Supervisor de Advocacia do Diabo ou: Skol, não esqueça dos outros.
Bruno Pommer
501

Ou quiçá, "Departamento de Censura"

O texto sugere uma figura mitológica com poder de "avisar" que certas campanhas podem dar erradas ("avisar" assim, entre aspas, porque é basicamente o papel de censor. Se este ser mitológico tem o poder de identificar se uma campanha vai dar errada, isto só tem serventia se tiver também o poder sobre a equipe de criação para que ela desista da campanha e trabalhe madrugada a dentro para uma campanha que não venha a dar errado).

A campanha da Skol é ruim? O problema todo é que depois da internet — ou mais precisamente, do advento das redes sociais — houve uma mudança de mãos de quem tinha prerrogativa de determinar o discurso. Se antes apenas instituições emplacavam ideias, palavras de efeito, slogans e bordões, com a internet esta prerrogativa mudou de mãos e deu poder de comunicação de massa para os indivíduos. São eles que pautam o discurso agora. E as instituições, ilustradas pelo velhote que usa um boné virado para trás e começa a tentar conversar usando gírias para conquistar artificialmente identidade com os indivíduos, tentam seguir atrás deste novo discurso.

Se você pega dois indivíduos conversando informalmente e aplica sobre eles a fiscalização politicamente correta, basta alguns minutos para que os dois sejam reepreendidos em um bom número de artigos desta patrulha. Os dois não são preconceituosos, não são racistas, não são sexistas, não são capitalistas destruidores do meio ambiente. Só estão num momento informal aonde desfrutam daquela coisa que as pessoas parecem esquecer que existe, a liberdade de pensamento e expressão. Eventualmente, com a internet, esta tipo de informalidade vem à público.

O problema das instituições é que elas não contam com apoio para exercerem esta mesma liberdade de expressão. Segundo a ótica das massas, qualquer coisa que venha a público (de indivíduos ou instituições), precisa seguir uma agenda politicamente correta, que promova a igualdade, a ecologia, o consumo consciente e de quebra, evite que os continentes parem de se separar.

Uma evidência disto é a perseguição contra a publicidade infantil. Usando exemplos de publicidade dos anos 80 que não são mais praticados, dizem que a propaganda direcionada à crianças deve ser suspensa para evitar criar ansiedade nos pequeninos.

(Não, nunca vi no discurso contra a publicidade infantil alguém sugerindo desligar a TV)

É basicamente o mesmo problema desta campanha da Skol: Deve ser suspensa para evitar divulgar "a cultura do estupro". Bom, se publicidade tivesse realmente este poder de modificar o comportamento dos indivíduos, ninguém mais deixava água parada, fumaria ou compraria DVDs piratas. É curioso como apenas as campanhas "para o mal" devem ser combatidas mas manipular a massa "para o bem", ora, não tem problema. O problema não é manipular as pessoas, é para o que são manipuladas. E quem vai decidir o que é bem ou mal? Agora espero que esteja me fazendo entender o problema de criar uma "censura benéfica" não é ser "benéfica", é ser "censura".

Se eu vejo publicidade ruim, eu acho que isto faz parte da liberdade de expressão. Seja para indivíduos ou seja para instituições, elas respondem pelo abuso desta liberdade. E se a publicidade me constrange, eu exerço então a minha outra liberdade: A de não consumir este produto.

Mas a população não acha este cálculo o suficiente. Elas apostam que os demais seres humanos não tem senso crítico para se defender (e quanto a elas próprias? É claro que acham que tem). Elas preferem defender esta espécie de "liberdade de expressão com uma agenda". Isto para mim é censura, não importe o bom motivo que usam para justificar.

E pior, não censuram apenas a expressão. Censuram também a liberdade de pensar dos indivíduos, os colocando numa redoma protegida de campanhas que o "Supervisor de Advogado do Diabo" irá determinar.

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