Quando vamos parar de ignorar a escravidão?

Escola é um espaço de socialização, o lugar onde crianças aprendem o conjunto de valores, normas, costumes e conhecimento necessários para serem inseridas na sociedade que nasceram. Não é, portanto, surpreendente, que em uma sociedade racista, a escola seja um espaço de produção e reprodução de desigualdades sociais. Qualquer pessoa que não se enquadra no padrão de branquitude experienciou um ou mais (geralmente muito mais que um) episódio de discriminação e violência. Essa realidade tem um impacto profundo na construção da auto estima de crianças racializadas brasileiras, fato que se ganhou visibilidade um tempo atrás com a hashtag #meuprofessorracista, onde milhares de pessoas compartilharam situações de violência vivenciadas dentro das salas de aula.
Eu sou professora, atuei e atuo (agora, esporadicamente) dentro de salas de aula, geralmente em instituições públicas, e, durante minha trajetória profissional, vi e ouvi dezenas de comentários e situações inacreditáveis. Existe, obviamente, um lado meu idealista que ainda insiste em tentar fazer a diferença dentro do espaço escolar, mas, depois de algum tempo, aprendi que a escola só pode ir até um certo ponto. Não adianta acreditar piamente em uma educação revolucionária em uma instituição que tem como função educar crianças para um sistema capitalista.
Ter essa visão pessimista não significa fechar os olhos para os absurdos que ocorrem dentro do espaço escolar. Falar: é assim mesmo e não tem nada que possamos fazer. Educação é um direito, garantir um espaço saudável e não violento é uma obrigação de qualquer funcionário de uma escola. Tendo isso em vista, as leis 10639/03 e 11.645/08 determinam a obrigatoriedade do ensino de cultura e história afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras. E isso passa, mas não só, por abordar de forma responsável o tema da escravidão em sala de aula.
Obviamente isso não significa um rompimento com as narrativas racistas na escola. Hoje me deparei com um post de uma professora se orgulhando de uma atividade com crianças do quarto ano: rostinhos pintados de preto, turbantes, pedacinhos de cana e jarras de caldo de cana, aparentemente uma atividade para mostrar a “importância da mão de obra escrava”. Pintar crianças de preto, colocar turbantes, dar uns pedaços de cana de açúcar é, no mínimo, ultrajante. A escravidão é um dos episódios mais violentos e traumáticos da história da humanidade e já passou da hora de ser tratada como tal. Trezentos anos de sequestros, torturas, cativeiro, estupros, assassinatos não podem ser tratados em uma atividade lúdica com fantasias e docinhos. A gente tem que começar a abordar a escravidão como o crime que foi e que ainda é.
Na escola ou fora dela, o Brasil jamais tratou a escravidão com a seriedade necessária. Foi um problema a ser jogado para debaixo do tapete, esquecido por meio de queimas de arquivos e políticas de branqueamento. Tratado como modelo econômico, como uma questão de “mão de obra”, um capítulo um tanto incômodo do período colonial. Um crime de proporções globais, que aniquilou e condenou (e continua condenando) milhões de pessoas ao redor do mundo, ainda é tratado com levianidade em diversos espaços. Não só na escola da foto, em São Paulo é possível existir um restaurante chamado Senzala, na região do Vale do Paraíba, existem hotéis que prometem uma viagem no tempo ao período colonial, com direito à atores vestidos de escravos. Na TV, vemos a escravidão como pano de fundo para amores impossíveis de casais brancos que até se comovem com a situação de seus escravos, mas isso não chega nem aos pés de seus sofrimentos amorosos.
Todo mundo se exime da responsabilidade, foi uma coisa horrível sem dúvida, algo imperdoável, mas sem culpados. Durante esses trezentos anos é quase como se a escravidão tivesse se mantido por uma força mística. Coisa do passado, mantida por homens cruéis que já morreram há muito tempo e outros que, sem culpa nenhuma, eram apenas homens do seu tempo. Como eles poderiam saber que torturar e manter em cativeiro seres humanos era ruim, se era legal e todo mundo fazia? Não vamos falar sobre o papel da escravidão na acumulação de capital e na concentração de riquezas, do impacto que ela ainda tem na produção de desigualdades econômicas e sociais. Em seus desdobramentos, no encarceramento em massa, na marginalização de populações negras, no genocídio, no espistemicídio, no desenvolvimento da teoria racialista, na escravidão contemporânea. Vamos deixar ela lá, bem escondida debaixo de um capítulo de um livro didático sobre a cana de açúcar e sobre como os negros escravizados inventaram a cachaça para aguentar “melhor” a realidade que viviam.
Em um outro texto, em outro espaço, eu falei que escravidão, como tudo no Brasil, é coisa de branco. São eles que decidem como, quando e sob quais critérios ela será tratada. Se vamos tratar em sala de aula, que seja de forma neutra, romantizada e distanciada, nada de falar sobre responsabilidades ou consequências, no máximo um: “os negros não foram integrados na sociedade” e bola pra frente, próximo capítulo. Se for para lucrar, ainda melhor, colocamos uns instrumentos de tortura na parede, umas pessoas vestidas de escravos servindo sua água e prometemos uma “viagem no tempo”. Falar sobre reparação, medidas afirmativas e responsabilidade é bobagem, vitimismo. As narrativas sobre pessoas negras escravizadas ou não que resistiram, lutaram e se rebelaram contra a escravidão ainda são escritas e divulgadas, principalmente, pelo movimento negro e passam batido pelo discurso histórico oficial (no currículo escolar ou fora dele). Pouquíssimas escolas vão ensinar sobre Dandara e a maioria vai dar um desenho do Zumbi dos Palmares pra criança pintar no dia 20 de novembro. A gente ainda passa o dia da consciência negra discutindo sobre o porquê da data e o porquê de um dia da “consciência branca” ser completamente dispensável.
Nós não entendemos a escravidão, não com profundidade. Nós não falamos disso com ciência do que foi, do horror, da dor, da violência, da crueldade, do fedor, do sangue, das feridas que ela significou. Não pensamos nos corpos empilhados cobertos de fezes, urina e vômito em porões de navios, sequer refletimos sobre porque chamarem de navios tumbeiros. Não pensamos nas ruas lavadas de sangue ao redor dos pelourinhos, nas marcas de unhas nas paredes das masmorras, nas máscaras de ferro no rosto de pessoas, nas cicatrizes, nos açoites, nos estupros, nas mutilações, nas separações, nos infanticídios, nos abortos, nos suicídios, na privação de liberdade, de comida, de água, de nome, de língua.
Combater a invisibilidade histórica das populações negras é importante para o fortalecimento dessas populações. Valorizar figuras de luta e de resistência, de destaque na arte, na ciência e na política, as manifestações culturais, as religiões, a oralidade como fonte. Mas também é importante que a violência seja abordada e reconhecida pelo que foi, não romantizada ou atenuada. Tratar a escravidão com responsabilidade e com a seriedade devida não vai, obviamente, acabar com o racismo, não vai resolver todos os problemas raciais brasileiros. Mas manter essa narrativa lúdica, romantizada, distanciada e “limpinha” só contribui para a banalização da violência que pessoas negras sofreram antes e agora.
Eu espero (ainda que não tenha muitas esperanças) que, um dia, atividades como as da postagem que vi não sejam mais possíveis. Imagino o significado que ela tem na mente de crianças negras, sendo representadas desta forma, o impacto que ela tem na mente de crianças brancas, aprendendo a reconhecer o outro dessa forma. A violência inscrita aí: em como eu me vejo e como vejo o outro. A escola é, sem dúvida, um espaço de produção de violência.
