Love, Mickey Dobbs e porque mulheres devastadas continuam tentando

Eu faço parte de um grupo de pessoas que assistiu a série “Love”, da Netflix, e realmente gostou. Depois de terminar a primeira temporada em um ou dois dias, recomendei a alguns amigos e amigas e as discordâncias naturalmente apareceram. Fui alertada sobre a estrutura sexista que dá base ao roteiro da série e, não posso mesmo discordar, a velha fórmula está ali: uma mulher linda, a Mickey Dobbs do título, que atende a todos os padrões de beleza e de comportamento, é uma cool girl magra, loira, alta e bem-vestida “sendo salva” por um homem absolutamente comum, Gus, cujo maior atrativo é não ser nada do que Mickey é, mas, ao contrário, ser mais um nerd absolutamente fora dos padrões, o típico perdedor — com um nariz desproporcional como adereço. Me senti culpada por ter deixado tudo isso passar tão gratuitamente e me senti mal, até, por ter gostado tanto da série. Li os textos e as críticas para concluir que “pois é, que ingênua eu fui…”, e ficou por isso.

Até que veio a segunda temporada, lançada no último dia 10, e eu não pude deixar de assistir. Depois de rever cada episódio penso que, honestamente, nós precisamos conversar um pouco mais sobre a importância de personagens como Mickey Dobbs e entender o que acontece com essa mulher, pra além da superfície da relação com Gus.

Mais Mickey, menos Gus

Em primeiro lugar, é necessário encarar Love como uma série que não trata exclusivamente das “relações modernas”. Ela aborda o assunto de maneira óbvia, com as quase-críticas que nós já conhecemos e a fórmula que já vimos impressa em outros livros, gravada em outros filmes. Mas aqui é necessário pelo menos considerar a possibilidade de que Love também é, e talvez seja sobretudo, uma série sobre Mickey, essa mulher estraçalhada lutando forte pra recomeçar de algum lugar.

No primeiro episódio da série, Gus aparece na vida de Mickey por obra do acaso. Ele paga o café dela e, na tentativa de reembolsá-lo, eles passam um dia juntos. É simples, é trivial. E a isso seguem-se 10 episódios sem que a gente consiga conhecer Mickey de fato. Ali está retratada uma mulher que é basicamente alcoólatra, viciada, com relacionamentos ruins no histórico, términos piores ainda e, principalmente, muitas crises emocionais — pelo menos uma por episódio.

Os amigos não a levam a sério, ela está “atrás” de todos eles (com seus filhos e suas casas mobiliadas), e ela definitivamente não sabe lidar com nada disso. Mickey também é engraçada, descolada — afinal, é fundamental que o espectador goste dela — mas o ponto principal é esse: essa mulher perdeu a linha, ela é uma bagunça e aparentemente não está nem aí!

“Ela é muito legal. Meio assustadora em alguns momentos… Mas ela é muito legal”. — Bertie

Mas é aí que vem a segunda temporada e nós somos surpreendidos.

Somos surpreendidos, em primeiro lugar, porque Mickey diz não para Gus. Um bom não. Depois de quase morrer se jogando em uma piscina, depois de viajar horas no trem errado numa viagem de droga teoricamente orgânica, depois de erros seguidos e alguma infantilidade, é verdade, Mickey dá um passo. Ela enxerga que precisa fazer algo a respeito da sua condição, ela não quer ser salva por outra pessoa. Ela se posiciona. Ela quer tentar por si!

Você também tem seus problemas, a diferença entre nós dois é que eu pelo menos admito! — Mickey

A segunda temporada tem outra Mickey — que não mudou 100%, porque isso não aconteceria magicamente, mas que está em processo. Ela abre lugar pra uma amizade com Bertie, que ganha mais espaço na série, ela para de beber, começa a frequentar reuniões do AA e grupos para “viciados em sexo e amor”, ela leva o trabalho mais a sério e para de usar drogas. A segunda temporada só existe porque Mickey está agindo a respeito de sua própria vida.

Nós quase não vemos o apartamento de Gus nos cinco primeiros episódios, menos ainda o estúdio em que ele trabalha. Em lugar disso, começamos a assistir finalmente ao escopo da vida de Mickey e, meu deus, ela tem muitos homens de merda ao seu redor!

Nós já sabíamos, pela primeira temporada, dos ex-namorados drogados e “tóxicos”, do professor de matemática que levava Mickey para passeios no Shopping depois da aula (!!), nós já conhecíamos o chefe abusado e isso seria suficientemente ruim para a bagagem de uma mulher de 30 anos. Mas agora nós somos apresentados ao pai alcoólatra, que perdeu a licença de dentista por prescrever anestésicos irregulares e deixou a família em maus lençóis, o pai que a abandonou na estrada quando ela ainda era uma criança, que não se importa com a reabilitação de Mickey e, não bastasse, também somos apresentados ao lado mentiroso e manipulador do amigo e colega de trabalho… A vida exigiu demais dessa mulher e a gente se compadece, começa a entender como tudo isso atirou Mickey direto para o furacão das relações não-saudáveis .

Mas a questão central é que isso ainda não é tudo. Mais do que as relações ruins, Mickey é uma mulher linda e inteligente que teve sua autoestima jogada no chão. Não há um episódio em que Mickey não pergunte, a si mesma ou a outra pessoa, se ela não é uma bagunça, se ela não vai ferrar com tudo nos próximos dez minutos, se tudo não está prestes a dar errado e da pior maneira possível.

Gosto de Love e vou defendê-la, mesmo reconhecendo os seus maus momentos, porque Mickey quer Gus para seu companheiro, sim, mas não para personagem principal da sua vida. Ela erra, erra muito, mas isso não faz com que ela baixe o sarrafo para o Gus. Ao contrário, ela escolhe exigir mais dele, porque ela finalmente está exigindo mais de si mesma e está reconhecendo seu valor. Ela não quer a condescendência de Gus, ela não quer a sua redenção, e ela não quer Gus para ser “diferente dos outros”. E ela diz, repetidamente e sob o risco de que isso custe a relação dos dois. Gus sabe quanto custa permanecer ao lado de Mickey nesse momento de sua vida e ela não exige menos do que isso. Ela não mente e não finge que é mais fácil do que realmente é. E, nós precisamos admitir, Gus falha muito e é, boa parte do tempo, muito mais imaturo do que ela, mas ele também escolhe pagar esse preço, ele escolhe entrar nessa relação, ele escolhe essa mulher.

Você foi honesta com ele? Então siga em frente, você não precisa desperdiçar uma possível boa relação porque é um mau momento. Foda-se o mau momento — Colega do grupo de viciados em amor e sexo

Love não é sobre como meninos fora do padrão são injustiçados ou merecem aplausos por tentar agir melhor, Love é sobre Mickey, batalhando arduamente no meio de diversos homens diferentes para acreditar nela mesma, pra crer que ela é mais do que aquela messed up girl, para crer que ela pode errar muito nos próximos dez minutos, com toda certeza, mas que, diferente do que esperam os amigos, diferente da torcida dos seus pais, e permanecendo com Gus ou não, ela também pode acertar dessa vez .