Algumas memórias

Um dia me ensinaram me ensinaram que era educado cumprimentar as pessoas com um beijo no rosto ou aperto de mão. Aparentemente era uma convenção social do mundo dos adultos. Aquele universo que ainda estava longe de me pertencer.

Minha primeira escola era mantida por freiras e possuía uma área externa enorme. Árvores, quadras, parques, tudo à disposição dos pequenos alunos. Para controlar os ímpetos daquelas crianças e adolescentes, as freirinhas contrataram um punhado de simpáticos senhores para ajudarem na árdua tarefa de impedir o completo caos.

Lembro dele perfeitamente. Baixinho, de cabelos crespos, olhos tristes e sorriso largo. Era o bedel favorito da molecadinha. Depois de um tempo, todos os dias dávamos bom dia e um até amanhã para o senhor. Durou pouco até minha mãe flagrar a movimentação.

E justamente o horror, ao ver sua pequena filha cumprimentar o proletariado. E negro. Dona Ana, médica, trabalhou em hospital público e se orgulha de interagir com uma diversidade étnica que só o Brasil poderia abrigar. O olhar de espanto me fez pensar que talvez não fosse tão comum assim. Talvez aquele senhor fosse um daqueles não tão confiáveis homens que tiravam as meninas de casa e nunca mais devolviam.

Anos de opressão cotidiana impediam minha mãe de falar sobre “assuntos delicados”. Trabalho delegado totalmente ao meu pai. Então aprendi que adultos não se misturavam. E que quando jovem, meu pai teve hepatite e seu médio não quis cumprimentá-lo. Deram apenas as mãos. E ele ficou sentido.

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