Viajar. Conhecer novas vistas e ver novos mundos. O sonho do pobre, o lugar comum do rico, e o parcelamento da classe média.
Uma viagem (voyage, voyage… alguém?) possui o poder quase mítico de transformar você em um “novo você”. Pelo menos isso é o que é prometido desde os anos 70 ou algo assim. Os mileniais adotaram essa mentalidade. As pessoas estão fazendo suas malas, viajando leve, e retornando humanos melhores. Mas onde estão todos estes humanos melhores? Se você andar de ônibus/metro/algo assim, ou ir pro trabalho, você verá que as pessoas, a despeito de serem bem viajadas ou não, continuam brigando pelas mesmas coisas mesquinhas de sempre.

O que ocorre então? Uma mentira propagandeada para todos nós, como sempre, e a minha geração mordeu tanto a linha quanto o anzol.

Não acredita em mim? O pendulo balançou para o outro lado, e a web agora está cheia de histórias com o outro lado de “abandone seu trabalho, viaje ao redor do mundo e você será livre”. Pessoas dizendo como estas decisões tornaram a vida muito, muito difícil para elas, e não tão recompensadora. Isto se aplica a você, Sr. e Sra. “eu ganho bem trabalhando num escritório com ar condicionado”. Dependendo de suas credenciais, em outro país o único emprego que você vai conseguir será de trabalhos servis. Você está pronto pra quebrar pedras por 12h direto para justificar sua hipsterice? Sim, você que em seu país de origem tem uma doméstica que é “quase da família” possivelmente trabalhará como uma no seu país dos sonhos. Você está pronto para essa experiência?


Quebrar pedras é praticamente a mesma coisa em toda parte. Porque você não o faz aqui? Aonde você está agora, é rebaixar-se, mas em uma localização geográfica diferente, quebrar pedras se torna a missão de sua vida? Não é. Parece ser uma experiência diferente devido a nossa tendência a fetichizar as coisas. Vemos outro país pelas lentes de filmes, livros e redes sociais. Não visualizamos a atendente furiosa, apenas vemos que o croassant francês é inerentemente melhor que nosso próprio croassant cinza. Se apenas eu tivesse isso, ou aquilo em meu país é o mantra. Ter. Possuir. Viajar por aí com essa ideia é apenas consumismo disfarçado como desapego saudável ou mesmo espiritual.

Se você ainda está comigo, não é surpresa que as pessoas retornam as mesmas em ações, a despeito de falarem o quanto elas cresceram enquanto seres humanos. Você não pode viver a espiritualidade real fazendo uma savana de homem rico; ficando maravilhado como esses pobres bastardos na etiópia conseguem viver, a despeito de não possuírem Iphones. Pelo menos eles são ricos, você diz para você mesmo. A verdadeira espiritualidade é ação. É agir como um ser humano com compaixão e empatia. Ouvir. Ser útil ao invés de destrutivo. Para fazer isso você não precisa de um centavo. Você não precisa viajar por ai com pouca bagagem ou isso ou aquilo. Você precisa apenas decidir e agir.

O mundo precisa desesperadamente de mais pessoas dispostas a fazerem este salto de fé: não de viajar sem saber quando e como você volta, mas o salto de confiar em si mesmo como uma criatura espiritual capaz de fazer mudanças no mundo, e capaz de enxergar tanto as pessoas de onde você vive quanto as pessoas de países diferentes, e não como fetiches a serem experimentados e consumidos.

Sim, viajar é preciso. Mas para dentro, para descobrir a si mesmo. E, entendendo e mostrando compaixão para si mesmo, você entenderá outros.

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