As autoras mulheres e suas paixões silenciosas — ou não realizadas

Emily Dickinson e Jane Austen ficaram mundialmente conhecidas por suas obras — e por sua solidão. Mas o que teria acontecido se tivessem se casado?

Esta semana me dei ao luxo de ir ao cinema no meio da tarde em um dia útil. Não satisfeita, cumpri todos os pré-requisitos para ter uma experiência bem melancólica: sessão de 15h, no Cine Joia, em Copacabana — uma única sala de 87 lugares localizada no subsolo de uma galeria do bairro com decoração estilo anos 70, isto é, cadeiras de couro em cores vibrantes alternadas, uma bombonière que fica fechada durante a exibição e uma cortina preta que separa (ou tenta) os passantes dos espectadores — e um filme de época. Pelo menos tive minha mãe como companhia.

O filme da vez foi a cinebiografia sobre a poetisa norte-americana Emily Dickinson dirigida e roteirizada pelo britânico Terence Davies. A Quiet Passion ou Além das Palavras, na pouco inspirada tradução para o português, é estrelado pela atriz Cynthia Nixon — mais conhecida por interpretar a personagem Miranda na série Sex and the City — e, apesar de não decolar em termos de narrativa e nem se propor a isso, cumpre bem o papel de apresentar a Dickinson dos tempos de formação religiosa até sua morte aos 55 anos em decorrência de uma doença renal crônica (1886), sem deixar de adicionar ainda mais fascínio ao imaginário que se construiu em torno da figura da poetisa ao longo dos anos.

Cynthia Nixon como Emily Dickinson e Jennifer Ehle (Vinnie), em 'Além das Palavras' (2016)

Reclusa, soturna, ácida, crítica e amarga. Essas são apenas algumas das características pouco elogiosas que podem ser atribuídas a Emily Dickinson, tendo em vista a maneira como é retratada no filme — o qual o diretor constrói, com uma boa dose de liberdade, a partir das especulações sobre a "natureza" de um dos maiores nomes da poesia norte-americana.

Teria ela realmente passado seus últimos anos de vida enclausurada na propriedade da família em Amherst, Massachusetts, com a saúde fragilizada, se recusando a receber visitas e trajando apenas roupas brancas? As muitas biografias já escritas a seu respeito e que têm como objeto de análise principal as correspondências trocadas com pessoas de seu convívio, como a amiga e cunhada Susan Huntington Dickinson (Jodhi May) e o mentor Thomas Wentworth Higginson, atestam que sim, assim como a adaptação cinematográfica de Davies.

A cena de abertura do filme, no entanto, coloca diante do espectador uma jovem (vivida na tela pela atriz Emma Bell) bem menos melancólica e fechada para o mundo. Nascida em uma família abastada, filha de um advogado e tendo tido uma educação sólida para os padrões da época, Emily Dickinson se recusa a declarar sua fé em Cristo frente a frente com Mary Lyon (Sara Vertongen), a diretora de Mount Holyoke — uma instituição exclusiva para mulheres onde não permaneceu mais que um ano — , e é taxada de "no-hoper", ou seja, alguém, literalmente, sem esperança de salvação. "Você está sozinha em sua rebelião, Miss Dickinson", diz a educadora.

Mas essa não seria a primeira e nem a última vez que ela enfrentaria certas convenções e modi operandi do século XIX. Em outra circunstância, já na fase adulta, Dickinson se nega a ajoelhar diante de um pastor que visita a casa da família, quebra um prato à mesa com o pai quando este reclama que o mesmo está sujo e, ao longo de diálogos jocosos e cortantes com a tia Elizabeth (Annette Badland), não esconde seu jeito espirituoso, confundido com insolência e aguçado pela censura moral incorporada pela irmã de seu pai. Quando Edward Dickinson é repreendido por ter criado os filhos de maneira "sofisticada" demais, ele argumenta que se tivesse que escolher entre ter filhos sofisticados e meramente dóceis, escolheria a primeira opção.

I measure every Grief I meet
With narrow, probing, eyes – 
I wonder if It weighs like Mine – 
Or has an Easier size.

I wonder if They bore it long – 
Or did it just begin – 
I could not tell the Date of Mine – 
It feels so old a pain – 

I wonder if it hurts to live – 
And if They have to try – 
And whether – could They choose between – 
It would not be – to die –
I measure every grief I meet, por Emily Dickinson
Keith Carradine interpreta o papel do pai de Emily, Edward Dickinson

Assim como tantos outros aspectos da vida da poetisa, as suas relações amorosas permanecem envolvidas em uma áurea de mistério até hoje. Ela nunca se casou, isso é certo, mas possivelmente nutriu uma paixão platônica pelo pastor casado Charles Wadsworth e, já com a idade mais avançada, teve um relacionamento com um amigo de seu pai, o juiz Lord Otis Phillips. De acordo com rascunhos de suas cartas, Dickinson chegou mesmo a vislumbrar a possibilidade do casamento, instituição que enxergava com ceticismo, por um lado, e desejo, por outro, a julgar por Além das Palavras.

Em determinada passagem, ao ser questionada por sua grande amiga Vryling Buffam (Catherine Bailey) — de quem se distanciou justamente por ter recorrido ao casamento — se teria a intenção de se casar, a personagem interpretada por Cynthia Nixon dá a entender que nada poderia se equiparar à família, mesmo em sua imperfeição. Mais à frente, há um diálogo particularmente revelador com a cunhada Susan, em que ficam mais evidentes os sentimentos contrastantes da poetisa no que diz respeito aos "assuntos do coração", bem como as inúmeras constrições que se impunham ao exercício de qualquer atividade intelectual por parte das mulheres.

Ao ser flagrada escrevendo durante a madrugada à meia luz — entre as 3h da manhã e o alvorecer era a sua hora de escrever, pois não incomodaria ou seria perturbada por ninguém (qualquer associação com "Um Teto Todo Seu", de Virginia Woolf, não é mera coincidência)— , Dickinson garante à cunhada que recebeu autorização do pai para estar ali àquela hora, reconhecendo, logo em seguida, que nenhum marido teria concedido essa permissão. “Você tem a poesia”, consola Susan, ao que a poetisa rebate: “Mas você tem uma vida, eu tenho uma rotina. Alguns de nós vivem vidas menores e são privados de um tipo particular de amor. Nós enganamos a nós mesmos e aos outros. E esse é o pior tipo de mentira".

My life closed twice before its close — 
It yet remains to see 
If Immortality unveil 
A third event to me
So huge, so hopeless to conceive 
As these that twice befell. 
Parting is all we know of heaven, 
And all we need of hell.
My life closed twice before its close, by Emily Dickinson

Emily Dickinson não foi reconhecida por sua obra até depois de sua morte, quando mais de mil poemas seus vieram a público. Nunca chegou, portanto, a colher os frutos de sua genialidade ou saborear o gosto do sucesso e da "imortalidade" que tanto ambicionava. “Os clássicos genuínos de toda língua são o trabalho de homens, não de mulheres. Elas não são capazes de criar os tesouros permanentes da literatura” foi o que ouviu certa vez de Samuel Bowles (Trevor Cooper), editor do Springfield Republican que, entretanto, aceitou publicar um de seus poemas no jornal.

Há quem defenda que Emily Dickinson é o nome mais importante da poesia norte-americana e um dos maiores baluartes da língua inglesa, se equiparando a Walt Whitman (1819–1892). Mas ela jamais será Walt Whitman. Não lhe foi dada a chance. Isso porque o escrutínio de sua vida pessoal e a construção de um mito ao seu redor, historicamente, suplantam a realização do seu trabalho. O que são os travessões que ela empregava como pausas ou as letras maiúsculas que utilizava no meio dos versos para enfatizar determinadas palavras diante da figura soturna e melancólica, vestida de branco e avessa a visitas?

A fase mais produtiva da vida de Dickinson não está de maneira nenhuma dissociada de seu isolamento na propriedade da família. A reclusão foi condição fundamental para o seu ofício e, talvez em parte, resultado da sua insatisfação e inconformidade com a realidade circundante (“No fim, todos nós nos tornamos aquilo que mais temíamos”, lhe diz Miss Buffam. “Então eu vou rejeitar o mundo e não cumprir essa profecia”, responde), mas não o fruto de uma fobia social ou de uma personalidade intratável. Boa parte do filme de Terence Davies mostra uma Emily Dickinson de língua afiada, combativa, detentora de traquejo social e extremamente amorosa com a família.

Talvez uma das falas do filme que melhor traduzem essa reflexão seja uma frase dita por Emily em uma conversa com o pastor objeto de sua afeição: "É fácil ser estóica quando ninguém quer o que você tem a oferecer. Sempre existirá, eu imagino, a posteridade, mas a posteridade é tão pouco reconfortante quanto Deus". No fim e para além dele, a poetisa acabou por ser definida não pela profundidade e crueza de seus versos, mas pelo peso da armadura que lhe foi atribuída enquanto mulher solteira e produtiva.

Longe de mim sugerir que Emily Dickinson teria sido mais feliz caso tivesse se unido a um homem pelo sagrado laço do matrimônio. Mas não é de todo impensável que a vocação de escritora nas circunstâncias daquele período histórico tenha se mostrado incompatível com a experiência tradicional do casamento. É verdade também que a poetisa norte-americana pode ter renunciado a esse sacramento por convicções pessoais — não à toa foi adotada como um símbolo pelas feministas na década de 1960 — que se sobrepunham a sua vontade de encontrar um marido. Mas também não é verdade que ela pode ter tido que escolher entre uma coisa e outra apenas por causa da sua condição de mulher no século XIX? Escolha essa que nenhum homem foi obrigado a fazer. E ainda não é.


Tal qual Emily Dickinson, a autora inglesa Jane Austen (1775–1817) morreu sem ter se casado e sobre ela também se construiu uma imagem de solteirona quase irreconciliável com o trabalho que produziu. Alguns de seus romances mais famosos como "Orgulho e Preconceito" (1813) e "Razão e Sensibilidade" (1811) trazem personagens femininas resolutas e de personalidade forte mas que, de alguma forma, se realizaram no ideal do amor romântico.

No filme romanceado de 2007, Amor e Inocência ou Becoming Jane, no original, Austen é interpretada pela atriz Anne Hathaway e, assim como a heroína de seu maior sucesso, Elizabeth Bennet, vive o conflito entre aceitar um casamento conveniente e vantajoso para sanar os problemas financeiros da família, ou se arriscar em uma paixão com um homem destituído de bens e posição social (James McAvoy). De sua mãe ela ouve: "Essa menina precisa de um marido. Mas quem é bom o suficiente? Ninguém!". E de seu pai: "Se uma mulher, por acaso, tiver uma superioridade particular como, por exemplo, uma mente profunda, essa deve ser guardada como um segredo profundo".

Anne Hathaway interpreta a escritora Jane Austen no filme 'Amor e Inocência" (2007)

A parte mais interessante da história é quando Jane Austen visita Ann Radcliffe (Helen McCrory), uma escritora bem-sucedida e que conquistou sua independência financeira, um feito impressionante para a época, quando as mulheres eram definidas por adjetivos como accomplished e agreable. "Ter uma esposa que pensa é considerado impróprio. Ter uma esposa com uma reputação literária não é nada menos que escandaloso", descreve ela. "Mas deve ser possível viver ao mesmo tempo como autora e esposa", questiona Austen, em um misto de súplica e tentativa de autoconvencimento.

Teriam os trabalhos de Emily Dickinson e Jane Austen florescido e alcançado o patamar que alcançaram tivessem elas levado uma vida conjugal nos moldes convencionais? A renúncia (ou privação) do casamento é parte do que as torna as figuras femininas memoráveis que se mostraram ser ou apenas uma das várias coisas das quais as mulheres devem abrir mão para se tornarem realizadas? A impossibilidade de viverem plenamente a sua vocação e externalizarem os seus pensamentos imposta pela sociedade não estaria na causa de suas vidas sociais, de certa forma, limitadas. Afinal, não deviam elas manter a mente profunda guardada como um segredo?