Eu, Alemanha

Com a palavra, os vencidos. Suor e sangue em uma época que (não) ficou para trás


Eis a pequena historinha: recebemos na faculdade a tarefa de explicar as consequências da Primeira Guerra no panorama político europeu. Resolvi de descrever as marcas pelas palavras dos vencidos. Segue o texto. Você pode ler ao som desta sinfonia interpretada por Philip Glass.

Eu, que carrego em minhas cores o sangue que lavou minha terra, a amarelo que nos guiou por tempos trevosos, tempos que ostento com orgulho no meu negro enlutado. Eu, que pelas armas uni meus filhos e que com a baioneta à altura do pescoço, sucumbi. Ajoelhada. Humilhada. Eu que, por anos tortuosos, não fui nação, fui retalhos. Agora não sou uma ou outra: sou sombra de minha glória, dos ideais que se foram, da força militar que me foi arrancada.

Houve um tempo em que olhei para além de meus limites. Que vi nas terras de além-Europa, a possibilidade de reafirmar minha grandeza, de mostrar aos meus vizinhos que alcançaria o potencial a que estava destinada. Mostraria mais uma vez à França — que tanto fez para evitar meu surgimento, que tanto temeu minha capacidade industrial — o seu lugar na história. Coroei meu imperador, Guilherme I, na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versailles e o faria repetidamente em colônias mais, apagando nome após nome francês dos anais do conhecimento humano. Alsácia-Lorena seria apenas uma amostra de meu poder.

De mãos dadas com meus pares, formei à Tríplice Aliança. Em comum com a Áustria-Hungria e com a Itália, tinha minha pouca idade e minha grande sede. Queríamos mais. Merecíamos mais. Responderam com a Tríplice Entente e de repente nossos inimigos ficaram claros: França — minha algoz -, Inglaterra e Rússia. Um tiro de um estudante e estava detonada a pólvora. Era o fim e o início. Seria minha consagração.

Hoje, quando olho para trás, me sinto nostálgica. Risquei o ar com a fumaça dos morteiros, que sobre as tropas da França envenenei com cloro, naufraguei navios com alimentos aos britânicos e me fiz temer ao dominar o firmamento europeu com meus aviões. Mas cometi um erro: calculei mal o poder de um inimigo até então, separado por um oceano de distância. E quando obliterei os americanos e seus suprimentos aos Ententes, provoqueio-os. Era o fim e o início. Seria minha perdição.

Meu solo de riqueza era agora cadáver putrefato. Nossas trincheiras se acorrentaram à lágrima, à peste, à loucura. À morte. E quando a Morte caminhava a passos ligeiros pelas minhas vilas, me rendi.

Ah Versailles, que viu Guilherme I em seu auge, agora era símbolo de minha derrota. Meu exército foi reduzido. Minha indústria bélica, controlada. Alsácia-Lorena, o marco do meu expansionismo, voltava agora para mãos inimigas. Paguei minha ambição com ouro. E me vi falida.

Eu, que agora me chamo República de Weimar. Eu que luto contra a inflação, contra a agitação e o inconformismo do meu povo. Eu que agora sou escória, que estou isolada. Eu, Alemanha. E minha promessa de vingança.

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