imagem por luisa brimble (encontrado no flickr)

Almoço em família

No último dia das mães na minha família, todas as mulheres dividiram a feitura e compra dos comes e bebes para o lanche comemorativo. Cada uma levou alguma coisa com o objetivo de tirar a sobrecarga de trabalho que sempre fica para a matriarca, minha avó. Isso era mais importante ainda depois de um momento difícil que passamos todos juntos.

Nossa família é majoritariamente de mulheres. Éramos, neste dia, três homens e seis mulheres. Chegamos todas, cada uma com a sua parte do lanche, fomos para a cozinha, terminamos de organizar o que faltava e montamos a mesa. A família se sentou para iniciar a comilança. Toalha, pratos, talheres, copos, guardanapos, comidas e bebidas postas. Pelas mulheres.

Com todos à mesa, fiz uma proposta: “Já que todas as mulheres fizeram uma parte deste lanche, que tal os homens tirarem a mesa no final? Assim, dividimos as tarefas!” Reparem, porém, que as mulheres fizeram a comida, colocaram a mesa e a louça ficaria para a minha avó lavar (provavelmente até com alguma ajuda do meu avô mas sendo o trabalho mais pesado da avó, com certeza). A divisão de tarefas já estava um tanto desigual mas, ainda assim, tive que ouvir respostas negativas. Um “hahahaha Mas aí você está mudando o curso natural das coisas” meio de brincadeira que pra mim não é brincadeira alguma do lado de cá e uma revirada de olhos do lado de lá. Um clima de tensão se instaura, eu só digo que não vamos querer debater a naturalização das coisas agora, sou silenciada e o lanche se inicia.

Papo vai, papo vem, comida pra lá, comida pra cá. Por alguns momentos eu achei que iríamos ficar sentados com os pratos mais vazios do que cheios para sempre sem ninguém tomar nenhuma iniciativa. Fiquei esperando para ver se eles iriam perceber e fazer alguma coisa no fim do lanche ou não. Ilusão a minha. Depois de um tempo de todas e todos terem terminado, os dois netos levantam da mesa e sentam no sofá, deixando seus pratos por lá. Alguma das mulheres iniciou a retirada das coisas para a cozinha e foi preciso um “Mas os homens dessa família são uns imprestáveis mesmo” (meio de brincadeira que pra mim não é brincadeira alguma) proferido por mim mesma para que um deles se levantasse reclamando e retirasse o próprio prato, talheres e copo. No fim, se vangloriando de seu feito, é claro. Acho que ele esperava um agradecimento.

Fiquei pensando em quantas mães não fizeram os seus próprios almoços de dia das mães, lavaram a louça de toda a família e ainda tiveram que agradecer por aquele momento no final. Quantas mães não tiveram que fazer o almoço e lavar a louça do dia das mães de outra mãe, recebendo uma diária qualquer por isso. Quantas mães não fazem os almoços e lavam as louças todos os dias, como se esse fosse seu dever.

Historicamente o lugar da mulher é dentro de casa. Durante muito tempo era só esse o lugar que podíamos frequentar e só esse o trabalho que poderíamos realizar. Muita luta foi necessária para que pudéssemos conquistar mais espaços, mais empregos, mais direitos mas, no fim, aparentemente o nosso lugar continua sendo na cozinha. A dupla (tripla, quádrupla) jornada de trabalho é uma realidade feminina. Nos dão o direito e a oportunidade de trabalhar fora de casa mas sem deixar de lado as tarefas do lar — comida, roupa lavada, casa limpa e a criação dos filhos precisam ser garantidas.

(E não sou hipócrita de dizer que na minha casa as tarefas são todas divididas igualmente não, ainda tenho muito a fazer para tirar esse peso da minha mãe .)

A mídia é braço forte da manutenção dessa divisão de papéis por gênero. Na tv, na internet, no jornal, o homem que cuida dos filhos, que cuida da casa, que faz a comida é idolatrado, é tratado como a esperança dentre os homens e é parabenizado (acho que como o meu primo quis ser naquele dia). Parabenizado pelo que lhe é o mínimo, por dividir os trabalhos de sobrevivência coletiva em um espaço. Isso não deveria ser normal?

A construção social de um mundo enraizado no patriarcado nos faz achar que o normal é que os homens fiquem sentados à mesa enquanto as mulheres colocam e tiram as refeições. Mas não é, não deve ser e nós podemos fazer com que não seja. Isso serve pra mim, pros meus primos e pra cada um que fica sentado à mesa esperando que as coisas aconteçam magicamente. Não é mágica. Normalmente, é uma mulher.

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