A fragilidade humana

Fotografei esse menino com a mãe em meados de 2011.

Ando ainda pensando sobre a humanidade e como ela é frágil.

É tão frágil que é muito fácil tirá-la de alguém tendo com base nossos próprios preconceitos. Quantas vezes deixamos pessoas na invisibilidade pelas ruas pelo simples fato de serem pobres, famintos, miseráveis. É muito fácil sentar em meu conforto e escrever sobre os desumanos.

Uma vez eu e meu namorado aguardávamos o ônibus, ao passo que do outro lado da rua vinha caminhando um senhor, vagarosamente. A rua não estava cheia. Ele saía da padaria e carregava consigo um frango assado. Não recordo se chovia, mas a lembrança é de que fazia frio. Sentou-se do nosso lado e pôs-se a comer o tal frango — com as mãos mesmo. Ele comia como se fosse sua última refeição. Comia como se fosse a melhor coisa do mundo. Esse senhor era morador de rua e, quando ele se sentou no ponto de ônibus, algumas pessoas se afastaram.

Eu quis chorar. Quantas vezes comi um frango e não dei a mínima… Quantas vezes ele teve que ignorar aquela vontade. O frango devia estar tão bom que, ainda bem! Ele não percebeu quem levantou e saiu. Ou talvez já estivesse habituado.

Da outra vez foi um rapaz. Jovem, devia ter uns vinte e cinco. Parei na banca de jornais para dar uma olhada nas revistas e comprar balas. Um rapaz bem maltrapilho começou a catar, desesperadamente, guimbas de cigarro do chão. Olhei aquilo por um relance, e, durante alguns segundos pensei, entre meus moralismos pessoais, se eu devia dar para o sujeito um maço de cigarros e um isqueiro. “Ele vai acabar com a saúde dele e eu seria contribuinte ativa”. Enquanto devaneei sobre isso, ele foi embora.

Outra vez em frente a essa mesma banca de jornais, eu voltava da aula, já era noite e fazia frio, um senhor andava a esmo. Vi que ele parecia estar perdido, olhava para as pessoas e elas o ignoravam. Parei e perguntei se ele precisava de ajuda. Foi a forma menos invasiva que encontrei de não ofendê-lo, talvez? Ele disse que estava com fome. Queria um marmitex de R$15,00, de um bar mais à frente. Eu só tinha R$10,00, que entreguei, querendo ter os R$15,00.

Teve também uma senhora. Eu voltava a pé pra casa, porque, embora pareça estar contando vantagem, não sou abastada e faço essas economias. Eu tinha pouco dinheiro para passar o resto do mês e estava economizando ao máximo. Ela, sentada no chão, tentou falar algo comigo. Balbuciou e eu, como boa burguesa, a ignorei.

Eu ignorei um ser humano.

Alguns passos à frente, percebi que não ignoraria nem um cachorro pedindo um afago e concluí que em algum momento da vida aprendi a ignorar pessoas.

Voltei lá, tinha R$7,00 na carteira. Entreguei tudo a ela. Era fome. Minha fome com certeza não era maior que a dela, jamais seria e jamais será — assim espero.

Quando foi que aprendi a ignorar pessoas? Que mania horrorosa de tornar os outros invisíveis. “Eles se drogam”, “Eles não merecem”, “Não se esforçam”.

Inúmeras justificativas podres para justificar o injustificável.

Em ordem cronológica, a senhora foi a primeira. Foi quem me fez acordar para essa bolha em que eu estava vivendo. É um ser humano em necessidade. Não importa quais as escolhas da vida dela. Não importa o que ela fez ou deixou de fazer. Que diferença isso faz para mim? É só mais uma maneira de me isentar de ajudar alguém que precisa.

Eu não sou melhor que ninguém. Nem você.

Assim como em algum momento aprendemos a tornar as pessoas invisíveis, aprendemos que elas são invisíveis porque “somos melhores”. Não é? Eu estudei mais. Eu li mais. Eu curto mais Rock e menos funk. Eu estudei inglês. Eu me encaixei mais ao sistema do que você.

Somos produtos da sorte e por algum motivo e tratamos essa sorte como mérito. Mérito? E é isso que me dá o direito de desumanizar os outros? O mérito devia me tornar mais sábia e não mais ignorante.

Como mensurar quem é melhor? Não tivemos todos a mesma vida, as mesmas circunstâncias, as mesmas oportunidades. Como vou comparar minha vida a de alguém e ainda mais me achar melhor que essa pessoa?

Depois dessa senhora, ajudei outras pessoas. Fiz o mínimo. Não tinha nem que contar isso. É o mínimo mesmo.

Devia ter comprado o cigarro. Quem sou eu pra julgar?