O Trabalho e a bicicleta

por: Mauricio Maia

Anoitecia quando cheguei a Icaraí. Um pouco mais cedo que o previsto, eu encontrei Leonardo ainda no trabalho. Faltavam vinte minutos para ele largar no serviço e combinamos que eu o aguardaria lá fora e me procuraria assim que saísse. Um pouco ansioso, era minha primeira entrevista, sentei-me a mesa de uma pequena lanchonete, revi as minhas perguntas e as que a Tati havia me passado pelo celular. Anotei tudo em um caderno e assim que terminei recebi a ligação do Leonardo, me aguardava na entrada do prédio. Fui ao seu encontro e conheci sua bicicleta que o acompanha de São Gonçalo a Niterói dia sim, dia não, para o trabalho.

A história de Leonardo começou quando ele encontra sérias dificuldades para se deslocar de sua casa para o seu novo emprego em Icaraí. Levantava cerca de cinco e meia da manhã, pegava duas conduções para bater o ponto sete horas no emprego. Levava aproximadamente uma hora e geralmente, devido ao transito caótico de Niterói, chegava atrasado e isso o levou um dia a ter uma discussão com um dos colegas de trabalho que o esperava para poder ir embora. Até 2004 ele costumava fazer tudo de bicicleta, inclusive indo para um antigo trabalho no Fonseca. De lá para cá parou, sem saber explicar o motivo. Vendo todos os dias as pessoas passarem de bicicleta nas ruas e em conversas, principalmente com a Ana Carboni — moradora do prédio onde trabalha e uma cicloativista por natureza que incentiva a todos usarem a bicicleta para se locomoverem pela cidade. Começou a pensar na possibilidade de vir pedalando para o emprego. Nesse tempo soube que um dos moradores tinha uma magrela para vender e ao falar com ele sobre as suas dificuldades e as vantagens que passaria a ter, o rapaz, que já possuía cinco e as usava para todos os lugares conhecendo seus benefícios, resolveu lhe dar uma ao invés de vendê-la. Era uma Caloi 10 antiga e já desgastada pelo tempo, mas com uns pequenos ajustes e a substituição de algumas peças poderia ser utilizada para transformar a vida de Leonardo. Nos primeiros dias já sentiu a diferença, começou a chegar meia hora antes e tomava seu banho tranquilo. Com o tempo foi percebendo as coisas mudando, melhorou consideravelmente seu humor e passou a trabalhar com mais disposição — “O ônibus me deixava preguiçoso!”, perdeu peso, estava um pouco obeso, tendo um crescimento na sua condição física. A bicicleta voltou a fazer parte da sua vida de uma forma mais intensa.

Durante a conversa falamos sobre o transito e seus problemas, a construção de novas ciclovias e a melhora na convivência dos motoristas e ciclistas. Contou-me sobre um acidente que sofrera ao travar o manete do freio em uma descida fazendo com que capotasse, ralando os braços e batendo sem muita força — ainda bem! Com a cabeça em um acabamento de um canteiro na calçada. Desse dia em diante o capacete passou a ser um item obrigatório. Chamado de maluco pelos amigos, há três anos Leonardo vem fazendo esse caminho de bike, adquirindo uma experiência que levará para sempre consigo. Um ano atrás comprou outra bicicleta, uma Caloi Dez mais moderna e semi-nova. Passou para o seu filho de dezessete anos além da bicicleta antiga todo o seu entusiasmo, incentivando-o a usá-la para a escola e começaram a realizar pequenos passeios juntos em seus dias de folga. No futuro pensa em juntar-se a alguns grupos para uns pedais mais longos e, quem sabe, realizar o sonho de uma viagem pedalando Brasil a fora.

Nosso bate papo levou cerca de meia hora, já estava escuro e nós tínhamos um longo trajeto de retorno para nossas casas. Despedi-me de Leonardo com um abraço e a certeza que acabara de conhecer uma pessoa fantástica transformada pela bicicleta e que a sua história sirva de exemplo para aqueles que acham a vida ingrata e passam o tempo reclamando sem tomarem a iniciativa de a mudarem por completo, como ele mudou a dele.