no sentido de apoiar os refugiados ou tentar resolver o problema na origem.


Plataforma de Apoio aos Refugiados é uma plataforma de organizações da sociedade civil portuguesa, para apoio aos refugiados. | www.facebook.com


A imagem de Aylan Kurdi despertou o mundo para esta crise. Esta iniciativa tem o nome dele e deve-lhe grande parte da inspiração. | www.facebook.com
Não há soluções perfeitas. Todos sabemos isso. Mas não podemos fechar os olhos a um drama como aquele que é vivido há mais de 4 anos pelos sírios (li no Facebook quem dissesse que não havia guerra nenhuma). 4 anos em que foram completamente ignorados pela comunidade internacional.
Agora que não são ignorados… há uma reacção que me faz lembrar algo que aconteceu precisamente na Europa central e de leste. O que me leva a reflectir se terei mais medo do Estado Islâmico ou desta nova Europa, fria, pouco solidária e especialmente pouco unida.

