No mundo da moda, “gender is over”?

Quando eu era mais nova, eu era bem fissurada em moda. Gostava mesmo, acompanhava fashion weeks e blogs diversos. Ainda gosto mas não exatamente das passarelas. E aí que, do alto da minha ignorância no tema, tenho reparado uma certa tendência: a das roupas “unisex”. Dizem por aí que está na moda se vestir com roupas que desconstroem o gênero. Quer dizer, se dizem que eu, enquanto mulher, preciso exaltar minha feminilidade através da roupa ou se o homem precisa ressaltar sua macheza, é hora de fazer o contrário. Irado, né? Afinal, assim como os nossos papeis enquanto mulheres e homens são construídos socialmente, o que vestimos faz parte dessa construção. Porém (sempre tem), a moda é muito mais do que euzinha aqui me vestir assim ou assado. (Já nos ensinou O Diabo Veste Prada, aquele jeans não é só aquele jeans) Bem, moda é mercado e não é pouco não. Não é a toa que, nesse momento, “pode” desconstruir o gênero através do que se veste.

Willow e Jaden Smith

Mas quem pode? Outro dia vi uma imagem com a Willow e o Jaden Smith. Ela de vestido colado e jaqueta de couro, ele de saia e jaqueta jeans, e a legenda “Gender is Over”. Pois minha gente, um homi põe uma saia e vocês saem por aí dizendo que “gender is over”? Mesmo? Isso é de uma irresponsabilidade que não sei nem por onde começar. Por isso, vou aqui fazer uma abordagem: faz um tempo mas houve um momento da nossa história que mulher não usava calças. O gênero se acabou quando botamos uma? Eu uso calças quase todo dia e continuo vivendo desigualdades e opressões das mais diversas por ser mulher. Por aqui, os papéis de gênero continuam rolando e por aí?

Quer dizer, é o esvaziamento total da pauta da desconstrução dos papéis de gênero. E quando se esvazia de significado um ato que pode ser simbólico, que pode ser resistência, que pode ser desconstrução, se chega a isso: homens (brancos em sua maioria) usando uma saia são tratados como o máximo da desconstrução pelo mercado da moda. Afinal, é isso mesmo, é esse o limite que esse mercado nos dá. É pra desconstruir… Mas sem exageros, né? A mulher que se veste com “roupas masculinas” continuará sendo a sapatão esquisita, não vai ser símbolo de desconstrução. Aí uns dias depois, Lollapalooza rolando e: http://ihateflash.net/zine/o-lollapalooza-nao-tem-genero. Ai, I Hate Flash ! 5 pessoas entrevistadas. 4 homens. Maioria de homens, magros, brancos, dentro do perfil, o perfil que é aceitável. Mais uma vez, os homens colocam saias e croppeds e, PUF, o gênero se acabou.

A desconstrução precisa acontecer e todo esse debate não tira a validade de expressar esta desconstrução pelas roupas, mas estou ainda esperando as mulheres vestindo roupas fora do padrão sendo capa dOs fotógrafOs da noite, estou esperando as negras, as gordas virarem símbolo das desconstruções de gênero. (e elas com certeza podem falar muito melhor que eu sobre isso) Ainda há muito o que avançar e, na minha opinião de observadora e consumidora da moda, precisamos refletir mais sobre o que reproduzimos. Nem sempre o que parece um grande avanço, o é. Moda também pode ser política e também pode ser desconstrução mas tem que ser mais do que só “um modismo”.