A percepção do Relações Públicas sobre seu papel na era da comunicação digital

O mundo virtual é disruptivo. A rapidez combinada com a interface intuitiva, dinamismo e personalização tornam a internet o grande impulsionador do século: ela está mudando o modo como negócios operam (Uber, Netflix e Airbnb são bons exemplos) e está possibilitando novas formas de se comunicar, com meios e ferramentas surgindo em um espaço de tempo cada vez menor.

Em meio a todo este cenário, surgem novas profissões, atividades e oportunidades de carreira para os profissionais da área de comunicação. A comunicação digital — com seus mais diversos canais e ferramentas diferentes — está abocanhando boa parte das atividades deste mercado.

E qual é a percepção do profissional de Relações Públicas a respeito de seu papel na era da Comunicação Digital?

Afinal, somos coadjuvantes, protagonistas ou apenas o backstage da comunicação e marketing digital? Esta foi a reflexão que instalou-se em minha cabeça em maio deste ano e resultou em uma pesquisa independente a nível nacional, com 58 respondentes graduados ou estudantes de Relações Públicas. Foram alguns meses e horas no dia-a-dia estudando, compilando e diagramando os dados que estão neste artigo. A pesquisa completa compilada está disponível para visualização e download no final deste artigo, mas é interessante compreender o desenvolvimento e cruzamento das informações que nos trazem alguns insights.

“Com a formação em RP o profissional está preparado para construir relacionamentos de interesse das organizações com os stakeholders. Tendo isso como base, é preciso entender o contexto do ambiente digital para desenvolver programas que façam sentido neste ambiente.”

1. Graduação e Estudos

Se há um campo em que existe praticamente um consenso geral, definitivamente é a respeito do tema de Graduação e Estudos. 89,7% dos entrevistados vêem a necessidade da inclusão de matérias referentes a comunicação digital na grade do curso de Relações Públicas, ofertando disciplinas e temas mais estratégicos voltados ao relacionamento com públicos por meio de canais digitais.

A maior parte dos entrevistados (77%) revela que teve um nível elevado de média a alta dificuldade ao começar a utilizar estas ferramentas e canais digitais, mesmo sendo um grupo bem heterogêneo em relação aos anos de profissão, demonstrando que esta dificuldade “inicial” permanece ao longo dos anos. Isso ficou muito evidente, também, no campo de resposta dissertativa.

“A graduação em Relações Públicas ainda não está orientada à esse momento, ela se prende aos canais tradicionais de comunicação e relacionamento.”

Um dos principais pontos ressaltados, por exemplo, foi a questão da gestão de crises aplicadas à realidade das redes sociais, que agora se intensificam por meio da rapidez de compartilhamentos e acesso a informação de uma forma mais intuitiva e rápida. Há também a preocupação com a atualização das estratégias de relacionamento com imprensa sob um contexto digital.

“Ainda vejo poucos cursos com disciplinas voltadas ao digital, o que desfavorece a atuação do profissional especialmente para entender cenários de gerenciamento de crises no digital.”

Além da necessidade de atualização do curso de graduação, o mesmo se aplica aos cursos de especialização, eleito por 87,9% do público como a melhor forma de aprender e se atualizar sobre atividades de comunicação digital. 69% teve dificuldade em encontrar bons cursos ou informações sobre o tema, o que representa uma demanda não atendida por parte de instituições e escolas voltadas às necessidades dos RPs nesta era digital.


2. Habilidades

A comunicação tradicional oferece diversos campos de atuação e este é, inclusive, um dos fatores de escolha de milhares de jovens pela graduação. Comunicação interna, eventos, relação com investidores…No meio digital, não poderia ser diferente: há diversas atividades já estabelecidas que estão no mercado (Analista de Redes Sociais, por exemplo) e em um espaço de tempo curto, outras profissões também irão surgir.

Os principais campos de conhecimento do Relações Públicas são voltados ao desenvolvimento e publicação de conteúdo: Gerenciamento de Redes Sociais, Produção de Conteúdo e Gerenciamento de Blog Corporativo, seguido por E-mail Marketing. Do outro lado do funil, os campos com menor conhecimento são relacionados à compra de mídia digital, automatização da comunicação (CRM), conteúdos patrocinados nas Redes Sociais e configuração de anúncios em veículos de busca (Google Display e Paid Search).

Interessante observar que as atividades com menos domínio são aquelas que utilizam mais ativamente o controle de budget e cálculo de Retorno Sobre Investimento (famoso ROI), refletindo na percepção de que estes conhecimentos são defasados do RP e que isso, consequentemente, pode prejudicá-lo na era da comunicação digital (56% concordam total ou parcialmente com essa afirmação).


3. Mercado de Trabalho

Com o crescimento da demanda na comunicação digital, é interessante observar como o profissional permanece atuando de forma mais generalista, atendendo mais de uma demanda simultaneamente. Dos 14 profissionais que trabalham com Comunicação Interna, por exemplo, 12 trabalham com três ou mais atividades principais, neste caso, com destaque para Assessoria de Imprensa, Eventos e Social Media.

No geral, os principais campos de atuação tem sinergia com as habilidades citadas anteriormente: 46,6% trabalha gerenciando Redes Sociais e Website, com forte atuação também na área de Eventos (27,6%), Assessoria de Imprensa (20,7%), Comunicação Interna (27,6%) e Marketing (32,8%).

Será interessante aplicar esta pesquisa nos próximos anos e entender a evolução de cada atividade, com aumento ou diminuição na atuação dos RPs em cada um.

Percepções sobre o Mercado de Trabalho

“Um dos desafios é diferenciar o que é realmente importante para a organização de acordo com o público que queremos atingir.”

Se a dificuldade em mensuração de resultados é uma dor histórica dos Relações Públicas em relação ao mercado de trabalho, hoje, com as ferramentas digitais, temos acesso a um maior nível de detalhamento de informações, métricas e resultados claros para transparecer às organizações o valor da comunicação. Esta é a maior oportunidade — e dificuldade — que podemos encontrar nesta era digital, segundo a maioria dos entrevistados:

“Mensurar resultados atrelados aos resultados das organizações para que possam fazer sentido aos gestores e justificar essas ações.”
“Quantificar a comunicação. Deixar os achismos do papel e trabalhar com métricas claras e funcionalidade. Isso é muito mais difícil do que a linguagem ou a forma.”

Um dos principais fatores que seguram a maior atuação de marcas e empresas em canais digitais é a questão da resistência da alta liderança das empresas e instituições de utilizar canais digitais: 68% concorda total ou parcialmente que essa objeção existe. Em relação as empresas, o número é ainda maior: 74% concorda que a maior parte delas não entende a importância de sua presença no mundo digital.

Há ainda a superficialidade em relação ao profissionalismo da atividade: como o gerenciamento de redes sociais é tangível à todos, muitos ainda não encaram com seriedade o uso destas redes para gerar negócio e se comunicar de forma eficiente com seus públicos.

“O principal desafio na era da comunicação digital é profissionalizar a comunicação digital como uma disciplina estratégica para os negócios, o que demanda a contratação de profissionais competentes e experientes — e não apenas o ‘sobrinho’ que manja de Facebook.”

4. RPS digitais

De acordo com as habilidades apresentadas, as principais atividades dos RPS digitais estão dentro do contexto de conteúdo — estabelecendo diálogo e tom de voz para as mais diversas organizações em inúmeros canais digitais. O interessante é observar que a atuação neste meio exige o conhecimento de ferramentas auxiliares, como para gerenciamento de redes sociais (utilizada por 18% dos RPS digitais) ou o próprio Wordpress, plataforma de conteúdo para blogs e website (utilizado por 23%).

Em primeiro lugar, vem o Google Analytics: usado por 31% dos entrevistados.

Mais de 94% gosta de trabalhar com comunicação digital e acredita que o fato de já utilizar estes canais digitais pode ajudar a impulsionar sua carreira, percepção inversamente proporcional em relação aos que ainda não atuam com canais digitais.

Sob todo o contexto apresentado, não é segredo que um dos maiores desafios da era digital é se atualizar e acertar o timing da comunicação, uma vez que ela está cada vez mais ágil. Há um ano e meio, o Snapchat crescia em um ritmo impressionante, viralizando entre artistas, marcas e consumidores. Neste ano, o Instagram “roubou” esta fatia do mercado: desde que lançou o Stories, função praticamente idêntica ao Snapchat, o engajamento na rede do formato “original” caiu 40%. Os produtores de conteúdo e influenciadores (consequentemente, a audiência) migraram para o Instagram — o que gerou uma corrida das marcas para marcarem presença na rede que agora concentra a maior parte do público.

Tudo isso reflete, também, na dificuldade da construção de cursos efetivos de longa duração que ensinem e atualizem os profissionais ao passo em que tudo muda muito rápido — constatação que apareceu no campo de respostas dissertativas:

“A velocidade de evolução da tecnologia, acaba impedindo o surgimento de cursos mais aprofundados na área.”
“Comecei a trabalhar na área de Digital ainda na faculdade, e percebo como a nossa área, em questões acadêmica, está atrasada sobre o assunto. Muito se fala, porém pouco se aprende. Passei por algumas agências e atendi várias clientes, e tudo que faço foi aprendendo na prática, infelizmente, nesse sentido, o curso não me trouxe aprendizado suficiente. Outro ponto curioso, em todas essas agências que passei, vejo a área de Digital como ‘terra de ninguém’. Jornalistas, RTV, PP, RP, e até ADM. Creio que nós, como Relações Públicas, estamos deixando de pegar uma grande oportunidade de trabalho, e creio que logo menos, algum curso vai assumir esse departamento, vide o que aconteceu com a Assessoria de Imprensa.”
“Já foi-se o tempo em que o digital era uma disciplina apertada das relações públicas. Hoje digital não é mais um o quê, é um como, e as coisas se misturam com muita naturalidade. “

5. RPS não digitais

Dos RPS que ainda não trabalham com canais digitais, 100% vê a necessidade de usá-los agora ou futuramente. 50% classifica, ainda, esta iniciação nos canais digitais como sendo muito urgente.

Os principais motivos para a não utilização destes canais é a falta de oportunidade (50%) e a falta de aplicabilidade digital na tarefa que desempenha atualmente. A principal função destes profissionais que ainda não utilizam canais digitais em seu dia-a-dia são: eventos, apoios e parcerias, comunicação interna e marketing. De forma unânime, todos afirmaram que a melhor forma de aprender e se atualizar a respeito da comunicação digital é por meio de artigos online sobre o tema.


CONCLUSÃO

O mundo é cada vez mais digital e ainda temos um longo caminho a percorrer: até 2020, o tráfego de internet na América Latina deverá crescer cerca de 62%.Vale ressaltar também, que o Brasil é um dos países mais interconectados do mundo, mesmo com sua limitação em velocidade e acesso à internet. Em relação ao tempo gasto na internet, o Brasil é o segundo colocado mundial.

Já em relação ao tempo em Redes Sociais, o Brasil também surpreende com a segunda posição. Nos últimos três anos, garantimos o ranking mundial: sendo um dos países que mais interagem e passam tempo nas redes sociais.

O fortalecimento do crescimento da internet com todos seus canais, formatos e ferramentas trouxe — e continuará trazendo — para o profissional de Relações Públicas ainda mais recursos para se aproximar dos públicos de interesse e tornar a comunicação mais eficaz.

As demandas surgiram. E nós, RPs, temos a capacidade de atendê-las:

  • Desenhando estratégias eficazes de relacionamento com os públicos nas redes sociais;
  • Ofertando e promovendo conteúdo de qualidade em blogs e sites;
  • Estabelecendo e cuidando da reputação de marcas e empresas em todo este contexto digital;
  • Prevenindo e tratando crises no ambiente digital;
  • Impulsionando resultados e esforços de assessoria de imprensa por meios digitais;
  • Mensurando e provando o resultado que a comunicação traz para as instituições.

É também inegável que as faculdades e instituições de ensino devem se adaptar e oferecer maior visão estratégica e operacional de como atuar nestes meios digitais.

Vamos continuar nos reunindo no Medium, LinkedIn, em grupos profissionais no Facebook e seguindo canais interessantíssimos de informação, liderado também por profissionais da área, como o Todo Mundo Precisa de um RP.

Obrigada a todos que participaram respondendo e contribuindo com suas percepções e experiência. Essa pesquisa não para por aqui e terá um desdobramento muito interessante. Sempre fui apaixonada por Relações Públicas e tenho a plena convicção de que estamos aptos a abocanhar boa parte destas atividades digitais.

Pesquisa completa aqui (também disponível para download):

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Uma semana repleta de produtividade para todos!