“É preciso desinflar esse clima de ‘Nova Guerra Fria’”, diz pesquisador sobre a crise ucraniana

Professor de História Contemporânea da USP e autor de “Os Russos”, Ângelo Segrillo, avalia o estágio atual do conflito na Crimeia e cita o que falta para alcançar a paz

*Material complementar à coluna no HuffPost Brasil*

Huffington Post — Como o senhor avalia o estágio atual do conflito e que ações precisam ser tomadas pela comunidade internacional para mediar o problema e encontrar uma solução pacífica? É possível dizer que, passados dois anos, a independência da Crimeia é uma escolha sem volta?

Ângelo Segrillo: Acho que a situação só vai melhorar se os dois lados se conscientizarem que precisam desinflar esse clima de “Nova Guerra Fria” que se criou entre o Ocidente (em especial, os EUA) e a Rússia. Sem essa precondição, acho que os esforços serão inúteis, pelo menos a curto prazo. Acho que a questão da passagem da Crimeia à Rússia vai se tornar uma espécie de “conflito congelado”, como outros que surgiram no espaço pós-soviético nas últimas décadas, como a questão da Ossétia do Sul e Abecásia na Geórgia, a questão da Transdnístria em Moldova.

HP — Em uma entrevista à Voz da Rússia, o senhor dizia que a comunidade internacional aceitar a independência do Kosovo e ignorar a questão Crimeia era uma hipocrisia. Entretanto, à época da separação, o Kosovo sofria de uma limpeza étnica por parte da Sérvia e era, já há 9 anos, uma região sobre o protetorado da ONU. Este é um dos principais argumentos contrários à paridade de direitos entre as duas regiões, já que a Crimeia não foi atacada pelos ucranianos o que tornaria o referendo de anexação à Federação Russa, inválido. Como o senhor avalia este argumento?

Segrillo: Eu não quis dizer que os conflitos são iguais, apenas giram em torno de questões análogas. O que acho que deve ser evitado é o que se chama em inglês de “double standards” (pesos e medidas diferentes de acordo com a cara do freguês). No Kosovo se aceita a intervenção de fora para proteger a população. Mas no Leste da Ucrânia, região onde os russos étnicos são maioria, não se aceita a intervenção de fora (da Rússia) para proteger a população nativa que se recusou a aceitar a deposição do presidente eleito da Ucrânia. A Crimeia não foi “atacada” pelos ucranianos, como estes fizeram nas regiões do leste do país de maioria russa, pois sabiam que lá havia a frota russa que a defenderia. Onde não havia a frota russa, ou seja, no Leste da Ucrania, os russos foram atacados e até hoje se encontram sitiados.

HP — A comunidade internacional e a imprensa ocidental vê em um Putin uma postura imperialista, supostamente confirmada pelas ingerências no conflito Azerbaijão-Armênia e na guerra da Geórgia, por exemplo. Assumindo este conceito, até que ponto as sanções econômicas podem surtir efeito na tomada de decisões de um presidente como ele?

Segrillo: Sanções econômicas apenas talvez não tivessem grande efeito, pois a economia russa é relativamente autossuficiente (produz manufaturas e tem imensa riquezas minerais). Mas sanções, numa época, em que os preços do petróleo estão em forte baixa, estão colocando forte pressão na Rússia. O problema é o que se quer obter com isso. Que a Rússia se auto-isole e se torne refratária ao mundo? Acho esse um caminho suicida para o mundo e capaz de levar a conflitos sérios em nível mundial.

HP — Em qual medida o senhor avalia o risco de não só a Crimeia, mas todo o leste ucraniano optar por independizar-se do resto do país e assumir laços mais estreitos com o Kremlin? É possível dizer que o separatismo crimeio pode ter dado início a um processo de ruptura territorial na Ucrânia?

Segrillo: Acho que a maioria dos russos no Leste da Ucrânia desejariam isso. Mas Putin reluta em solução tão radical, pois o custo para a Rússia poderia ser alto demais. Ao contrário da Crimeia, onde a população é esmagadoramente de maioria russa, no Leste da Ucrania os russos étnicos são o grupo mais populoso e a maioria da população, mas não é uma maioria tão esmagadora quanto na Crimeia. Não só há uma minoria notável de ucranianos étnicos, mas principalmente a distribuição étnica é muito heterogênea: há regiões rurais no Leste da Ucrânia em que a maioria é ucraniana. Assim, a ocupação de um território tão grande e heterogêneo seria muito mais custoso e difícil que na Crimeia, onde a esmagadora maioria russa rapidamente votou pela volta da Crimeia à Rússia.

HP — Passado o furor do referendo de março de 2014 e com a eminente troca de presidentes nos Estados Unidos — principal aliado diplomático ucraniano — quais devem ser os passos na região a partir de agora?

Segrillo: os passos de quem exatamente? Dos EUA? da Rússia? da Ucrânia? Acho que as respostas são diferentes para cada um dos casos. Do meu ponto de vista pessoal (visto de fora) o que é necessário é sair desta retórica atual de “Nova Guerra Fria”, estabelecerem-se acordos de cooperação multilaterais includentes (e não políticas unillaterais excludentes) e, acima de tudo, respeitar-se a soberania dos países e das populações. Acho que esse é o caminho para sair deste jogo de soma-zero atual.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.