notas astrológicas sobre milton nascimento e sua obra

“Eu que amo meus amigos/ livre/ quero/ poder dizer: eu tenho esses peixes e dou de coração” canta Milton Nascimento, em “Milagre dos Peixes”, justo ele que tem Júpiter, regente dos milagres e de Peixes, exaltado na casa da palavra.

Tudo isso porque nasceu num 26 de outubro, já com o Sol no domicílio noturno de Marte, em Escorpião, às Seis Horas da Tarde, hora homônima da canção que abre o álbum “Angelus”.

Seis Horas da Tarde lhe confere o ascendente em Touro. Milton regido por Vênus — e quem duvidaria de que a Dona da Beleza e da Voz não cuidaria do corpo do menino Bituca.

Elis Regina disse certa vez que se Deus cantasse o faria com a voz de Milton. Hora de Angelus são três momentos do dia em que os católicos se lembram da Anunciação, da Aceitação por parte de Maria do Milagre de Deus, do sangrar-se virgem para trazer o cordeiro ao Mundo. Seis da manhã, meio dia e Seis Horas da Tarde. Aqui em Três Pontas, terra que em Lília [a mulher que aceitou o chamado do destino de ser mãe adotiva de Milton Nascimento] o criou, até pouco tempo atrás ainda era possível escutar o canto lúgubre que invade o centro da cidade às Seis Horas da Tarde. A atmosfera católica da pequena cidade do Sul de Minas viria a estruturar Bituca, perpassando toda a sua obra. Um catolicismo que também é negro, popular, de tambor e de gentes invadindo as ruas. Em procissão. Saturno, que rege as casas IX e X, casa da Religião e da Carreira e Reconhecimento, respectivamente, está na casa II, de seu mapa, em Gêmeos, onde também está sua Lua, que rege a III: a casa da Rua e a casa da Palavra.

A Casa da Esquina.

Júpiter, o grande benéfico, está ali, na casa III, exaltado em Câncer. A rua, a educação infantil, os trânsitos, os cultos femininos — e por que não dizer ao feminino? já que sua relação quase devocional às mulheres de sua vida é algo de natureza jupiteriana: expansiva e exaltada. Essa mesma exaltação que rege a casa da morte: quando as mulheres de sua vida morreram (a mãe Lília e Elis Regina, a musa), ele quase foi junto. E a elas, devotou um álbum: “Pietá” onde inclusive canta sobre “A feminina voz do cantor”: “Minha mãe que falou/ Minha voz vem da mulher/ Minha voz veio de lá, de quem me gerou/…/Sua voz de trovador / Com seu povo se casou / E as ruas do país são seu altar / Feminina é a paixão/ No seu amor musical/ Feminino é o som do seu coração”
A Lua Gêmeos, regente natural do povo, rege a casa III, casa da palavra, casa da rua, a casa do encontro e está em Antíscia com Júpiter Câncer na casa da Esquina.
Júpiter rege a XI, a casa dos amigos: os amigos exaltados na rua. Na esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza (tinha que ter uma mulher e santa, né?) em Belo Horizonte, nasceram canções com os amigos. É a tal esquina do Clube.

A casa de Milton sempre foi onde seu coração está em parceria ou em revés: o sol na casa VII rege a casa IV. “Meu corpo sem lugar” (Vera Cruz) “Minha casa não é minha/ e nem é meu esse lugar” (Travessia) — o corpo é sempre onde está o outro.
Milton e a passagem. Milton e o caminho. A primeira canção gravada em 1962 chama-se “Barulho de Trem” — eterna paixão, memória e nostalgia.

Júpiter amplifica em casa cadente: os amigos e a morte.

Saturno em Gêmeos na casa II rege por exaltação a casa VI, onde está sua Fortuna e os três significadores possíveis de profissão num mapa: Mercúrio — inteligência, sutileza, loquacidade, habilidade na estética da criação verbal; Marte — atividade, mobilidade, alegria e força; Vênus: senso estético, habilidades corporais e o prazer: todos em Libra, que dá domicílio a Vênus e exaltação a esse Saturno.

A harmonia e a beleza, a justeza das coisas é uma grande responsabilidade, um grande peso. Peso das palavras, que o sustenta. Milton nasceu pra o seu ofício, embora tanta sensibilidade o adoeça de forma tão feroz, em muitos momentos da vida, mesmo que as pessoas não vejam tudo isso com clareza.
Mesmo que todos fiquem apenas com o ar misterioso do homem que sente o prazer e o veneno andarem pelo corpo, que ilumina os nossos mistérios com sua voz de trovão. Sua imensidão.

Bituca sabe tão bem do peso que uma palavra pode ter, que em muitos momentos sabe que apenas o cantar, sua voz solta sem a prisão da palavra é a única capaz de expressar com a exatidão o tamanho imenso do seu sentir. Milton precisa catalizar o que sente e transmitir isso, comunicar pela via precisa que é a do coração: ele ilumina o outro. Júpiter em Câncer faz trígono com Sol em Escorpião: “tudo que você podia ser/ sem medo”.

Milton é feito de tudo aquilo que move, tudo por onde move e tudo aquilo que o move, mesmo fixo, no seu ascendente em Touro “quem é teimoso não sonha outro sonho, não”.

Dizem por aí, que um homem do mundo. Imenso. “que invade, arde, queima e encoraja”. A esquina de Milton é o mundo inteiro. “Angelus” é o álbum preferido de Milton, que ele mesmo considerou como um outro Clube da Esquina: na arte do encontro ali estão seus irmãos das paragens do mundo: Wayne Shorter, Naná Vasconselos, James Taylor, Jon Anderson, Herbie Hancock, Pat Metheny, Flávio Venturini, Leonardo Bretas. Canta seu sofrer, sua terra natal, cantarola Angelus e a alegria da comunhão com Deus junto das crianças [vinde a mim as criancinhas que delas é o Reino dos Céus], canta qualquer coisa haver com o paraíso. Dá a sua interpretação e leitura única a “Hello, Goodbye”, com a dor intensa de quem quase morre ao se despedir. Em suma, Milton se conta e canta.

E hoje, Milton faz aniversário.

“E lá se vai
mais um dia.”

isabela morais

originalmente publicado na página Estação Vênus, Música e Astrologia.