Dia de Finados e uma dor que não cabe no peito

Ira Romão
Nov 3 · 2 min read

Participar, anualmente, da "Comemoração de todos os fiéis defuntos", popularmente conhecida como "Missa dos finados", mais do que um ritual religioso, sempre foi para mim um momento de confirmação de fé.

Como cristã, aprendi que o “Dia de Finados” é uma data separada para orações e homenagens à quem fez sua passagem. Além de ser um momento importante para aprender com as perdas e as situações da vida.

Apesar de todas as crenças e fé, cheguei neste 2 de novembro despedeçada. Logo, minha participação na missa de finados foi bem mais dolorosa e reflexiva.

Estou de luto por uma perda que sequer existe nome para definí-la, a perda de um filho.

Há 24 dias minha filha recém-nascida fez sua passagem, pouco antes de completar seu primeiro mês de vida.


Heloísa foi uma guerreira. Lutou até o último momento. Sua força e doçura marcaram a todos que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Isso mesmo, faço questão de repetir, conviver. Minha filha existiu e viveu sua curta vida com muita personalidade e garra. Chorou, sorriu, sentiu, lutou, transmitiu e recebeu muito amor.

Minha pequena transbordava amor, principalmente por meio de seu olhar brilhante e firme.

Ahhh tantos planos e sonhos que jamais se realizarão.

E neste momento em que meu luto esbarra no dia de finados, só ficou mais evidente como está difícil seguir sem você filha.


É muito difícil ser mãe sem poder segurar minha filha em meus braços. Assim como é difícil entrar em seu quarto e não encontrá-la no berço.

Dói não escutar seu choro, não sentir seu cheiro e ainda escutar como tentativas de consolo frases como “logo Deus lhe dará outro filho" ou que “foi melhor assim”.

Nunca mais nada será como antes. Meus sentimentos, minhas emoções, meus pensamentos, meu caminhar, meu corpo, minha fé… minha alma.

Embora eu saiba que preciso seguir, sem meu pacotinho de amor meu caminhar segue lento, vago e sem sabor.

Ao lado do meu marido e de nossas famílias venho tentando juntar meus caquinhos e seguir administrando uma dor que não cabe no peito. É inexplicável.

Falta um enorme pedaço de mim. E por isso os questionamentos são inevitáveis e a dor, na maioria das vezes, insuportável.

Por agora eu só quero vivenciar meu luto. Porque diferente dos anos anteriores, a lição do dia de finados deste ano ainda não foi aprendida.

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