A Argentina se mostra mulher

Mal cheguei em Buenos Aires e já me deparei com a notícia de que haveria uma manifestação pró-aborto em frente ao Congresso Nacional, onde ocorreria a apresentação de um projeto que lei que prevê a legalização da interrupção de uma gravidez de modo seguro e digno.

E o que se faz quando tem uma manifestação na agenda? Você vai. Peguei meu amado bloquinho de anotações e me aventurei, juntamente com o fiel escudeiro Matheus, pelas melancólicas ruas de Buenos Aires até o Congresso.

Ruas estreitas e rodeadas de grandes prédios antigos, com janelas grandes e portas monumentais levam a grandes parques, sempre com alguma obra de arte que ilustra a história do país. Apesar de ser uma cidade grande, o barulho é suficiente para ilustrar a caminhada silenciosa em uma trilha sonora poética.

O Congresso não passa de um prédio gigantesco e extremamente imponente. Cheio de detalhes, só não deve superar a Sagrada Família (Barcelona) em curvas e esquinas arquitetônicas, sensuais ao olhar turístico, que te fazem sentir como um serumaninho minimalista e grande como formiga.

Uma bateria tocava energeticamente enquanto nos aproximávamos do ato. De longe, bandeiras coloridas e gritos de guerra poderiam ser identificados. De perto, mulheres e homens fazendo campanha na esperança que o país pudesse dar um passo em direção ao “aborto legal, seguro e gratuito”.

Grupos feministas podiam ser identificados pelas respectivas cores. Apesar de estarem juntos na luta pela legalização, não formavam uma massa de cores misturadas: cada cor em seu lugar.

No alto de um palanque, uma jovem falava energeticamente para a pequena multidão que a aprovação do projeto de lei reconheceria “pleno direito da mulher para interromper uma gravidez indesejada” e que, mais do que necessário, a Argentina precisa de um “Estado laico e democrático”.

Atualmente, a prática do aborto é tida como homicídio e punida com encarceramento. No último dia 25, uma rede de clínicas clandestinas foi fechada pela Polícia Federal argentina, prendendo 20 suspeitos de envolvimento.

A pluralidade cultural da Argentina estava presente na manifestação. Diferentes etnias, gêneros (por aqui, existe uma maior aceitação de homens na luta feminista), cores e curvas mostraram as caras das mulheres. Mostraram a cara da metade mal representada do país. Mostraram a Argentina como mulher.

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