O diabo da não monogamia

Isabela Sena
Aug 22, 2017 · 5 min read

Em 2014 eu estava tentando sair de uma das relações mais destrutivas que tive. Entre indas e vindas e um encaixe perfeito de inseguranças, loucuras e violências, namorei um cara por quatro anos e passei um inteiro à disposição dele. Foi triste e realmente acabou com o pouco de dignidade que eu tinha.

Como a péssima pessoa que eu tendo ser quando estou machucada, esmiucei esses anos e transformei minha experiências em uma régua moral. A tentativa de um relacionamento aberto que deu muito errado, os dramas e, eventualmente um fim de relacionamento que me transformou em uma ameba chorosa me deu total autoridade para sair por aí esbravejando contra a não monogamia e os homens malvados que a usavam para iludir pobres meninas como eu. Ser negra num espaço majoritariamente branco me deu mais cartas ainda para cagar regra em cima de relacionamentos alheios. 2014 não foi, definitivamente, meu melhor ano como pessoa.

Enfim, cuspir pra cima é sempre um risco e, no meu caso, caiu em cheio de volta na minha testa. Em algum momento eu me recuperei do tombo e comecei a sair com outras pessoas. Tive uma história de amor com um cara em outro continente e um caso todo divertido e sem nenhum compromisso com outro boy. Saí por semanas com uma mina que ia se mudar para Goiás. Nada disso era não monogamia, mas era uma forma nova de me relacionar com pessoas, algo completamente novo para mim. Vejam bem, eu tinha passado cinco anos em que o único modelo de relacionamento que eu tinha era cheio de rancor e cobrança e controle. Poder estar com várias pessoas em vários momentos e não me sentir culpada era um sentimento bem louco. Mas, mais louco ainda era saber que essas pessoas também estavam com outras pessoas em outros momentos e me dar conta que isso não me incomodava.

Como muitas mulheres, durante meu relacionamento eu fui de mulher relativamente insegura mas até que ok para ciumenta descontrolada com o passar dos anos. Depois de um tempo, já estava totalmente confortável com meu rótulo de maluca controladora. Pessoalmente, minha reação à ser chamada de doida tantas vezes seguidas foi simplesmente abraçar a loucura e tocar o foda-se. Todas as minhas tentativas de parecer legal e bem resolvida acabavam, invariavelmente comigo gritando surtada no meio da rua alguns meses depois e meu namorado me chamando de louca. Em algum momento pensei: pra que me dar ao trabalho de ser racional?

Então lá estava eu no maior dos dilemas, tentando entender como é que eu estava tão bem com a liberdade das pessoas com quem eu estava me relacionando, se eu, na verdade, era a ciumenta mais maluca do pedaço. Eu devia estar reprimindo alguma coisa ou talvez não gostasse dessas pessoas o suficiente. Quando eu estivesse num relacionamento “real” as coisas iam voltar ao normal e a Isabela transtornada no ciúme ia reaparecer, o equilíbrio seria restaurado e eu ia poder seguir a vida em paz. Bom, isso não aconteceu.

Em algum momento encontrei minha atual namorada. Não monogâmica convicta, dessas que militam para isso. Na época ela tinha mais três relacionamentos. Tendo em vista minhas experiências anteriores, pensei, umas bitoquinhas não vão me matar. Mas essas bitoquinhas viraram dois anos e alguns meses e eu ainda estou aqui esperando a loucura ressurgir.

Não é que não houveram e não hajam momentos de insegurança, ou que jamais tenha ficado com ciúmes, mas, em dois anos, eu ainda não me encontrei chorando e berrando no meio da rua a beira de um colapso nervoso. Eu meio que entendi que o problema não era a não monogamia, mas a forma que eu lidava com meus relacionamentos. Obviamente meu ex namorado foi um tanto abusivo e colaborou bastante para eu chegar no ponto que eu cheguei, mas eu também evitei ao máximo lidar com meus sentimentos e acabou sendo cômodo envolver tudo nessa fachada de “doida”.

São dois anos em uma relação não monogâmica que eu decidi respeitar minha companheira e as decisões dela. Que me esforcei para ponderar sobre meus sentimentos antes de explodir, mas também defender meu direito à senti-los sem que isso coloque em cheque minha sanidade mental.

Minha companheira teve um papel fundamental nesse processo, de me dar segurança o suficiente para não fugir do diálogo e de suportar meus arroubos de insegurança e indecisão. E eu tive um crescimento absurdo na forma como lido com minhas emoções e sentimentos, descobri uma Isabela muito menos dependente e insana do que imaginava ser. Guardo menos rancor, brigo menos e me desespero bem menos que antes. De certa forma a não monogamia se provou bem menos desafiadora do que eu imaginava. E eu sou extremamente feliz por ter me dado essa oportunidade.

Não vou dizer que nosso modelo de relacionamento é o único certo, até porque nós mesmas mantemos relacionamentos em diferentes formatos com outras pessoas. Eu não acredito em um modelo de relacionamento ideal, acho que construímos o que é mais confortável pra nós naquele momento. Eu realmente acho que demanda maturidade parar e definir quais são nossos limites e nossas possibilidades e arcar com isso, sem nos anularmos para manter um relacionamento nem anular as outras pessoas. E, é sempre bom reforçar, existem estruturas de poder que permeiam as relações e determinam até onde podemos ir, não dá para ser ingênua e ignorar que questões como racismo, sexismo, lesbofobia, bifobia, gordofobia, transfobia, não restringem a autonomia que temos dentro e fora de relacionamentos.

Meu ponto é que nós, especialmente nós mulheres, precisamos parar de colocar na conta da não monogamia todas as nossas frustrações e traumas e começar a pensar em nós mesmas, nas nossas expectativas e nossos limites, para que possamos construir relações que valham a pena e façam sentido para nós, que nos façam bem. Não adianta criar, como eu criei, um conjunto de regras de conduta para nos defender de violências que podem acontecer em qualquer modelo, seja ele monogâmico ou não.

Eu não sou a maior conhecedora da não monogamia que você respeita. Na verdade sei e li muito pouco. O que eu sei é o que tenho vivido nesses últimos anos e que tem me feito muito feliz. Eu sou uma pessoa muito melhor agora.

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Isabela Sena

Written by

Feminista e bissexual. Historiadora e educadora. Pesquisadora autônoma.

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