FoodStation: a cozinha de ritmos da Sound Food Gang

Sound Food Gang (Facebook)

Depois de eu já ter fechado o texto fiquei sabendo do lançamento do novo single da Sound Food Gang [e tá muito bom]. Vou deixar o link aqui para vocês verem e ouvirem o clipe de “Camisa de Anime”: YouTube

Regina, do niLL, foi um boom. Desde então, a Sound Food Gang nunca mais saiu das minhas playlists. As mixtapes de Yung Buda estão entre as minhas preferidas [Halloween o ano todo é uma das melhores do ano, sem dúvida]. Quando soube que eles lançariam uma mixtape conjunta, como grupo, fiquei muito empolgado. Sabia que vinha coisa boa por aí. Não deu outra. Food Station é um disco maravilhoso. É um dos que mais ouvi esse ano; toda vez que chegava um amigo em casa eu colocava esse disco para ficar batendo papo, etc.

Por isso, não poderia terminar o ano sem falar desse disco. Agora, alguns meses depois do lançamento, decidi escrever um pouquinho das minhas impressões sobre ele. Vamos lá.


“The Storm”, faixa de abertura da mixtape, é produzida por niLL [ou melhor, O Adotado, como ele sempre assina os instrumentais]. Os versos ficam por conta de Yung Buda, Chábazz e o próprio niLL. O instrumental dessa faixa já deixa bem claro para o ouvinte que este disco é diferente do que se vê na cena; todo no piano, sem batidas, enquanto os MCs mandam as rimas. O verso de Yung Buda, que dá início ao disco, é um dos melhores e mais marcantes do projeto; o flow desse cara é incrível [na minha opinião, o melhor flow da cena de trap brasileira]; esse verso, assim como os seguintes, fala sobre a rotina de gravação no estúdio e vivências. Chábazz constrói um verso muito interessante tecnicamente, marcado por aliterações. niLL, com seu flow bem característico, foca no efeito causado harmonia e convivência do grupo em estúdio. O refrão que encerra a faixa, harmonizado por Yung Buda e Chábazz, é maravilhoso e logo fica na cabeça [sipping lean, lean with sprite, like we’re riders on the storm…]. A participação de Adalberto no final [uma constante durante o disco todo] é um diferencial a mais; funciona como uma espécie de locutor; ou como aquele que conversa diretamente com o ouvinte, sem o artifício artístico ou da música. Ou seja, uma comunicação direta: manda o papo reto.

“Tsukuyomi” traz a referência forte sobre cultura pop que o grupo carrega. Neste caso, da cultura japonesa e do anime Naruto. O instrumental produzido por Yung Buda é sensacional, funkeado e cheio de groove. A letra é cercada de referências ao Tsukuyomi (deus da Lua, na mitologia japonesa), justsu de Itachi Uchiha em Naruto, por meio de versos como “lua vermelha não é sonho / abra seus olhos” e “se o céu escurecer num dia quente / se o ódio possuir sua mente” de Mano Will; e “pra mente rasa foi um simples tumulto” de Chábazz. A participação de Adalberto, como em todas as músicas, é maravilhosa.

Na primeira participação de Chinv no disco, “Do Nada”, com um instrumental pesado e sombrio de DJ Buck, é uma música que fala sobre vontade de alcançar aquilo que se quer e superação. Representa bem o momento de conquistas do grupo, em ascensão, e mostra que eles ainda querem e podem conquistar muito mais. Adalberto reforça a ideia ao final da música: ao todo sofredor, pega a visão, não vai desistir do seu sonho, hein, malandro…

Sound Food Gang em ação! [Yung Buda e Chinv] (Facebook)

Em “Capital Steez” o grupo presta homenagem ao jovem rapper americano que cometeu suicídio aos 19 anos. O instrumental de niLL é bem orgânico, sinistro, macabro; quase como uma trilha hip-hop de filme de terror. Ele e Chábazz fazem versos sobre inseguranças [um tema, inclusive, que tem crescido bastante no rap nacional. Cada vez mais os rappers se sentem mais à vontade para falar sobre suas emoções e inseguranças. Grupos jovens como Sound Food Gang demonstram mais abertamente essa tendência]. Essa faixa não tem participação de Adalberto. [:(]

Com a introdução sampleada de Raffa Moreira, “Fiat 147”, de instrumental assinado por Yung Buda é, junto com a seguinte, uma das faixas mais trap do disco [não dava para esperar algo diferente depois da intro do rei do trap] cheia de camadas, sons ambient que remetem a video games ao bip da internet discada (?). O título faz referência à já clássica “Fiat 1995” de Raffa. “Riders 2”, seguindo a linha trap com o beat assinado por Chinv já começa com o ad-lib característico do gênero: skrrrrrrrr. A temática sobre carros e vivências do trap é abordada em ótimas performances de Yung Buda, Chinv, Mano Will e niLL. Nessa faixa Adalberto volta com uma pertinente participação em que comenta sobre como a imagem do artista de rap tem mudado na sociedade.

“Por Aí” é, na minha opinião, a melhor música do disco; também a mais pop e com mais potencial de hit. O instrumental de niLL é perfeito; é nítida a influência de vaporwave que o público conheceu no disco Regina. niLL e Mano Will fazem aqui seus melhores versos no disco, através de grandes performances vocais; com flows bem alinhados e perfeitamente encaixados no beat. Difícil dizer quem rimou melhor nessa [e nem há necessidade disso, os dois estão gigantes]. A temática da música é o foco no progresso, na melhora, junto com a banca.

Sound Food Gang em ação! [niLL e Mano Will] (Facebook)

A faixa que encerra o disco “FFR 2”, produzida por Chinv traz sample de “Clint Eastwood” dos Gorillaz. E uma faixa muito comemorativa, o verso de niLL mostra bem isso: vários agradecimentos e sobre os frutos do trabalho e a gratidão ao resto do grupo. Yung Buda faz um dos versos mais divertidos do disco, com as referências a video games (Game Boy, Steam, hackers, etc). Chinv, aqui, traz o verso que dá origem à capa do disco: partindo com os irmãos na nave pizza mais louca do planeta, yeah. E Mano Will fecha a ideia de sintonia e harmonia do grupo: bole outro então / venha a nós o vosso verde / e não esquece o que mata sede pra brindar à união, vai!

O encerramento de Adalberto no disco entra para a história do rap nacional como o primeiro projeto que deixou o número de contato para show no final!


Em síntese, Food Station é um dos melhores discos de rap nacional e consegue apresentar novos caminhos para o gênero, novas propostas. Os estilos diferentes de cada um dos rappers do grupo [o trap de Yung Buda, o flow único de niLL, a técnica de Chábazz, a fria serenidade de Chinv, o estilo mais clássico de Mano Will e, sem dúvida, não podemos esquecer o carisma de Adalberto] se complementam e formam uma obra coesa, singular e muito importante, pois, demarca bem o período de transformação que passa o cenário do rap no Brasil.

Vamos saudar a Nave Pizza mais louca do planeta. Agora e sempre.

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