Sequelagem, psicodelia e Paraty: um passeio pela discografia de Bonifrate

Bonifrate (Facebook)

Essa semana Bonifrate lançou o single “Alfa Crucis” (disponível no Bandcamp) [que está sensacional, sério, ouçam!] e isso me inspirou a fazer uma coisa que há tempos venho planejando: um passeio pela discografia dele.

Quem me conhece sabe que Supercordas é uma das minhas bandas preferidas de sempre e que vira e mexe eu estou ouvindo, reouvindo e recomendando os discos deles e os discos solo de Bonifrate.

Uma coisa é certa: é impossível falar de Bonifrate sem falar dos Supercordas, mas aqui vou fazer um esforço e manter o foco apenas nos discos solo dele. [Prometo que um dia escrevo sobre a discografia dos Supercordas também].

Dito isto, aqui vai uma mini análise de cada um dos discos lançados pelo bardo de Paraty e vou tecer alguns comentários sobre músicas específicas [as minhas preferidas] dos álbuns. Espero que vocês curtam e, principalmente, procurem ouvir essas pérolas da música psicodélica brasileira.


Sapos Alquímicos na Era Espacial (EP?) (2002)

Sapos Alquímicos na Era Espacial

Primeiro disco de Bonifrate, gravado em fita cassete. Esse álbum tem um estilo lo-fi e apesar do aspecto de “demo”, caseiro, mostra que a base musical do artista de Paraty já é bem sólida e transita bem entre o folk e o rock psicodélico.

A faixa de abertura “Seqüelagem” se tornaria um clássico do artista e seria regravada 12 anos depois, no EP “Toca do Cosmos”; acredito que essa é uma ótima faixa de apresentação e sintetiza bem a estética dele através dos anos. A regravação dela após tantos anos é apenas uma atestação de que a base inicial de folk psicodélico permaneceu.

“Frog Rock”, outro clássico do repertório bonifrateano, seria regravado no disco Seres Verdes Ao Redor dos Supercordas [banda de Bonifrate] em 2008. Outras músicas que eu adoro nesse disco são a enérgica “I.A. e seus Algorítmos” e a melancólica e lisérgica “Cŕeditos” que, com belas distorções de guitarra, encerra o disco.

No Bandcamp, o álbum tem 3 faixas-bônus que são componentes do single “Substâncias Cósmicas”; as três são maravilhosas. Entre elas, “Unicórnio 2D”, que foi incluída na trilha sonora do filme Apenas o Fim (2008), e “O álcool é piegas”, que é uma das minhas músicas preferidas de sempre, mas vou falar melhor dela logo abaixo, pois, foi regravada e lançada oficialmente no disco seguinte.

Os Anões da Villa do Magma (2007)

Os Anões da Villa do Magma

Nesse disco conceitual a sonoridade de Bonifrate passa por uma sutil mudança que é muito importante para sua carreira solo: o folk, que no disco anterior estava presente, mas ainda em estado germinal, se torna o gênero principal do álbum.

O uso de violão, piano e harmônica é muito presente no disco; isso cria uma coesão, uma identidade, pela primeira vez na discografia de Bonifrate. Talvez, por isso, “Os Anões…” seja um disco muito determinante dentro da obra dele. Músicas como “Céu & Chão”, “Bolhas de Vidro”, “Estudo Rural em Ré Maior” e “Kissing by the Lake” e a trilogia “Os Anões da Villa do Magma” são ótimos exemplos dessa guinada bucólica de Bonifrate.

“Rumo À Lua Num Tapete Voador” é uma das obras primas de Bonifrate; a música começa só com voz e piano e passa por um crescendo onde são incluídos outros instrumentos, como acordeão, violão, guitarra, palmas e tudo isso cria uma atmosfera muito especial. [Essa música também foi incluída na trilha sonora de Apenas o Fim].

“O Álcool é Piegas”, como disse anteriormente, é uma das minhas músicas preferidas de sempre; essa é uma daquelas músicas que, com um minuto e meio, conseguem durar por horas dentro da cabeça, e isso se dá, além da linda construção melódica, pela temática profundamente nostálgica que reaviva memórias.

Uma grande obra de arte, sem dúvidas.

Um Futuro Inteiro (2011)

Um Futuro Inteiro

Em Um Futuro Inteiro, o estilo de “Os Anões…” é elevado ao ápice, resultando no disco [talvez] mais folk de Bonifrate, mas não o folk bucólico do disco anterior, pois, esse disco tem uma atmosfera muito mais densa e pesada em seus temas, representando assim, mais um momento de mudança em sua discografia; um rumo à arranjos e temas mais “sombrios”, por assim dizer.

Em “Esse Trem Não Improvisa”, faixa de abertura do disco, fica claro o destaque ao violão e as distorções e slides do que me parece uma viola caipira [?]. “A Farsa do Futuro Enquanto Agora” é uma música que exemplifica bem a transição entre o Bonifrate de antes e depois de “Um Futuro Inteiro”; a música, em sua primeira parte, tem o tempo mais acelerado e a melodia mais animada, enquanto na segunda parte é mais lenta e sombria; essa é uma das minhas favoritas do disco.

“Cantiga da Fumaça” e uma das músicas mais lindas de sua discografia; violão e harmônica se complementam perfeitamente nessa canção que fala sobre tudo e nada, e fala muito bem; “então leva tudo que quiser que agarre na memória…” é para cantar junto. “Cidade nas Nuvens” também é uma das mais belas músicas de Bonifrate e que ainda apresenta bastante do bucolismo do disco anterior [foi gravada em 2009, pelo menos um ano antes do restante das músicas].

E encerrando o disco, “Eugênia”, outra grande obra prima de Bonifrate; com seus dez minutos e trinta e um segundos, esse folk-experimental-jazzístico é um dos momentos de sua discografia que conseguem chegar perto do que eu chamo de sublime, musicalmente falando; o acompanhamento pelo saxofone de Alexander Zhemchuzhnikov impressiona muito. Tive a oportunidade de ouvir essa canção ao vivo quando o Bonifrate veio à Belém em 2015 e foi um dos momentos mais tocantes que já presenciei. Transcendental.

Um Futuro Inteiro é um disco primoroso que vale cada faixa do início ao fim e marca um período de transição muito importante na discografia de Bonifrate.

Museu de Arte Moderna (2013)

Museu de Arte Moderna

Os primeiros momentos de “Homem ao Mar” já deixam claro para o ouvinte de Museu de Arte Moderna que este é um disco diferente dos anteriores; é bem mais forte a presença de efeitos sintetizadores e de uma atmosfera mais eletrônica do que acústica, além do experimentalismo cada vez mais agudo.

“Allegro! Allegro!” é, praticamente, um surf music psicodélico; uma faixa cheia de distorções e harmonias; sensacional e muito diferente de toda a sua discografia até então. “Horizonte Mudo” traz mais uma novidade à discografia dele: o reggae (e muito bem representado, a música é muito boa).

“Revoluções” e “Eu Não Vejo Teenage Fanclub nos Teus Olhos” são duas músicas semelhantes [de certa forma] e significativas desse momento da carreira solo de Bonifrate; a presença da bateria com mais destaque e intensidade, o que proporciona uma sonoridade mais rockstar, rebelde.

“Paralaxe”, a maior música do disco com pouco mais de seis minutos, é, na minha opinião, a obra prima de Museu de Arte Moderna; tudo nessa música me soa perfeito: os sintetizadores, a bateria, as linhas de baixo, os riffs de guitarra e a temática marítima, coisas que permeiam o álbum inteiro, parecem encontrar em Paralaxe o seu ancoradouro; é como se fosse o ponto de culminância da obra.

A doce “Canção de Pelúcia”, que encerra o disco, também merece destaque; se um dia organizarem uma coleção de canções de ninar psicodélicas, essa música tem que estar lá.

Toca do Cosmos (2014)

Toca do Cosmos

Toca do Cosmos é um EP que consiste de uma regravação e quatro covers e segue uma linha musical semelhante à de Museu de Arte Moderna.

A ideia de fazer um disco de covers de amigos e pouco conhecidas é muito interessante; é como se Bonifrate prestasse sua homenagem à cena que, na minha opinião, tem nele uma de suas grandes figuras.

Traz a regravação de “Seqüelagem”, do primeiro disco [como mencionei anteriormente], o que é muito bom para efeito de comparação, pois, demonstra o quanto a sonoridade do artista mudou no espaço de doze anos e que apesar das mudanças, não perdeu sua essência.

Dos covers, tenho apego especial por “The Last Time” de Digital Ameríndio e “Dissipado Amor” da banda Os Telepatas; a segunda me impressionou tanto que eu terminei de ouvir e fui correndo procurar o disco Bandeirante (2007), onde foi lançada a versão original da música, para comprar [só achei no Mercado Livre].

Os ótimos arranjos de Bonifrate para essas canções são imperdíveis; este EP é essencial para os admiradores da psicodelia underground brasileira.

Lady Remédios (2017)

Lady Remédios

O último EP de Bonifrate esteve em minha lista de melhores discos nacionais do ano de 2017, na terceira posição. Vou reproduzir aqui o escrevi sobre ele:

“O músico psicodélico de Paraty nunca decepciona. Não tem nenhum disco do Bonifrate que eu não tenha achado, no mínimo, muito bom. Com o EP conceitual Lady Remédios não foi diferente. Trazendo sonoridades ambient, Bonifrate consegue nos inserir dentro do microcosmo da cidade litorânea. O disco é uma aventura sinestésica que nos leva a quase pisar ou sentir o cheiro da cidade. Além das canções novas, a já conhecida encerra o EP com chave de ouro. Nostalgia pura. Faixa destaque: Rã.”

Além de “Rã”, as duas “faixas-título” do disco me impressionam muito: “Lady Remédios” e “Lei de Remédios”. As duas possuem sonoridades muito distintas, quase antagônicas; a primeira, quase uma música festiva sobre a cidade de Paraty, enquanto a segunda possui uma atmosfera extremamente sombria, pesada e muito contemplativa.


Bom, é isso

São seis discos e cada um demonstra de uma maneira diferente as singularidades, caminhos, mudanças e evoluções que permeiam a carreira solo de Bonifrate que eu, particularmente, considero interessantíssima; vale a pena conhecer e viajar junto.

Agora vão ouvir os discos. Até a próxima!

Bonifrate (Facebook)

Todos os discos estão disponíveis para audição gratuita e compra no Bandcamp
Alguns estão disponíveis no Spotify e no YouTube.