Tragédia Grega

Obviamente que não podia deixar de abordar este tema, que tem dominado as notícias nas últimas semanas.

Não pretendo fazer uma análise extensa e pormenorizada sobre este tema, até porque, as discussões que eu próprio já tive, dão para perceber que é um tema quente.

Para já, quero afirmar que estou mais ou menos ao centro desta discussão, isto é, se por um lado, me parece evidente que a Grécia não é cumpridora e tem demonstrado consecutivamente que não tem capacidade para cumprir os seus compromissos com os seus credores, por outro, não podemos esquecer que a fórmula da austeridade falhou (e não foi só na Grécia, como pode ser comprovado pelo caso português) e deve ser escolhido outro caminho.

“Nível de vida das famílias portuguesas regrediu em 2013 para níveis de 1990”

Infelizmente, no meio de tanta posição intrasigente e radical, ainda não vi ninguém reconhecer o falhanço do projecto da moeda única, da união monetária e a necessidade de se fazer uma profunda revisão na forma de financiamento dos países e os mecanismos de valorização e desvalorização da moeda através da emissão de nova moeda.

Se calhar devemos ir mais longe e esta deve ser a oportunidade para a Europa fazer um profunda reflexão sobre os dias que vivemos e que futuro teremos nas próximas décadas.

Para se entender o que falhou, não posso deixar de destacar o artigo do Vox, bem como o vídeo que ilustra através de infografias, que explica como o Euro está na origem da crise na Grécia, como falha o financiamento dos países com mais dificuldades na Europa, por oposição ao modelo norte-americano, que apesar de não ser perfeito, tem conseguido sobreviver.

“How the euro caused the Greek crisis” — Via Vox

Quero pensar que a solução para este impasse poderia passar por uma atitude disruptiva da Grécia (daí o meu apoio ao “Não”). Um pequeno susto que fizesse acordar esta Europa de um coma que parece durar desde 1999 (ou desde que começou o processo de adesão ao Euro) e que ganhou novos contornos a partir de 2008 e as contas mascaradas da Grécia, que nunca devia ter entrado na zona Euro. Foi uma opção política, quando a economia grega (e eventualmente a portuguesa) não apresentava condições para aderir à moeda única. Hoje, é a Grécia que tenta uma solução política (parece-me que é essa a jogada do Syriza), quando os credores pretendem encontrar uma solução financeira e económica para o problema grego.

Para terminar, recomendo uma leitura atenta a um artigo do The Guardian, que apresenta um excerto do livro de Yanis Varoufakis, “The Global Minotaur”, que decidiu abandonar o cargo de Ministro das Finanças, após o referendo que ditou a vitória do “Não” à contra-proposta dos credores.

The red button
If you press it, chancellor, the euro crisis ends immediately, with a general rise in growth throughout Europe.
The yellow button
If you press it, chancellor, the situation in the eurozone remains more or less as it is for a decade.

Ainda está muito por explicar, no que diz respeito aos motivos da saída de Varoufakis, mas neste livro e em particular no excerto publicado pelo The Guardian, ficam bem patentes, os ideais e as diferenças da política apresentada pelo Syriza e a Europa liderada pela Angela Merkl.

Mas a pergunta mais importante ainda está por responder…

“Porque razão os credores recusaram a proposta grega que correspondia a 8 mil milhões de euros?”

Para quem tem memória curta, este proposta foi apresentada no passado dia 23 de Junho, sendo que, a sua recusa e consequente contra-proposta estão na origem da realização do referendo no passado dia 5 de Julho.

Após a vitória do “Não”, os rumores apontam que a Grécia para solicitar um novo apoio financeiro no valor de 7 mil milhões de euros (estão a reconhecer o valor?), sendo que uma das condições é a manutenção da Grécia na zona Euro.

Entretanto, vamos ficar a aguardar pelos próximos desenvolvimentos, com a apresentação da nova proposta e a cimeira extraordinária marcada para o próximo domingo.


(serei só eu que acho estranho que uma instituição como a União Europeia, com 28 membros, se deixe controlar desta forma pela Alemanha e pela França?)