Mundo dos outros
"Quando entrevistamos ela anos depois, ainda assim, Sra. Lisbon manteve seu ponto de que tirar as meninas da escola nunca foi punitivo. 'Naquele ponto, elas estarem na escola só estava piorando as coisas', ela disse. 'Nenhuma das crianças estavam falando com elas. Exceto pelos meninos e nós sabemos o que eles estavam atrás. As meninas precisavam de um tempo para elas mesmas, uma mãe sabe.'"O trecho do livro As Virgens Suicidas, do escritor americano Jeffrey Eugenides marca o declínio final das irmãs que logo viriam a se matar. A juventude entediada do best seller ganhou vida sob a ótica da diretora Sofia Coppola, em 1999, e reaqueceu o debate sobre o que é ser adolescente, em geral. Em um jogo de figuras de linguagem, os narradores nos contam sobre a vida dessas cinco personagens, com idades entre 13 e 17 anos. Com o passar do tempo, a situação culmina na morte "inexplicável"dessas meninas de classe média, de família estruturada e boa aparência. Que angústia incontrolável seria essa que penetrou na casa e levou a vida delas embora?
A experiência do tempo quando se é criança dá a impressão de ser muito dinâmica. Um espaço de tempo curto é o bastante para se brincar de pega-pega e se interessar, em algum nível, pelo colega ao lado. Na entidade das irmãs, o autor brinca com várias etapas da adolescência e do que é crescer no modelo tradicional de família. Assim como Holden Caulfield e seu Campo de Centeio, a transição entre o universo infantil e o mundo adulto não é um cenário agradável. Como se a cultura americana estivesse viciada nessa questão, há cada vez mais pequenos jovens adultos que postergam a responsabilidade de tomar conta de si e de se divorciarem dos pais. Experienciando o tempo como de fato um agregador de bagagem, esse crescer também desenvolve a maneira como se entende o mundo.
Segundo Freud, alguns dos grandes traumas da vida dos seus pacientes estavam recobertos sobre a manta da infância feliz no inconsciente, essa capa de proteção é o lugar onde se cultiva rancores ocultos e esconde mágoas passadas. "Minha vida emocional sempre insistiu em que eu tivesse um amigo íntimo e um inimigo odiado. Sempre fui capaz de providenciar os dois, e não foi infrequente que a situação ideal da infância se reproduzisse tão completamente que o amigo e o inimigo convergissem num só indivíduo", escreveu o famoso psicanalista na obra A interpretação dos sonhos. Talvez a forma mais clara de vivenciarmos a ocorrência do passar do tempo, em nossa sociedade histérica, seja de desfrutar essas mudanças no corpo subjetivo — esse ser que flui e dança pelas épocas.
Logo meu primeiro contato com a pessoa que se tornou minha analista foi estranho, assim como a lagarta da Alice, essa mulher com um colar de contas grossas e pés para cima me propôs o desafio de olhar para dentro para buscar alternativos e significados para o que acontece fora. Criar consciência sobre si próprio é um processo, e que diferentemente de crescer, pode ser demorado.