A metáfora do marciano

O sol aparecia tímido, entre o minuto em que o último bêbado sai do bar e o padeiro começa a trabalhar. Muitos ainda se espreguiçavam de uma noite mal dormida por conta de alguns pernilongos da madrugada. O galo cantou na cidade de Fátima, era domingo, dia sagrado para a maioria das pessoas que se aprontavam para ir para a igreja, e um dia oficial da preguiça para a minoria que acordava só para trocar de posição para voltar a dormir.

Mas para Seu Zé, dono da única banca de jornal da cidade, a labuta era a mesma, pois já caminhava para o centro, da cidade. Chegando em onde em frente a banca, notou uma figura estranha na esquina da rua Almeida. Parecia um homem, mas apertando mais olhos pra ver, não dava pra dizer se tinha um sexo definido. Parecia humano, mas tinha não possuía uma cor definida. Parecia alguma coisa que seu Zé já tinha visto em filme, mas não tinha a mesma altura, nem as mesmas roupas.

Durante o seu tempo curto de raciocínio, a figura percebeu que estava sendo observada, então começou a andar em direção a ele. Cada um numa esquina se encarando, a cidade vazia e o clima de suspense no ar, lembrava a uma cena de duelo de filme de faroeste. No entanto, seu Zé não estava armado e torcia para que aquele ser desconhecido também não estivesse.

Assim, o ser se aproxima e diz em tom amigável:

- Olá! Poderia me ajudar?

- S-sim, pois não.

- Bom senhor, como pode notar, não sou daqui. Tive um problema com a minha nave e preciso de ajuda para consertá-la.

- Nave? Vo-você é um et? Seu Zé diz em tom trêmulo.

- Sim senhor, o correto na verdade é alienígena. Vim do planeta Marte, estou numa missão para o planeta Vitta. Passava pela Terra, quando os propulsores começaram a dar problema e eu cai aqui. Agora preciso de algumas ferramentas para consertar a minha nave. Sabe quem poderia me ajudar?

- Olha Seu Marciano, acho que a única pessoa que poderia te ajudar é o Luis da oficina, mas ele deve ta agora na missa. Aliás, a cidade toda deve estar na igreja por essa hora. Se quiser, podemos ir lá ver se alguém pode te ajudar.

Então os dois foram até a Igreja. Seu Zé não conseguia se conter, a cada passo, olhava com curiosidade para figura estranha. Era alta e parecia humana, tinha olhos enormes e braços tão longos que o deixavam desengonçado. Usava uma espécie de macacão prata e botas de astronauta.

Assim chegaram ao destino. O Marciano disse que esperaria do lado de fora. Então Seu Zé entra na igreja e recebe rapidamente um olhar de reprovação do padre Augusto que diz:

- O que foi seu Zé? Não vê que estou no meio do sermão? Não tem respeito pela casa de Deus.

- Er…desculpe Padre Augusto. Mas tem uma pessoa, bom não é bem uma pessoa. Bem, tem alguém que precisa de ajuda, ele ta lá fora. E preciso que todos fiquem calmos, ele parece amigável.

- O que está falando seu Zé, mande o moço entrar logo! Diz o Padre já sem paciência.

Então Seu Zé busca o Marciano que entra de cabeça baixa na igreja.

Uma mulher grita, outra desmaia, enquanto uma criança pergunta pra mãe o que é aquilo. O Padre Augusto começa a rezar cinco Ave Maria e dez Pai Nosso em voz alta. E um homem levanta do banco e vai em direção aos dois, em passos rápidos e semblante nervoso.

- Pode me explicar o que está acontecendo?

- Oh, seu prefeito. Pois então, hoje de manhã encontrei ele, o Marciano, parado no meio da rua. Diz que sua nave caiu aqui perto e precisa de ajuda. Diz seu Zé de uma só vez, quase sem fôlego.

Quando o Marciano intervém e explica sua situação para todos de maneira educada e calma. Porém, adiciona um novo fato, pede para que ninguém na cidade chame as autoridades, senão não conseguiria voltar pra casa.

Algo na forma ou no tom em que o Marciano falava, fez com que a cidade deixasse de pensar na estranheza de tudo aquilo e passassem a confiar no alienígena.

O Prefeito Maurão é o primeiro a oferecer-lhe um lugar pra dormir naquele dia. Sem antes, levá-lo para um passeio turístico pela cidade.

O Prefeito se gabava pelos feitos na cidade de Fátima, a ponte que cruzava toda a cidade, o asfalto novo que brilhava no sol e o lugar onde estava sendo construído o primeiro shopping da Fátima. Entretanto, o Marciano não pôde deixar de notar algo de estranho naquela construção , haviam metade de casas derrubadas no local, então perguntou para o prefeito:

- Pra onde os moradores foram?

- Er…bem, eu não sei dizer exatamente. Mas todos foram avisados com antecedência, as pessoas sabiam, e a construção do shopping Alameda é muito importante para a cidade. E continuou num discurso que parecia já bem ensaiado.

No outro dia, o Marciano ficou na casa de Dona Vera, uma costureira aposentada, que tinha fama de mau humorada. Embora, conhecendo-a de perto, percebia que o problema de Dona Vera era simplesmente a falta de companhia e do que fazer.

- Dona Vera, a senhora não costura mais?

- Oh não. Na verdade, eu não tenho mais pra quem costurar. Meus filhos moram em outra cidade, não tenho família por perto.

- Mas, e se a senhora costurasse pra uma família daqui que precisasse?

Passado mais um dia, o Marciano vai ao encontro de Seu Zé da banca, quando lê a chamada no jornal: “Prefeito Maurão dá moradia para famílias que foram movidas para a construção do shopping Alameda”.

- Olá Seu Marciano, tudo bem? Como está indo o conserto da sua nave? Pergunta Seu Zé já disfarçando melhor sua curiosidade.

- Na verdade não está Seu Zé, eu ainda não conheci o Luís da oficina.

- Ah sim, vamos até lá então!

No caminho para oficina, o Marciano nota duas meninas, mais ou menos de oito anos, segurando uma sacola de roupas entrando na casa de Dona Vera.

- Ô de casa! Bom dia Luís, esse aqui é o Marciano, precisa da sua ajuda pra consertar seu carro, ops. Sua nave! Ainda é estranho falar isso…

- Vamos entrando, aceita um café seu Marciano?

Dentro da casa simples de Luís, grandes esculturas feitas de sucata com peças de carro e muita criatividade chamavam atenção no meio da sala.

- Você que faz essas escultura seu Luís?

- Ah sim, sou eu. Faço pra mim mesmo. Sabe, acho que ninguém vai se interessar por isso na cidade.

No outro dia, o Marciano passa o dia com a família Silva, Seu Claudio, dona Maria e seus dois filhos, Natalia e Tiago, que parecia estar extremamente animado por estar recebendo em sua casa visita tão ilustre.

- Então você vem do espaço, certo? Tem comida por lá? Você é homem ou mulher? Você veio nos observar? Acha que a raça humana tem que ser extinta?

- Calma rapaz, uma pergunta por vez. Mas que besteira é essa de extinção da raça humana? Por que acredita que deveriam ser extintos?

- Ah não sei, meus pais vivem dizendo que esse mundo tá perdido. E meu professor de biologia da escola, também disse que estamos acabando com a natureza, que logo não vamos mais ter água potável ou oxigênio, etc.

- Então, o que você está fazendo para mudar isso?

No sábado, o marciano mais habituado com as ruas da cidade, decidi caminhar um pouco antes de voltar para o conserto da sua nave. Atravessa a ponte para o centro, quando percebe uma aglomeração de pessoas, chega mais perto e vê seu Luis expondo suas obras de arte, e os mais curiosos até perguntavam o preço.

Domingo chega novamente, o galo canta, o sol aparece, as pessoas se aprontam pra missa, seu Zé caminha para a banca, quando nota um grupo de crianças, sendo conduzido pelo filho do seu Claudio. Tiago trazia nas mãos o que parecia ser mudas de árvore e indicava para o grupo onde colocá-las.

Depois do fim da missa, o pessoal se agrupava para papear em frente a igreja. O Padre Augusto gostava de observar as pessoas conversando e também saber quem havia faltado na missa. Foi quando ele percebeu que o Marciano não estava lá. Perguntou pra algumas pessoas em qual casa o Marciano passou a noite ou se alguém sabia onde ele estava, mas ninguém sabia dizer.

Depois disso, o Marciano não apareceu mais na cidade de Fátima. Procuraram-no por algum tempo sem sucesso. Houve quem disesse que na verdade, o Marciano era um anjo enviado dos céus, outros que o visitante nem sequer era real. Mas todos concordaram com sua homenagem em forma de estátua de três metrôs do Marciano, que o prefeito Maurão colocou no centro da cidade. Os cidadãos de Fátima sempre que passavam por ela, sentiam vontade de mudar algo a sua volta.

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