Por que lugar de fala incomoda tanto?

Outro dia navegando olhando as redes sociais tropecei num paragrafo de uma acadêmica sobre “lugar de fala”. A moça reclamava do uso do conceito. Segundo ela era uma deturpação, nunca antes vista, de um “conceito antropológico”. Talvez a primeira coisa a se fazer seja explicitar que em antropologia, é um pouco mais complexo “deturpar” um conceito. O motivo é que o “vai-e-vem” antropológico, a aproximação entre as categorias “teóricas” e “não teóricas” (ou como preferem alguns “nativas”), é um processo nem sempre evidente, e sempre muito complexo. Geralmente o caminho é do dialogo entre as categorias do antropólogo e as categorias do interlocutor. Desse modo, o purismo proposto pela acadêmica parece sem sentido aplicado a antropologia.

Entretanto, nesse debate, o que me interessa não é a suposta origem do conceito. Já vi diversos textos que circulam de pessoas tentando mapear de onde surgiu isso, e qual o “significado original”. Além do tal “conceito antropológico”, já vi atribuírem a autoria a Foucault ou a feministas negras. Isso, geralmente, me parece uma forma de desviar, ou (provavelmente) de se esquivar, da discussão que parece trazer o uso do “lugar de fala”. Portanto, me interessa muito mais o uso e seus significados do que a origem histórica, antropológica, sociológica…

Em minha perspectiva o debate parece evidenciar justamente um incomodo, que não está desassociada das produções de discurso socialmente legítimos, e do conhecimento institucionalmente produzido. A premissa básica é dupla: o privilégio e a ausência. O privilégio de fala está totalmente ligado a ausência de algumas pessoas falando, e consequentemente, a ausência de determinados assuntos. Se alguém está falando é porque alguém está em silêncio. O incomodo é: aqueles que legitimadamente e institucionalmente produziram discursos e conhecimentos, agora, assim como os demais, são colocados em dúvida. As pessoas brancas que falavam de racismo, seja negando ou afirmando, nunca tiveram seu privilégio de fala questionado, assim como o têm hoje, pelo menos não de forma legitimada. Os homens que por muito tempo ditaram as regras e os enquadramentos de feminilidade, nesse momento histórico (evidentemente em lugares muito específicos) podem ter sua fala questionada ao entrarem em determinados assuntos.

O que determinada perspectiva do debate esconde é que não se trata simplesmente de impedir que algumas pessoas falem sobre determinados assuntos, mas sim de denunciar uma construção social que excluiu determinados grupos e sujeitos da possibilidade de fala. Talvez o que esteja faltando perceber é que mulheres, negros, lgbtq’s, deficientes, etc; foram inquiridos, questionados, deslegitimados e silenciados, de maneira institucional. O “lugar de fala”, portanto não é sobre os homens, sobre brancos, sobre heterossexuais, etc; mas é principalmente sobre a produção de lugares onde pessoas pertencentes a grupos e identidades excluídas historicamente, possam enunciar suas perspectivas sem passarem pelo crivo que se colocou como universal (o masculino, o branco, o heterossexual, o ocidental). Nesse sentido, não é só punir ou perseguir algumas pessoas, mas sobre abrir a possibilidade de legitimidade para aqueles que foi negada institucionalmente. Essa história toda é menos sobre questões analíticas (sobre identificar o posicionamento do interlocutor) e mais sobre posicionamentos políticos, sobre privilégios, e sobre abrir novos espaços.

Não quero aqui defender qualquer uso, ou qualquer prática que se faça enunciando o “lugar de fala”. Como se sabe, os usos dos conceitos, das categorias e das posições politicas são diversos e difusos. Tudo isso é bem incontrolável. Os efeitos desses posicionamentos e dessas novas exigências, só com o tempo teremos a possibilidade de perceber com maior amplitude. Agora, me parece que é importante compreendermos o contexto de mudança ou, pelo menos, de desestabilização das condição de discurso tradicionais. Isso parece incomodo para alguns, porque estamos falando de privilégios, resta saber como vamos lidar com esse questionamento dos privilégios. Se estaremos prontos para o incontrolável encontro com as vozes que poderão questionar, inclusive nossos lugares, ou se escolheremos o conforto de escutar as mesmas coisas de sempre.