A água vive a morte do ar

Onde há poder, que haja potência; onde verdade, invenção; onde cansaço, esgotamento; onde ser, devir.

O pensamento rizomático é stranger (estrangeiro/estranho), é bárbaro. Sua força vem de sua heterodoxia e sua existência é inseparável de sua experimentação. E neste contexto o verbo experimentar ganha acepção tanto epistemológica quanto ética: a experiência é laboratorial e "de vida" - não há diferença, a vida é o laboratório, o laboratório é a vida. Parrhesia.

A isso Nietzsche chamou escrever com sangue: fazer da escrita a própria manifestação daquilo que pulsa no corpo. Mas não um corpo de mãos, nem de dedos, não de lógicas, técnicas, extensões ou órgãos: mas um corpo de sangue, um corpo de rio, de líquido, um corpo de fluxo de intensidades.

O pensador rizomático, portanto, só é possível como intensidade deveniente - ele mesmo um efeito (nem causa nem fim) dos seus afetos: aquele que perturba é ele mesmo perturbado, aquele que desorganiza é ele mesmo desorganizado. Herege, sem nostalgia de paraísos perdidos: o desejo nele é alegria sem promessa.

Aqui a experiência como epistemologia e ética se torna uma estética. Não se pode aumentar a potência sem diminuir o poder; não se pode aumentar a invenção sem diminuir a verdade; não se pode diminuir o cansaço sem que isso leve ao esgotamento; não se pode devir sem aniquilar o ser. O caos invade a ordem, o guarda-sol é rasgado para exibir o firmamento e uma coisa nova (ainda que impura) pode vir-a-ser. Todas as potências são ativadas e o artista da subjetividade pode finalmente trabalhar.