O que falta é se colocar no lugar do outro

Eu fui adotada ainda bebê no município de São João de Meriti no Rio de Janeiro. Para quem não conhece, é a área com a maior densidade demográfica da América Latina e possui um dos maiores índices de violência da baixada fluminense. Quando minha família se mudou pra Natal, no Rio Grande do Norte, eu estava com 3 anos de idade e tive a chance de ser criada em um ambiente seguro onde não me faltou nada, no seio de uma família unida e carinhosa.

Eu tive muita sorte, e agradeço imensamente os acontecimentos que me trouxeram para onde eu estou hoje. Porém como evitar sentir que tudo não foi exatamente isso, sorte?

Meu pai biológico teve 28 filhos, 4 foram assassinados, todos jovens, todos negros. Não os conheci nem tive a chance de criar um laço fraternal, mas são meus irmãos. Irmãos negros que como tantos outros agora também viraram estatística, eles são o “bandido bom é bandido morto”, meus irmãos. Podia ser eu ali, mas é meu irmão. Eu tive a sorte de não sentir a intensidade de ser jogada na margem, de não ter crescido sobre a desconfiança do canto do olho da sociedade. Eu não sou aquela criança em pé ao meio dia no sinal, que não vai pra escola, que vê os carros bonitos passando de vidro fechado, mas que mesmo assim é cobrada que cresça e se torne um ser humano descente. Eu não sou minha irmã biológica que foi esquartejada aos 15 anos de idade em decorrência da guerra as drogas. Eu não sou o menino que cresceu com os pais abusivos ou ausentes, sem nenhuma estrutura familiar, que passou fome, nunca foi a escola, e que estava cumprindo pena num presídio super lotado dentro de um sistema que não se importou quando ele nasceu muito menos quando ele morreu. Não sou eu, mas poderia ser. Poderia ser você, também. E, infelizmente, muitos são.

Não dá pra relativizar essas mortes de quem, quando nasce, é jogado em um funil de negligências onde o bocal é o abatedouro que são as penitenciárias, ou as ruas. Que a gente possa ter consciência do privilégio de não ter crescido nesse processo de afunilamento periférico, e que levante e vá fazer alguma coisa pela nossa comunidade, pela comunidade carente que fica a um õnibus de distância. Muito mais sensato do que comemorar as mortes de presidiários em motins, é promover a mudança para que isso não aconteça mais. É ter empatia.