Eu adoro BBB. As pessoas de uma forma geral — e com uma certa razão — julgam o programa como fútil e perda de tempo. Eu, pessoalmente, prefiro fazer do limão uma limonada. Já não era um hábito meu assistir à TV apenas pelo entretenimento, com Big Brother não é diferente: aproveito o tempo que me é dado à frente da telinha para refletir sobre as situações cotidianas.

No fundo, BBB é puramente isso. Uma pequena reprodução do que é a nossa sociedade. Por mais que acreditemos numa excessiva superficialidade dos participantes, eles só são gente como a gente. Pessoas que leem, conversam, se relacionam, se apaixonam, fazem faxina, discutem, perdem a cabeça. Tudo o que fazemos em nossas vidas. Por isso me atrai tanto. Consigo refletir, com uma visão de fora porém nunca imparcial, sobre assuntos e atitudes que nos influenciam. Às vezes desenvolvo mais perguntas do que respostas. Às vezes arrisco fazer conclusões. Óbvia ou não, a grande conclusão dessa edição é que ninguém está imune a um relacionamento abusivo.

Antes de qualquer coisa, precisamos conhecer Emily. Emily é uma jovem gaúcha de 20 anos que entrou focada no programa para ganhar o prêmio. A autoestima de Emily me dá inveja. Ela entende seu valor e faz questão de afirmá-lo. Nem uma, nem duas, mas diversas vezes, ela disse em alto e bom tom que se amava acima de qualquer coisa. Logo de cara, Emily despertou o interesse de dois participantes: Luiz Felipe e Marcos. Ela acolheu os dois em seu colo da forma mais amigável possível. Emily não estava no Big Brother para se envolver, ela foi clara - o objetivo era o prêmio.

Luiz Felipe, ainda no começo da edição, foi eliminado. Emily, aos prantos, se despediu do amigo e seguiu sua jornada rumo à vitória ao lado de sua amiga Roberta e também ao lado de Marcos. Emily conversava com Marcos, o cirurgião de 40 anos, todos os dias. Sobre o jogo, sobre relacionamentos, sobre a vida. Viravam noites contando histórias. A afinidade era inegável. Marcos cercou Emily da forma que conseguiu. Ela, por sua vez, reclamou algumas vezes para os outros participantes dessa proximidade pegajosa. Emily repetia o seu mantra de não estar disponível para um romance. Mas Marcos, como a maioria dos caras que eu conheço, não parou e ela, então, cedeu. Estava formado o casal.

No início, eram flores. Uma discussão aqui, outra ali, mas nada que não se resolvesse. Marcos tentou ensinar a Emily tudo o que ele sabia. Emily, resistente, não queria explicações sobre a vida. Imatura, ele dizia. Os desentendimentos aumentaram. Emily, em seus lamentos com Roberta, declarava: eu gosto mais de mim do que gosto dele. Eu aplaudia, sem nem ao menos simpatizar com a gaúcha. You go, Emily!

Com o passar do tempo, a frase que Emily jurava para Roberta foi perdendo o sentido. Seguiu sendo dita, mas já não parecia mais verdade. A cada dia, Emily ia diminuindo um pouco mais do seu brilho. Fechada em seu relacionamento com Marcos, já não era mais tão querida pela casa. Perdeu seus amigos, inclusive sua fiel escudeira, que não gostava do médico e se sentiu trocada. A frequência das brigas era enorme e Emily sempre estava claramente mais abalada do que Marcos. Marcos, na verdade, não demonstrava mais interesse em Emily, reclamava da menina pelos cantos da casa e era hostil quando se dirigia a ela.

Emily perdeu seus amigos, sua autoestima e seu carisma inicial. Emily só tinha Marcos. Marcos manteve seus companheiros, sua arrogância e sua agressividade com Emily. E ainda tinha Emily, caso quisesse massagem. A situação se reverteu completamente em apenas 1 mês.

Vi isso acontecer com Emily, vi isso acontecer com minhas amigas, vi acontecer com tias e primas. Pessoas que considero fortes, instruídas, com acesso à informação, conscientes. A maioria delas sabe o que é relacionamento abusivo, reconhece os sintomas, entende a gravidade de estar em um. Mesmo assim, seguimos nos encontrando nesse cenário de manipulação, nesse mar de lama em que mergulhamos por acreditar ser uma sensação gostosa. E aí lutamos para sair até perder o ar.

A culpa não é de Emily. Nem de Ana, Letícia, Maria, Antônia, Gabriela, Júlia, Neide. De nenhuma de nós. Enquanto violência for confundida com amor, enquanto ninguém meter a colher em briga de marido e mulher, enquanto agressões forem naturalizadas, enquanto não dialogarmos sobre, alguém vai entrar nesse ciclo. Só posso torcer pra não ser a próxima.