Elitização no futebol: acesso negado

Como e por que os torcedores estão se afastando dos estádios

O futebol chegou ao Brasil no final do século XIX, trazido, na versão oficial da história, pelo paulistano Charles Miller, filho de pais britânicos. No início teve sua prática restrita à elite. As primeiras ligas eram dominadas pela aristocracia, enquanto os mais pobres e os negros podiam apenas assistir. Contudo, entre as décadas de 1910 e 1920, negros e operários começaram a ser aceitos e o futebol se massificou, sendo conhecido até hoje como um “esporte popular”.

Todavia, atualmente o futebol passa por um processo de elitização dentro dos estádios brasileiros, que impede as camadas mais populares de assistirem seus clubes do coração de perto. O chamado processo de “arenização” e o crescimento do número de sócios torcedores torna o acesso aos jogos ainda mais difícil. Alguns clubes, como o Corinthians e o Palmeiras, passam pela experiência de um aumento da elitização dentro de seus estádios. Outros, como o São Paulo, seguem um movimento relativamente contrário a isso, com ingressos que custam significativamente menos que os dos times já citados.

Nesta reportagem serão mostradas as causas e consequências deste processo, através da opinião de professores e historiadores entrevistados, com recorte mais profundo dentro do estado de São Paulo, focando nos três grandes clubes da capital.

A história por trás do Trio de Ferro

Corinthians e Palmeiras surgem em períodos próximos, no começo do século XX, mas ganham seus contingentes de torcedores de maneiras diferentes.

O Palmeiras recebeu a maior parte de seus torcedores do forte processo de imigração que ocorria no estado de São Paulo no final da década de 1910 e começo da década de 1920, especialmente imigrantes italianos. Inicialmente denominado Palestra Itália, o perfil da torcida palmeirense, num primeiro momento, era mais popular, como explica o doutor, professor de história da Universidade de São Paulo, coordenador do centro de pesquisas LUDENS (núcleo interdisciplinar de pesquisas sobre futebol e atividades lúdicas), localizado na USP, e também palmeirense Flávio de Campos: “Na origem, provavelmente, a torcida do Palestra Itália, até 1940, seja a maior torcida da cidade de São Paulo. Muito provavelmente o perfil socioeconômico da torcida do Palestra Itália até 42 é composto por integrantes das classes trabalhadoras. Então é um perfil mais popular, não que não haja grande parte da classe média”.

A mudança se dá em 1942, com a Segunda Guerra Mundial. Getúlio Vargas obriga o então Palestra Itália a mudar de nome, e é possível observar uma ofensiva geral contra o torcedor palestrino, devido à ligação com a Itália, inimiga do Brasil na guerra (a partir do momento em que Vargas declara seu apoio aos aliados). Nesse momento há um decréscimo na torcida do agora Palmeiras, e provavelmente o começo de uma mudança de perfil na torcida. Uma vez que o rival Corinthians passa a receber um maior contingente de torcedores provenientes de camadas mais populares, e a ser conhecido como “o time do povo”, ao Palmeiras acabam restando as grandes famílias italianas e suas influências em outras comunidades. “A partir da década de 40 talvez a gente tenha uma concentração maior da torcida do Palmeiras nessas classes médias”, diz Flávio de Campos.

O Corinthians surge inspirado no clube inglês Corinthian, quando alguns moradores do Bom Retiro, ao assistirem um jogo daquela equipe que excursionava ao Brasil, decidem fundar um time de futebol, em 1910. O Corinthians começa a jogar na várzea e a ganhar jogos e popularidade, especialmente entre as camadas mais populares (negros e operários). Profissionaliza-se em 1933, e começa a se consolidar como a maior torcida do estado a partir da década de 40. Naquela época o clube abriu espaço para os negros e migrantes advindos do incentivo à migração do governo Vargas, formando sua imagem de “time do povo”.

Elenco do Corinthians vestindo o primeiro uniforme do time. (https://www.meutimao.com.br/historia-do-corinthians/fatos-marcantes/a_fundacao_do_corinthians)

Uma vez que o Palestra aceitava apenas italianos e o São Paulo era conhecido como o “clube da elite”, o Corinthians funcionava como “refúgio” desses outros grupos. O professor de ensino médio, historiador e corintiano Plinio Labriola, que já escreveu vários livros sobre o Corinthians, como “Os Gaviões da Fiel: ensaios e etnografias de uma torcida organizada de futebol”, explicou como o Corinthians ganhou tamanha popularidade dentro de São Paulo: “Por que o Corinthians cresce? Ele cresce porque acaba se tornando, entre esses três clubes (Corinthians, Palmeiras e São Paulo), o chamado Trio de Ferro, o único que recebe qualquer nacionalidade. Tem uma origem italiana, então pode continuar recebendo italianos, óbvio que preferencialmente o italiano vai para o Palestra. Vai receber espanhóis, São Paulo tem uma comunidade espanhola muito grande. Contribui para que os espanhóis ficassem muito próximos do Corinthians, os negros ficassem próximos do Corinthians, e mais tarde os mineiros, e mais tarde os baianos. Ou seja, o Corinthians cresce porque ele vira o clube do resto ”.

Plinio Labriola

O São Paulo tem o início de sua história em janeiro de 1930, a partir da união de atletas e sócios de dois clubes muito tradicionais da capital paulista, o Clube Athlético Paulistano e a Associação Athletica das Palmeiras. O Paulistano sempre foi contra o profissionalismo que estava começando a ser adotado no futebol brasileiro nas primeiras décadas do século passado e, por conta de algumas decisões políticas sobre esse assunto, o clube decidiu abandonar a modalidade. Alguns atletas e diretores não concordaram com tal decisão e então reuniram-se com dirigentes da A.A. Palmeiras e, em 26 de janeiro de 1930, foi assinada a ata de fundação do São Paulo Futebol Clube.

O Morumbi, até hoje o maior estádio particular do Brasil, é um marco histórico do clube e um fator muito importante na construção de sua popularidade. Diferentemente do que acontece com a Arena Corinthians e com o Allianz Parque, segundo o historiador do Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube, Michael Serra, não houve aumento no preço do ingresso após a conclusão do Morumbi: “O clube não descontou os preços da construção do estádio na torcida, pois o mesmo já estava pago ”.

Estádio do Morumbi. (http://www.saopaulofc.net/estrutura/morumbi/sobre-o-morumbi/)

Ainda segundo Michael, o estádio do Morumbi foi construído sem participação alguma de dinheiro público: “De 1952 a 1960, a construção foi principalmente bancada pela venda antecipada das futuras cadeiras cativas. Esse modelo funcionou bem até a inauguração parcial do Morumbi, em 1960. Contudo, mesmo com quase todas as cadeiras vendidas, o valor não foi suficiente para terminar o estádio. Assim, de 1960 a 1968, as obras quase em nada avançaram em termos de estrutura. E aí chegamos à segunda etapa e ao segundo empreendimento que bancou efetivamente a construção do Morumbi: o Carnê Paulistão. Criado em 1968, foi uma espécie de Carnê do Baú, aquele do Silvio Santos. Foi o primeiro de seu tipo e fez tremendo sucesso. Assim, em pouco menos de dois anos o São Paulo ergueu o terço final do Morumbi e o inaugurou, finalmente completo, em 1970”.

Atualmente, os perfis das torcidas dos três grandes clubes da capital são diferentes entre si. Enquanto Corinthians e São Paulo têm uma distribuição igual de torcedores entre as classes sociais e no nível de escolaridade semelhante (o que nega, aliás, o mito de que o São Paulo é o clube da elite e o Corinthians o clube do povo), o perfil da torcida palmeirense segue uma linha diferente. A torcida do Palmeiras está mais concentrada na classe média, como consta numa pesquisa realizada pela Folha de S.Paulo, nos anos de 2008 e 2012, denominada DNA Paulistano. O estudo tinha como objetivo realizar um perfil do eleitorado da cidade. Ao passo em que havia perguntas sobre o clube de futebol de cada um, foi possível cruzar dados e descobrir o percentual e o perfil de torcedores na capital.

O perfil das torcidas dos três clubes dentro dos estádios também é diferente. Enquanto Corinthians e Palmeiras cobram ingressos entre R$ 90,00 e R$ 200,00 para os jogos em suas arenas, as entradas para um jogo do São Paulo no Morumbi variam entre R$ 20,00 e R$ 140,00. Portanto os perfis das torcidas que acompanham os clubes nos estádios são distintos. Na Arena Corinthians e no Allianz Parque, o público predominante é de classe mais alta, enquanto no Estádio do Morumbi mostra-se bem variado, com torcedores de classe baixa e alta.

O começo da exclusão

É complexo falar sobre quando começa esse processo de elitização dentro do futebol brasileiro. De acordo com Flávio de Campos, ele tem dois pilares principais: primeiramente o próprio mercado de venda de atletas, no qual os clubes com maior poder financeiro têm a capacidade de comprar os melhores atletas. Dessa forma, são formados os clubes grandes e os pequenos, elitizando os campeonatos. Essa parte da elitização ocorre em todo o futebol mundial. O segundo pilar, mais importante aqui, é o que está relacionado à elitização dentro dos estádios: a chamada “arenização”.

O processo de arenização dos estádios brasileiros começa no momento em que é determinado que o Brasil sediaria a Copa de 2014, em outubro de 2007. A partir daquele momento foi definido que os estádios precisariam ser mais “modernos” e confortáveis, e os clubes foram construindo suas arenas e abandonando os antigos campos. Além disso, uma série de arenas foi construída pelo governo em diversas localidades. Essas construções levaram a mudanças significativas no público frequentador dos estádios, como explica Flávio de Campos: antes, tinham-se estádios onde cabiam todos os setores da sociedade brasileira, em que existiam as “gerais”, e também cadeiras e setores mais caros para quem quisesse um conforto maior e pudesse pagar por isso. Tais espaços permitiam que os setores populares acompanhassem os clubes dentro dos estádios. Contudo, com a chegada das arenas, tem-se uma concentração maior de espaços de expectação das classes médias, e uma consequente exclusão desses setores populares, a partir da cobrança de ingressos excessivamente caros. Tudo em nome do conforto e de uma “modernização”.

Meninos tentam ver o jogo por fora do novo estádio do Palmeiras. (https://twitter.com/sem_firulas/status/871464274924904448)

Esse processo afetou diretamente a cidade de São Paulo, sendo que dois dos três maiores clubes da capital passaram por uma transição de estádios ao construírem novas arenas. A Arena Corinthians e a Allianz Arena foram erguidas em 2014, mas implicaram questões e consequências diferentes para os clubes, apesar de ambas terem favorecido o processo de elitização no qual estão inseridas.

Fechada com a empresa Odebrecht, a construção da Arena Corinthians foi de 2011 a 2014. Com o custo inicial previsto para 820 milhões de reais, o total final passou de 1 bilhão. Por contrato, o Corinthians é obrigado a destinar toda a receita do estádio, incluindo bilheteria, propriedades comerciais e “naming rights”, para pagar a dívida contraída com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A dívida inclui encargos da Caixa Econômica Federal com uma taxa de juros por ano. O pagamento ao Arena FII, fundo imobiliário administrado por Odebrecht e Caixa Econômica Federal e montado exclusivamente para o pagamento do estádio corintiano, é avaliado em 1,150 bilhão de reais. Como 420 milhões de reais são em incentivos fiscais, o clube deve arcar com a outra parte do montante, estimada entre 730 e 750 milhões de reais, em até 12 anos. Com tais valores, o Corinthians se colocou numa crise financeira que vive ainda hoje e parece estar longe de ser solucionada.

Arena Corinthians. (http://espnfc.espn.uol.com.br/corinthians/paixao-maloqueira/11548-arena-corinthians-e-o-desabamento-mitos-e-verdades)

A inauguração do Allianz Parque, em novembro de 2014, acelera o processo de elitização dentro do Palmeiras. Desde o começo, os preços dos ingressos foram considerados muito elevados (mantendo as médias mais altas do país em muitos momentos), ao passo que as médias de público, curiosamente, também são das mais altas. Isso acontece, de acordo com Flávio de Campos, principalmente devido ao perfil do torcedor palmeirense: uma maioria de “classe média endinheirada”. Alguns outros fatores podem explicar os bons públicos: a euforia inicial pela chegada de um novo estádio e o bom momento pelo qual o clube passa, com a chegada da patrocinadora Crefisa, são alguns deles. É importante notar que, apesar de o clube não possuir grandes dívidas com o estádio, boa parte dos valores arrecadados com ingressos vai para a empresa Allianz, que também tem papel importante na determinação dos preços. Além disso, o clube tem a “obrigação”, caso seja do interesse da empresa, de realizar shows e outros eventos no estádio. O dinheiro com a realização destes também vai para a empresa. Esses e outros fatores acabam colocando em cheque a quem de fato o estádio pertence: ao Palmeiras ou à Allianz?

Allianz Parque. (http://www.cidadedesaopaulo.com/sp/esportes/4755-allianz-parque-uma-das-mais-modernas-arenas-do-brasil-se-firma-como-ponto-turistico-da-zona-oeste)

Esse processo de elitização também tem outra consequência importante: ele obriga, de certa forma, os torcedores que não podem comprar ingressos para os jogos a os assistir pela televisão, não apenas dando audiência para os grandes veículos, mas também consumindo as grandes cargas de publicidade que são transmitidas durante os comerciais. Flávio de Campos classificou isso como um “jogo perverso”, uma vez que, como o historiador britânico Eric Hobsbawm diria, o futebol se tornou a “religião laica da classe operária”, e ela acaba tendo acesso a um de seus maiores lazeres dificultado ou até mesmo impossibilitado.

Por que tão caro?

Os preços dos ingressos nas novas arenas brasileiras aumentaram consideravelmente observando um panorama geral. A arena do Palmeiras, por exemplo, tem médias que passam a casa dos cem reais, e a torcida corintiana já protestou diversas vezes a favor de uma diminuição nos preços da Arena de Itaquera.

O motivo inicial desse aumento é a necessidade dos clubes de pagar as contas da construção dos estádios. A falta de planejamento financeiro leva a essa necessidade de arrecadar parte do valor da dívida através de aumentos nos preços de ingressos. Ou seja, quem acaba pagando essa conta são os torcedores.

Outro motivo interessante, abordado por Plínio Labriola, é o aumento dos preços como uma tentativa de solucionar o problema da violência nos estádios. Uma das medidas mais sugeridas para tentar atenuar o problema da violência no futebol brasileiro, junto da já antiga discussão sobre presença das torcidas organizadas, foi a do aumento dos preços. Promotores e jornalistas deram suas ideias e na maioria delas estava contida a noção de aumentar os preços para que os torcedores mais violentos não tivessem como ir ao estádio. Todavia, essa “solução” esconde sérios problemas: ela generaliza toda uma camada de torcedores e os criminaliza, além de excluir diversas pessoas, em um efeito colateral dessa medida. A criminalização do torcer não é novidade dentro do cenário do futebol brasileiro, e, como explica Plínio Labriola, é mais um sinal da elitização dentro do nosso futebol.

A ditadura do sócio torcedor

O programa de sócio torcedor é uma das principais fontes de arrecadação dos clubes no futebol atual. Em tempos em que as receitas são tão valorizadas quanto os resultados dentro de campo, ter um bom número de associados a esses programas tornou-se prioridade para todos os clubes de futebol no Brasil e no mundo.

Esses programas funcionam com pagamentos de taxas mensais, que variam entre planos mais baratos e mais caros. Para fidelizar os torcedores, os clubes oferecem alguns descontos e vantagens, seja na compra de ingressos para os jogos ou para a compra de produtos em parcerias com estabelecimentos comerciais.

Em junho de 2017, o Palmeiras liderava o ranking de associados no futebol brasileiro com mais de 122 mil torcedores clientes do Avanti (nome do programa alviverde). Corinthians e São Paulo também estão entre os principais clubes com mais sócios torcedores no ranking, com cerca de 114 mil (3º lugar) e 109 mil associados (5º lugar), respectivamente.

Apesar de sua importância no futebol moderno, há alguns pontos negativos quanto aos programas e que recaem sobre o tema da elitização. Um dos principais problemas é a chamada “ditadura do sócio torcedor”. Esse termo ficou conhecido há poucos anos, quando os principais clubes do país passaram a valorizar cada vez mais esses programas e a dar a impressão aos torcedores de que era “obrigação” deles se associarem aos clubes que amam. Mas nem todos podem pagar pelos valores dos planos mensais e, portanto, não teriam as mesmas vantagens no momento da compra dos ingressos como têm os sócios.

Para analisar o poder de compra dos ingressos entre os torcedores, é interessante buscar a renda média domiciliar per capita do brasileiro. Segundo dados de 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda média domiciliar per capita no estado de São Paulo, onde está a maior parte dos torcedores de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, é de R$ 1.723,00. Apesar de estar acima da média nacional (R$ 1.226,00), ainda é um número baixo. Por isso, afirmam alguns críticos da “Ditadura do sócio torcedor”, é inadmissível que os clubes forcem seus torcedores a pagar taxas mensais fora da realidade econômica brasileira para terem o direito de torcer. “A defesa do atual modelo é feita pelos que só veem o estilo de vida classe média”, afirma o jornalista Mauro Cezar Pereira em seu blog. Isso é ainda mais agravado pelos altos valores dos ingressos avulsos, ainda mais nas novas arenas.

O Palmeiras adota quatro planos, que variam do mais popular (Bronze), passam por dois intermediários (Prata e Prata Superior) até o mais caro (Ouro). No plano Bronze, o torcedor desembolsa R$ 14,99 e tem direito à compra antecipada de um ingresso, porém sem desconto. Já no Prata o valor é de R$ 34,99 e o torcedor tem, entre as vantagens, a compra antecipada de um ingresso com 50% de desconto nos setores Cadeira Gol Norte, Cadeira Gol Sul ou Cadeira Superior (setores mais baratos do Allianz Parque). No Prata Superior, pagando R$ 64,99, o palmeirense tem desconto na compra antecipada de um ingresso de 50% para Cadeira Gol Norte ou Cadeira Gol Sul e de 75% para Cadeira Superior. E no plano mais caro, o Ouro, o palmeirense deve pagar R$ 119,99 e tem direito à compra antecipada com descontos de 100% no setor Cadeira Gol Norte, ou 75% na Cadeira Superior, ou 75% de desconto na Cadeira Gol Sul, ou 25% de desconto na Cadeira Central Oeste.

Devido aos altíssimos valores dos ingressos em todos os setores, o torcedor que não consegue pagar pelos planos do Sócio Avanti tem dificuldades se quiser assistir aos jogos do Palmeiras no Allianz Parque. Como os associados têm preferência na compra dos ingressos para os setores mais populares, estes geralmente esgotam-se antes da venda aberta a todos os torcedores. Quando o não-sócio for comprar suas entradas, restam apenas os setores mais caros, com valores exorbitantes. Caso esgotem os ingressos das Cadeiras Gol Norte e Gol Sul (vendidos a R$ 90,00, são os setores mais baratos do Allianz Parque), por exemplo, o não-sócio pagará, no mínimo R$ 110,00.

Dessa maneira, são poucos os torcedores de baixa renda que conseguem acesso à nova arena palmeirense e, assim, o Allianz Parque ganha a fama de ser uma arena elitista. A “cara” da Arena é uma cara de classe média, segundo muitos torcedores alviverdes.

Este processo ocorre também no arquirrival Corinthians, perdendo a característica de ‘’time do povo’’ que antes detinha. Com a chegada da Arena Corinthians, em Itaquera, o preço dos ingressos aumentou muito, junto com a exaltação do Fiel Torcedor. O programa está dividido em cinco planos, mas os tradicionais são o Minha Vida, Minha História e Meu Amor. Pagando uma mensalidade mensal ou anual, o torcedor tem acesso a um cartão e pode fazer as compras de ingresso pela internet. Aí é que mora um dos problemas: alguns torcedores do “time do povo” não têm acesso a internet de qualidade. Isso sem contar com os preços, que também são altíssimos. A arena corintiana é dividida por setores e diferentes preços, como mostra a imagem abaixo:

Preços dos ingressos para um jogo do Corinthians pelo programa Fiel Torcedor (http://www.corinthians.com.br/noticias/ver/62853#.WT3qgWjyvIU)

Os setores mais baratos são Norte e Sul, que geralmente estão sempre lotados. Já o setor Oeste Inferior, o mais caro, é considerado pela torcida como o “setor modinha”, que quase nunca está cheio, a não ser em jogos muito importantes. Outro problema desse sistema é não saber para onde o dinheiro dos ingressos vai. Mesmo com uma das maiores médias de público do futebol brasileiro, quase todo jogo o Corinthians desembolsa pelo menos R$ 1.000.000, porém, não se sabe para que finalidade o dinheiro é usado: pagamentos de dívidas do estádio, renovação e contratação dos jogadores etc. É como Plinio Labriola afirma: “O Fiel Torcedor é um buraco negro”. Com a diretoria omissa, preços altíssimos e poucas oportunidades de compra de ingresso, o Fiel Torcedor virou algo obrigatório para quem quiser assistir aos jogos do clube. O que afastou o povo e trouxe clientes.

No São Paulo, a “ditadura do sócio torcedor” é menos perceptível, apesar de também existir. Isso ocorre porque os valores dos ingressos no Morumbi são bem menores se comparados aos de Allianz Parque e Arena Corinthians. Portanto, o não sócio são-paulino tem mais opções de ingressos a preços mais baixos do que os não sócios palmeirenses e corintianos. O tricolor paulista trabalha com oito planos de sócio-torcedor, sendo um exclusivo para os torcedores de fora do estado de São Paulo.

O mais barato custa R$ 12,00 e dá direito à compra antecipada de um ingresso, sem desconto. Os planos seguintes seguem a mesma forma, mas com descontos progressivos de 10% para ingressos em qualquer setor do estádio (exceto cativas e camarotes). Já no mais caro, o torcedor são-paulino desembolsa R$ 489,00 e paga o valor simbólico de R$ 1,00. Veja abaixo a tabela com o comparativo dos planos do Sócio Torcedor são-paulino:

Vantagens de cada plano do sócio torcedor do São Paulo (https://www.sociotorcedor.com.br/planos.aspx)

Como o Estádio do Morumbi não passou pelo processo de “arenização” e, portanto, não há dívidas com construtoras, não faria sentido elevar os preços dos ingressos como fizeram Corinthians e Palmeiras com suas arenas. Até por isso, o São Paulo adotou uma política de redução nos preços dos ingressos, inclusive com entradas populares nos setores Arquibancada Amarela e Arquibancada Laranja, em que os valores são de R$ 10,00. Isso tem impacto na arrecadação do tricolor nos jogos dentro de seu estádio, já que as rendas são muito menores se comparadas às de seus rivais, mesmo com públicos semelhantes e até maiores. Pelo aspecto financeiro, o São Paulo sai perdendo, entretanto, pelo aspecto social, acaba na frente, já que o Morumbi recebe torcedores de classes mais variadas do que Allianz Parque e Arena Corinthians.

Ainda assim, há momentos em que ocorre uma “seleção” do público no Morumbi. Em grandes jogos como finais de campeonatos ou comemorativos de ídolos do clube, a preferência na compra é dos sócios-torcedores. Portanto, na maioria das vezes os ingressos esgotam-se antes da venda para os demais são-paulinos. Além disso, o preço das entradas nestes jogos geralmente é elevado, e mesmo que sobrem ingressos para os não-sócios os valores tornam-se muito altos. Nenhum clube parece salvo do processo de elitização reforçado pelos programas de sócio torcedor.

Os bodes expiatórios da violência nos estádios

O doutor, sociólogo, professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas e pesquisador do Centro de Documentação e Pesquisa de História Contemporânea do Brasil (CPDOC-FGV), Bernardo Buarque, participou de um documentário sobre torcidas (Territórios do Torcer) e também tem experiência com torcidas organizadas. Ele deu um panorama de como se deu a evolução da violência dentro do contexto futebolístico brasileiro. Até os anos 80, a violência era restrita aos estádios. A repressão fez com que ela migrasse para os arredores, que começaram a ser objeto de policiamento extensivo. A violência então migrou para os bairros, para os meios de transporte, para as estações de metrô. Hoje, inclusive, são marcadas brigas entre torcidas por meio das redes sociais. Há um raio que vai sendo dilatado, e que torna ainda mais difícil o monitoramento.

Bernardo Buarque

Essas mudanças nos pontos de foco das brigas e da violência estão intimamente ligadas às medidas tomadas pelo governo e pela polícia para tentar resolver o problema. Até os anos 70, em São Paulo, tinham-se jogos com torcidas misturadas e setores mistos. Então começaram a ser introduzidas cordas de separação dentro das arquibancadas. Posteriormente as cordas não adiantavam mais, eram colocados policiais dentro do estádio. A divisão meio a meio entre torcidas começou a ser mudada, primeiro para 30% e depois para apenas 10% de ingressos disponíveis para a torcida visitante. Até hoje estão sendo discutidas e, em São Paulo, tomadas medidas de torcida única nos clássicos. A polícia demarca território, e a territorialização paradoxalmente aumenta o problema.

“A lógica da criminalização é sempre nesse sentido que vai exacerbando o problema, e muitas vezes você precisa lidar com o problema”, diz Bernardo. “Essa violência premeditada e orquestrada é produto de uma minoria, que se instala numa situação de multidão. Então, se há um trabalho de inteligência não há uma necessidade de um policial com um cassetete e spray de pimenta (para apenas reagir e reprimir)”, completa. Os violentos devem ser identificados (sendo que com a tecnologia atual isso é plenamente possível) e devidamente punidos, sendo também impedidos de acompanhar outras partidas novamente. Os clubes e as federações lavam as mãos, por alegarem ser um problema apenas do Estado, e ninguém assume a questão.

Bernardo também citou um exemplo no tratamento e resposta à violência dentro do futebol da Inglaterra e da Alemanha, que passavam por problemas relacionados aos hooligans. A Inglaterra resolveu adotar uma política de repressão, enquanto a Alemanha decidiu colocar psicólogos, sociólogos, pedagogos e outros profissionais para acompanhar as partidas e tentar resolver quais seriam as melhores políticas preventivas e educativas. O resultado foi que os hooligans continuam sendo um problema na Inglaterra, enquanto na Alemanha os índices de violência melhoraram muito. “Lidar com o problema, que tem a ver com punição e repressão, mas deve estar articulado à prevenção e à reeducação”, finaliza Bernardo.

As torcidas organizadas estão intimamente ligadas a esse cenário da violência no futebol brasileiro. Bernardo cita a existência de dois modelos dessas torcidas: as que querem a institucionalização e querem ser reconhecidas; são escolas de samba, têm departamento social, atividades filantrópicas. E as torcidas que querem a marginalização (às vezes dentro dessas mesmas torcidas), por esse prazer que surge com a briga, a adrenalina do contato, fator que de fato leva muita gente para as torcidas. “Deve se diferenciar e apostar nessas torcidas que querem a institucionalização”, completou Bernardo.

O cenário da elitização do futebol, junto a essas políticas e medidas paliativas que apenas camuflam e não resolvem o problema da violência, são fatores que generalizam e marginalizam as organizadas como um todo. Todavia, é importante ressaltar, como lembrou Flávio de Campos em sua entrevista, que boa parte das principais torcidas organizadas, especialmente os líderes e principais membros, em São Paulo, não representa um movimento de resistência à elitização. Além do envolvimento desses “cabeças” com o crime organizado, os acordos feitos muitas vezes com as diretorias, que em segredo cedem ingressos e vantagens em troca de apoio político, mostram indiferença e até mesmo conformidade com esse processo e para com o que acontece com o resto das camadas mais populares das torcidas.

Gaviões da Fiel, principal torcida organizada do Corinthians. (http://tudotimao.com.br/news.asp?nID=111846)

O último suspiro em prol de um futebol mais democrático

“Fora Temer”, “Fora Marco Polo Del Nero”, “Dá a bola pra elas”, “Incentivo à participação de mulheres e da comunidade LGBT no futebol”, “Contra todas as formas de discriminação”, “Contra a criminalização das torcidas organizadas e dos movimentos sociais”, “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, “Por uma arquibancada ampla, geral e irrestrita”, “Ingressos caros, não!” Essas são algumas das reivindicações das torcidas.

Manifestação contra a elitização do futebol. (https://esporte.uol.com.br/album/futebol/2011/08/13/manifestantes-pedem-a-saida-de-ricardo-teixeira-em-sao-paulo.jhtm?abrefoto=3)

Que os estádios de futebol são lugares onde o machismo, a homofobia e o racismo passam impunes todos já sabem. Que estão se tornando um local de exclusão das camadas mais pobres da sociedade, também. O que pode ser novidade são os inúmeros movimentos de resistência ligados a times brasileiros. As palavras de ordem já citadas são do movimento Arquibancada Ampla, Geral e Irrestrita (AGIR), do qual fazem parte coletivos de diversas naturezas e torcidas organizadas de vários clubes, além de grupos de pesquisa de militância de esquerda e um time de futebol de várzea, a Celeste Proletária e Luta de Classes do ABC. A principal pauta da AGIR é a luta contra os retrocessos e a articulação reacionária na política brasileira, sempre levando em conta a perspectiva do esporte. O movimento fomenta debates sobre a relação esporte e política, organizando encontros entre os interessados.

Em meio aos participantes da AGIR, estão os mais expressivos movimentos de resistência dos grandes clubes de São Paulo. Representando o Corinthians, o Coletivo Democracia Corinthiana luta, com a união de torcedores e torcedoras, pela democracia, justiça, liberdade e universalização de direitos e contra o racismo, o machismo, a homofobia e o fascismo. Os grupos M20–9, P16, Palmeiras Antifascista, Palmeiras Livre e Porcomunas são formados por palmeirenses. Esses coletivos militam contra a elitização do futebol e a favor da democracia nas arquibancadas. O P16 inclui o combate ao fascismo, o Porcomunas une os palestrinos proletários e/ou comunistas e o Palmeiras Livre direciona suas ações a favor da comunidade LGBT e negra. Já os são-paulinos formaram a São Paulo Antifascista e a Tricolor Socialista.

É importante também lembrar a torcida do Juventus, da Mooca, como um símbolo de resistência à elitização dentro do estado de São Paulo. Assistir aos jogos do clube no estádio da Rua Javari proporciona aos torcedores uma experiência “à moda antiga”, num ambiente livre do contexto de elitização pela qual outros estádios brasileiros passam. Torcida mista, revista policial menos rigorosa, ambulantes não necessariamente vinculados a terceiros… E tudo por preços acessíveis. A torcida organizada do Juventus também já realizou protestos contrários a esse processo pelo qual o futebol passa, com faixas contrárias ao “futebol moderno” e em prol de um maior acesso aos ingressos.

Torcida Ju Jovem no jogo comemorativo de 93 anos do Juventus.

Por que torcidas de times rivais conseguem se unir e organizar ações? Porque têm uma pauta urgente em comum que vale a pena e precisa ser discutida entre todos os clubes. Qual? A elitização do futebol. A pergunta que resta é: por que as torcidas de maior alcance e os próprios dirigentes dos clubes não conseguem estabelecer acordos e se comunicar a fim de democratizar os estádios e suspender todo o tipo de discriminação social? O futebol machista, homofóbico, racista e caro não é receptivo, convidativo e definitivamente não representa o Brasil. O país do futebol não vai perder esse posto pela falta de craques ou de títulos. No entanto, já perdeu quando o assunto reúne questões sociais. Futebol exclusivo não é futebol do Brasil.

Após todos os detalhes acima, podemos concluir que a elitização do futebol, apesar de inevitável devido ao sistema capitalista em que está inserido, não foi um fator benéfico para os torcedores de diversos clubes, inclusive dos três grandes do estado de São Paulo. Arenas modernas, sistemas de compra elaborados e fim das torcidas organizadas, tudo se relaciona e implica o cenário no Brasil estar longe de mudar. É hora de devolver o futebol para todos os tipos de torcedores, não só aqueles que têm poder aquisitivo para arcar com as consequências que o processo todo trouxe. Políticas includentes e especialmente gestões mais democráticas no futebol podem ajudar a reverter parte da carga negativa desse processo.

“ATENÇÃO! SUBSTITUIÇÃO!

- Sai o coração e entram as cadeiras

- Sai a paixão e entram os lugares demarcados

- Sai a festa popular e entra a festa patrocinada

- Sai a tradição e entra o comércio

- Sai o amor e entra o dinheiro

- Sai o torcedor e entra o consumidor

Sai o futebol, e esperemos que um dia volte.”

Seguem trechos da entrevista com o professor Flávio de Campos:

Por: Bruno Kleiman, Guilherme Goya, Isabela Gonçalves, Larissa David e Marcelo Bamonte

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