Por que o nosso trabalho é tão importante para todo mundo?

Me chamo Isabela, tenho 25 anos e vivo em Madrid. Essa seria toda a informação necessária que eu gostaria que você soubesse sobre mim a princípio. Mas para você entender o que eu vou escrever, precisamos voltar um pouquinho no tempo e deixar algumas coisas mais transparentes. Vamos de novo: Eu me chamo Isabela, tenho 25 anos e vivo em Madrid, mas antes de viver aqui eu morava em São Paulo, trabalhava com moda e tinha uma vida bastante razoável. Comecei a trabalhar formalmente com 20 anos, já trabalhei em três empresas diferentes, nunca parei. Considerando a idade que se começa a trabalhar no Brasil, eu acho que estou na média. Agora vamos pular para 2015. Esse foi o ano mais intenso da minha vida. O ano em que mais aconteceram coisas grandes. Resumindo: eu comecei 2015 em Paris, passei a virada do ano lá e tive duas semanas ótimas. Voltei pro Brasil e alguns meses depois eu comecei a empacotar metade das minhas coisas para sair da casa dos meus pais (não que eu não gostasse de lá, mas viver em uma cidade e trabalhar em outra estava me enlouquecendo), com isso me vi tendo que lidar com todo o assunto de gente grande que até então eu só via acontecer, e que agora eu fazia parte. Alguns meses depois meu marido foi chamado para trabalhar fora. Mais alguns meses pra frente e eu estava me demitindo do trabalho e empacotando de novo minhas coisas, só que dessa vez eram todas as minhas coisas. Alguns dias depois eu me despedi de todas as pessoas importantes da minha vida, da minha casa, do meu país e de tudo que eu tinha conquistado até ali e me vi partindo para outro continente. Posso dizer ou não que foi um ano em tanto?

Entre todos esses acontecimentos eu ouvi de tudo das pessoas: "Eu não teria coragem de fazer isso", "Eu quero mudar de país também, não aguento mais o Brasil", "Você sabe que não vai ser fácil né?", "Boa sorte, um dia a gente se encontra!", “Mas você vai fazer o que lá?”. Eu não sei, mas eu vim. E só caiu a minha ficha quando eu fui pegar o avião e desabei a chorar. Mas aqui estou eu. Porque era o meu sonho, e dificilmente um sonho vira realidade sem você ter que se desprender de algumas coisas na vida. Coisas materiais e alguns ideais.

E justamente desse desprender que eu acho importante a gente falar, principalmente do que eu mais ouvi e ouço até agora: o que eu vou fazer aqui. Tendo em vista que eu não falo espanhol e antes de chegar não conhecia ninguém, posso dizer que sei a resposta tanto quanto a pessoa que fez a pergunta. Eu vim aqui completamente nua da vida. Eu estou aqui do zero. Eu me desprendi de toda a estabilidade que eu tinha no Brasil para chegar em outro país completamente crua. E esse tem sido meu maior desafio. Nesse tempo eu comecei a me questionar sobre como é a vida no Brasil e a vida aqui. Veja bem, no Brasil a gente normalmente sai da faculdade com algum estágio ou emprego fixo e não para mais de trabalhar. A gente trabalha, trabalha, trabalha para conseguir comprar os bens que consideramos importantes para se ter uma vida confortável. E isso domina a nossa vida. Se você parar para pensar, desde bebês a gente é sugado pela correria, "Ele já falou a primeira palavra?", "Ele já largou a fralda?", "Ele já sabe andar?", e se você não fez isso eles respondem "ainda não". Por que " "ainda"? Tem uma fase tão específica assim para saber fazer tudo e dizer que ainda não sabe? E quando você é uma criança ou adolescente, curtindo a melhor fase da vida, sempre ouve "Já sabe o que vai ser quando crescer?". Mas tudo bem, eu só queria exemplificar que no Brasil a gente é treinado desde pequeno para fazer tudo sem pausa, cresce, estuda, trabalha. E trabalhar meu amigos, é a maior polêmica. Se você ficar um tempo parado eles vão te achar fracassado ou preguiçoso. Porque é assim para o brasileiro, o trabalho é a vida dele. Se ele não trabalha ele é um cidadão que não deu certo. E se ele trabalha de casa? Também acham que não trabalha, que é um preguiçoso que resolveu inventar alguma coisa para ficar em casa. E sabe como eu cheguei a conclusão de como o trabalho manda em tudo? Depois que eu me mudei pra cá. A primeira pergunta de praticamente todos os meus amigos foi: "E ai? Já está trabalhando?".

Nessa eu entrei num cabo de guerra comigo mesma, porque eu também sou brasileira, e também tenho isso enfincado na minha cabeça. Comecei a me questionar se eu estava muito louca e vagal na vida por não estar trabalhando ou se era aceitável a minha situação. Quando eu vim para cá, a única coisa certa que eu tinha em mente era que eu precisaria fazer um curso de espanhol para poder me comunicar e aí eu iria procurar um trabalho. Um passo de cada vez.

Conversei com uma amiga daqui, também brasileira, e ela me contou que passava por uma situação parecida. As pessoas a todo momento estão perguntando o sobre seu trabalho, sobre o que você vai fazer, sobre você não poder ficar parada. E já reparou que uma das primeiras perguntas que rola quando conhecemos alguém novo é com o que ele trabalha? É uma pressão tão grande em cima de cada um que você realmente começa a acreditar que é um fracassado quando está parado. Mesmo que você não precise disso agora, nem esteja passando fome. É mais um status do que uma necessidade. Então eu comecei a trabalhar minha cabeça para mudar esse pensamento. Não digo que a gente não deva trabalhar e que a vida é uma festa. Jamais! Eu mesma não consigo ficar em casa muito tempo. Mas dos amigos que eu fiz aqui, de outros países, nenhum na minha idade tem a mesma experiência que eu no trabalho, alguns tampouco começaram a faculdade. Simplesmente porque eles sabem que precisam estudar e trabalhar, mas não tem a mesma pressão em cima deles. E você pode me falar "ah, mas a situação no Brasil é diferente, você precisa de um trabalho aqui". Acredite, não é tão diferente assim. Aqui a gente tem quase as mesma dificuldades para encontrar um trabalho, assim como nos Estados Unidos ou na China. Só que eles não estão bitolados com isso desde jovens. Eles não são pressionados a escolher uma carreira quando tem 17 ou 18 anos e nem sequer sabem como é a vida fora da escola. E isso eu aprendi com eles. Talvez por isso no Brasil existam tantas pessoas infelizes no trabalho, pois se vêem tão pressionadas que pegam o primeiro atalho. Então eu acho que precisamos aprender a dar um passo de cada vez, se não, tropeçamos em nós mesmo, não é?

Eu mudei meu pensamento? Ainda não. Mas eu melhorei. Não me acho inferior a ninguém só porque eu não estou trabalhando aqui ainda, assim como não me acho superior a nenhum dos meus amigos daqui que ainda nem começaram a faculdade. A gente acaba aprendendo que não é uma posição social que vai estipular o caráter de alguém, ou que vai dizer se somos fracassados ou não. Até porque, quem pode dizer o que é o fracasso? Ninguém sabe a luta diária de ninguém. Portanto, da próxima vez que conhecer alguém novo, ao invés de perguntar no que ele trabalha, que tal perguntar o que ele mais gosta na vida, ou que lugares ele visitou, ou quais coisas incríveis ele já fez?

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