Um texto sobre ex-amores

Recentemente, o final do meu primeiro relacionamento completou um ano. Foi um término muito difícil para um namoro maravilhoso de quase dois anos, não apenas porque eu ainda amava muito o meu então namorado, mas também porque fui forçada e encarar uma série de atitudes minhas que acabaram contribuindo para a chegada de um final nada bem-vindo.

Não foi nada fácil. Chorava diariamente no banheiro do trabalho, no transporte público, antes de dormir ou a menor menção de qualquer coisa minimamente relacionada ao meu antigo namorado ou relacionamento. Passava noites em claro remoendo e revivendo cada momento, procurando e me culpando por todas as falhas. Lia conversas e escutava áudios antigos só para me torturar e me punir cada vez mais. Comecei a fazer terapia, e as sessões, claro, eram monotemáticas.

Depois de alguns dias, parei de chorar o tempo todo. Depois de algumas semanas, passei a conseguir a falar o nome dele ou mencionar o nosso namoro sem sentir a voz tremular incontrolavelmente. Voltei a dormir direito. Passei a poder me imaginar com outras pessoas sem sentir um arrepio horrível pelo corpo. Para parar de me culpar e me punir com as lembranças antigas, foi necessário mais tempo. Aos poucos e com o andar dos ponteiros do relógio, fui tentando transformar cada um daqueles erros em mudança, em força.

No mesmo dia em que meu término completou um ano, uma amiga minha me chamou pra sair com uns outros amigos dela. Não conhecia o lugar, não conhecia as outras pessoas, mas alguma coisa me dizia pra ir. Quando cheguei lá, não demorou muito pra entender o porquê.

Eu estava feliz. Finalmente. Depois de tanto choro, tanto remorso, tanta dor. Mais do que feliz, eu estava me sentindo como eu mesma de novo, e não como aquela massa desmotivada, inútil, egoísta e desesperançosa que eu fui por tanto tempo, durante e após o meu relacionamento. E, então, uma sensação completamente inédita tomou conta de mim por inteiro: eu era suficiente. Não havia ninguém com quem eu queria estar além de mim. Eu me bastava. Estava feliz comigo mesma. Superação. Que loucura!

Meio embalada pelos vários drinks que já havia tomado, decidi compartilhar essa energia tão surreal com algumas amigas próximas num áudio de WhatsApp que não escondeu nada a minha leve embriaguez. Mas, naquela hora, nada mais importava além daquela realização deliciosa que havia abraçado meu coração.

Já dizia o poeta: “tudo que é bom dura pouco”. Tiro e queda. Acordei no dia seguinte, procurei o celular e examinei as mensagens enviadas, dessa vez à luz da sobriedade. “Puts”, pensei. “Pra que eu fui mandar isso? O que parece mais força barra e falso do que uma menina bêbada falando pras amigas que superou o ex?”

E, assim, num instante, aquela energia tão boa deixou meu corpo. Elas, obviamente, não iam acreditar em mim. E Deus me livre de compartilhar aquele marco, aquele feito que eu tão orgulhosamente tinha atingido com mais alguém. Quem iria acreditar?

Comecei a pensar em todas as vezes que alguém comenta sobre o ex. Se for pra criticar, soa como dor de cotovelo, rancor, mágoa. Se for pra elogiar, soa como falsidade, ou parece que os sentimentos não estão muito bem resolvidos. Se for comentar do novo cônjuge então… esquece: soa tudo isso junto.

Por que é sempre tão complicado falar de ex-namorados? Por que não podemos aceitar que, muitas vezes, aquela pessoa participou de um período da nossa vida e que ela sempre estará ali, na nossa trajetória? Que muitas das nossas vivências e experiências vão estar atreladas àquela figura e que, por isso, é normal, vez ou outra, numa conversa ou conselho do dia a dia, surgir uma história, um caso, uma memória, feliz ou triste, que contará com a participação daquela pessoa? E que isso não precisa ser amargor, mágoa, rancor ou um restinho de sentimento? Que é possível, sim, apenas seguir em frente?

E mais: por que temos que odiar nossos ex? É claro que não precisamos ser amigos deles, e que existem diferentes tipos de ex e de términos. Mas por que sempre espera-se que os odiemos?

Uma cena muito comum no meu período pós-termino era eu estar falando alguma coisa positiva sobre meu ex numa conversa, e algum amigo meu me cortar e chamar minha atenção, como se eu estivesse falando alguma mentira. “Para com isso”; “ele te fez mal”. Poxa, como assim? É claro que o término foi dolorido, mas não foi culpa dele. A gente não pode obrigar ninguém a ficar. É claro que ele não foi perfeito, mas eu também cometi muitos erros. A gente cresce, aprende. Eu aprendi muito com ele. E não o odeio, nem de longe. Eu o entendo. Sempre que eu lembrar dele e do nosso namoro, vai ser com nada além de respeito, carinho, admiração e gratidão.

Vamos validar mais as falas e os sentimentos dos outros. Parar de projetar nossas próprias percepções, achismos e julgamentos nas demais vivências. Isso faz um bem danado pra saúde mental e emocional da pessoa. É tão bom dividir alguma coisa boa com alguém e se sentir compreendido e celebrado, não é mesmo? E vamos respeitar e validar mais a nossa própria história, também. Ter mais carinho por quem, mesmo que só por um tempo, passou por ela e deixou alguma coisa boa. Cultivar isso— e (re)florescer.

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