A noite cai. As luzes dos prédios começam a se acender. A lua veste o seu melhor brilho e, um tanto cheia, aparece na cidade para acalmar corações solitários. No prédio de cor marsala há uma garota na janela. Com os olhos perdidos ela vê os carros passarem e as buzinas gritarem. Pessoas vem e vão, de um lado para o outro. Uns sorriem, outros falam no celular ou tem uma expressão cansada. O movimento e a rotina criam um enredo estressante. Todos se observam, mas ninguém se enxerga.

Uma montanha de informações é processada a todo momento. Cada hora é um ringtone diferente que toca. O celular apita e o foco se desfaz. A presença se tornou ausência. As pessoas estão em mais de um lugar ao mesmo tempo. Os momentos são repartidos em pedaços que não se preenchem e raramente se tocam. Perdeu-se o romantismo do passado. É tudo instantâneo - uma hora é, na outra já não é mais.

O mundo virou de ponta cabeça. A tecnologia encurtou distância com o intuito de amenizar as falhas na comunicação. A saudade tem a cura supérflua do Facetime. No entanto, já não há compreensão. As palavras são ditas sem ao menos serem processadas. É uma chuva de tweets e likes sem premeditação. 140 caracteres é o suficiente. Concisão não significa objetividade.

Não se lê mais poemas. O toca discos já não toca mais nada. Os fones de ouvido detalharam os acordes do violão, mas perdeu-se o contato com a musicalidade natural. Intensidade virou babaquice. Sentir uma perda de tempo. A frieza é sinônimo de força. Será?

A garota da janela observa e vaga em pesamentos. A solidão de uma noite fria a sucumbe. Os descompassos das palavras se perdem. E a melodia do silêncio finalmente toca. As lágrimas escorrem de seus olhos e de longe é perceptível que o seu coração se contorce por dentro. Ela se perdeu em meio a uma noite estrelada, mais uma dentre tantas outras naquela mesma janela quadrada. Ninguém a enxerga, mas daqui de alguns milhares de metros eu não consigo perdê-la de vista.

Em um mundo onde o individualismo reina, é importante valorizar quem ainda olha pela janela e sente a brisa suave da noite.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.