(Sem título — 2014)
é domingo de manhã. As janelas abertas aproximam o sol do nosso rosto: o dia quente pulsa no asfalto e os carros não dão trégua lá fora. Dentro do quarto se escuta apenas respirações lentas e sonolentas. De repente, o barulho do ventilador no chão me parece ensurdecedor. São 11 horas da manhã e a única movimentação no ambiente é da minha vontade de sair correndo. Viro para o lado, puxo o lençol e fico, apenas. A parede amarela contrasta com a roupa de cama laranja e toda esta luz me assusta. Suas gaivotas desenhas nas costas me parecem em relevo, mas a tinta preta petrificou os pássaros, eles não voam mais.
Abro os olhos: são 16 horas. E nada. O que se passa agora é a minha vontade de dar um berro, mas ela se vai da mesma maneira que veio. Pessoas me esperam a essa hora, mas a bateria do celular acabou. Não vimos que horas eram quando adormecemos bêbados de sono, mas minha sede indica que faz tempo demais. Contrariando os impulsos do meu corpo em permanecer imóvel, cambaleio e em dez passos estou em sua cozinha. Os azulejos antigos estão empoeirados, não há louça e a mesa não está posta. Talvez a diferença entre se viver sozinho e ter um lugar para voltar é que as pessoas da casa automaticamente sabem seu lugar na hora da refeição. Penso em pais, em lares e em segurança, talvez na falta dela também. Como será o sentimento de não ter para onde retornar?
No quintal, o dia continua claro, mas o céu não me engana, daqui a pouco vem chuva. Ao voltar ao quarto, conversamos. O relógio da cabeceira marca agora 19 horas e a contragosto peço um táxi. Ainda tempos tempo para nos despedir, desejo que fique bem, que se cuide e que não me esqueça.
A chuva fina me acompanha ao longo do caminho e sinto o mormaço pela janela do carro. O quartos em casa estão vazios e a luz desligada. Consigo escutar meus passos no corredor e há comida me esperando na mesa. Ninguém mandou nada no celular, as coisas permanecem as mesas. A perspectiva de retomar meu dia me parece cansativa, então, me sento e espero alguém chegar.