NA TOCA DO COELHO

O ano novo começou. 
A vida de antes já não mais pertencia.
No Instagram da filha, as fotos de anos atrás são marcadas o rosto com adesivos fofos. Doeu para pequena, mas parece que ela entendeu...
Eu olhei aquelas formas amorosas no meu rosto, escondendo quem eu fui e chorei.

Ontem na noite do ano novo, na festa em que eu estava perguntaram meu nome e eu respondi esse que agora assumo. E foi tão automático, que eu esqueci como me chamava.

Bateu uma saudade de mim.
Saudade de ter fé. 
Saudade de acreditar nas pessoas.
Saudade de vibrar com uma causa.
Saudade dos amigos que mobilizam juntos.
Saudade do cheiro de café com tapioca.
Saudade de achar que tudo tem um sentido. 
Saudade de crer que quem vive a violência se recupera dela um dia.
Saudade daquele âmago que me mobilizava.
Saudade dos posts da Rede social. 
Saudade de viver o que eu achei que um dia viveria. 
Saudade de quando meu riso largo e minha risada alta eram mais constantes que meu choro e o mau humor.
Saudade de tocar.
Saudade de beijar. 
Saudade de amar profunda e intensamente.
Saudade de novo de acreditar nas pessoas.

Começo um ano com saudades do que eu sei que ficou pra trás. Talvez o primeiro dia do meu ano seja um luto necessário para conseguir construir um novo.

Um novo que eu não faço a menor ideia do que será. Um novo imprevisível se desse lugar eu levantar. Completamente diverso porque se nunca me imaginei aqui, não consigo prospectar o que virá.

Que identidade há de surgir daquela identidade que hoje são stickers em fotos?

No começo do ano passado, vivi uma experiência sui generis ao visitar um lugar onde as pessoas não tinham direito sequer à existência de suas memórias. Ali estava uma Alice, do mesmo dia que nasci, mas esquecida no ano de 1945 com 19 anos. Chorei por ela. Como alguém pode não ter o direito de sua história, de sua existência, de sua memória? Várias vezes no ano passado eu sonhei com essa Alice pedindo uma história.

No dia seguinte a essa experiência eu conheci outra Alice, morta no mesmo dia do meu nascimento, naquele mesmo ano de 1945. Ela igualmente tinha 19 anos. Mas essa tinha legitimidade, história e memória.

As duas Alices estiveram nos meus sonhos e minhas noites muitas vezes naquele ano que encerrou ontem.

Eu tinha dúvidas de qual história dar àquela Alice esquecida. E me vi hoje como ela...

Talvez eu tenha que construir uma história, uma memória, que seja legítima e lícita, passível de existência tal como aquela Alice que pode existir.

Estou na toca como a Alice, ansiando ver o coelho, o chapeleiro ou ter a cabeça cortada.