A Mulher Pública

Uns anos atrás eu escrevi um texto para o Blogueiras Negras sobre a vida de Saartjie Baartman — que, infelizmente, continua sendo conhecida como a Vênus Negra — e a forma como o racismo científico impactou todas as esferas sociais no ocidente. Durante a pesquisa eu refleti muito sobre as mulheres e seus corpos, essa dicotomia entre as mulheres públicas e as mulheres privadas.

Todo mundo sabe a história da mulher respeitável: o pai cede a filha no casamento, ela passa a ser propriedade do marido e fica reclusa em casa, cuidando do lar, dos filhos e do marido. Mulher rainha do lar, soberana da casa, privada, particular. A mulher privada é posse, tem dono e só esse dono pode dispor dela como bem entender. Mas, atente-se, ele pode dispor dela como bem entender.

E aí nós temos as mulheres que não são privadas, aquelas que circulam na rua, na esfera pública, atiçando os homens. O termo “mulher pública” é associado à prostitutas. Mas é muito mais que isso, numa sociedade feita para e por homens, em última instância, a mulher pública é aquela que todos podem dispor como bem entendem. Saartjie já era uma mulher pública bem antes de se tornar prostituta, e, por isso, pôde ser estudada, analisada e exposta. Ela continuou sendo uma mulher pública depois de sua morte e, por isso, seu corpo pôde ser dissecado e seus órgãos sexuais, expostos em um museu.

Por mais que afirmem que as mulheres já conquistaram sua liberdade (a gente pode até trabalhar, olha só), o fantasma da mulher pública nos atinge com um tapa assim que pisamos na rua. Qualquer mulher na rua é pública e os homens com quem cruzamos fazem questão de nos lembrar disso, a cada assobio, cada cantada, cada passada de mão e puxão de cabelo.

E tem aquelas que são públicas em qualquer lugar, à disposição de qualquer um. Mulheres negras são mulheres públicas, mulheres indígenas são mulheres públicas, mulheres trans são mulheres públicas, todas aquelas que desviam do padrão da mulher pura, virginal, abnegada e frágil. São aquelas que não vão passar das mãos do pai para o marido, aquelas cujos corpos serão explorados até o esgotamento, aquelas que não podem nem ser estupradas, porque não há estupro se seu corpo é puramente sexual, não é?

Eu lembro que uma vez organizei um evento sobre mulheres negras e indígenas na faculdade e uma das palestrantes disse que era comum que meninas indígenas fossem violentadas em seu próprio território por homens que achavam que elas estavam à disposição. Mulheres públicas.

A sociedade patriarcal promove uma ideia de oposição entre mulheres públicas e mulheres privadas, como se elas fossem polos distintos, distantes. Não são. Essa ideia de que o lugar privilegiado do lar é uma coisa que nós, mulheres públicas, precisamos almejar, alguém pra nos chamar se suas. Não é. Ser posse de um não é melhor do que ser posse de todos.

Entre ser uma mulher pública ou ser uma mulher privada, eu prefiro lutar para ser uma mulher livre. Quero a autonomia de dispor do meu corpo, somente eu e mais ninguém. Eu quero isso que os homens têm, a inviolabilidade do corpo e do sujeito. Não vejo motivo de almejar a gaiola dourada só porque ela me foi negada.

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