Reflexões de um Carnaval: parte 1

Sobre a reação da “ordem” à diversão

Abertura Não Oficial do Carnaval: Janeiro de 2016 (foto: G1)

Carnaval é diversão, é liberdade, é manifestação cultural e é (ou pode ser) ocupar as ruas que normalmente não são nossas, mas deveriam ser. No Rio de Janeiro este ano saíram às ruas mais de 500 blocos oficiais, ou seja, aqueles que têm a autorização da Prefeitura, com data, horário e trajeto ou local marcados com antecedência. Pra esses, a Prefeitura organiza um esquema de fechamento das ruas para os carros, segurança e alguma infraestrutura. Faz sentido quando se quer divulgação ampla, a tal estrutura para a realização do bloco e, digamos, estar na legalidade. Em paralelo saem também inúmeros blocos não oficiais. Estes saem sem a autorização da Prefeitura, em dia, horário e trajeto ou local definidos por eles próprios e, geralmente, divulgados com pouca antecedência — a ponto de rolar uma busca do bloco tal que está acontecendo mas não se sabe muito bem aonde. Pessoalmente, acabo indo mais aos blocos não oficiais do que nos oficiais (não que eu goste de ficar correndo atrás de bloco perdida na rua, mas de alguma forma eles me atraem mais, seja pela música, pela proposta ou pelo menor número de pessoas). A maioria dos blocos não oficiais que conheço e frequento tem pelo menos uma coisa em comum: a defesa do direito e necessidade de ocuparmos a rua e a cidade, no Carnaval e fora dele.

A minha programação de blocos pra 2016 era, em sua maioria, composta pelos tais blocos não oficiais e algumas situações revoltantes se repetiram. Nos dois blocos que tinham como parte de seu trajeto o Aterro do Flamengo e, consequentemente, o Monumento aos Pracinhas vi, ao mesmo tempo em que a pequena multidão se aproximava, guardas que fazem a segurança do Monumento colocarem suas armas em punho e se afastarem de forma desorientada da felicidade carnavalesca. Nunca vi uma festa ser tão ameaçadora. Em um desses blocos, quando os foliões animados entravam para as ruas do Flamengo, um belo spray de pimenta lhes esperava pelas mãos da PM. Em outro dia eu não só ouvi falar, mas senti nos olhos, nariz e boca a ardência do spray que pareceu surgir do nada. Estávamos cortejando pelo Centro da Cidade e, durante o processo de o bloco atravessar uma rua aberta para o trânsito (vocês devem imaginar que não seja tão rápido fazer um bloco inteiro passar, mas nada que fugisse da normalidade desta demora acontecia), se apresenta uma viatura azulzinha e, sem nem termos visto muito bem como nem de onde, só sentimos o cheiro, a dificuldade de respirar, a ardência e corremos. Na quarta feira de cinzas soube que o mesmo aconteceu. E lá no início, na Abertura Não Oficial do Carnaval, aconteceu também.

Quando vamos à manifestações políticas nas ruas (sem tirar o cunho político do Carnaval), já esperamos encontrar os guardadores da “ordem” a nossa espera com cassetetes, sprays, bombas e armas em punho. Aprendemos na marra que é assim que eles lidam com as nossas lutas. Pois aparentemente é assim que lidam também com a nossa diversão. Mais uma vez, é jogado na nossa cara qual o papel da Polícia Militar e da Guarda Municipal nas nossas cidades, ou pelo menos, que este papel não é proteger e estar ao lado da população. A lógica é: se você não está dentro dos padrões do poder, você não pode estar. E o Carnaval é só um exemplo disso. Que continuemos lutando pelas nossas vidas, nossas lutas, nossa cidade e nossa liberdade, seja em fevereiro, seja no resto do ano inteiro. A “ordem” da cidade é a gente que diz. E depois do spray de pimenta, voltamos pro bloco. Ninguém nos tira, a rua é nossa como deve ser.