Sempre esperamos algo em troca

Anda circulando pelo Facebook uma fotografia de duas crianças. Uma no conforto de sua cadeirinha dentro do carro e do lado de fora um menino, negro, segura uma bolinha com a qual, suponho, deve fazer malabarismo e arrumar uns trocados.

Esta imagem nada conseguiu de mim a não ser arrancar um belo punhado de tristeza. Não compartilhei e um nó posicionou-se estrategicamente em minha garganta — o usual.

Essa imagem, que para muitos trazia a pureza de duas crianças, chegou a meus olhos com uma reflexão um pouco mais sombria. Quem era o fotógrafo? […]

No mesmo segundo uma palavrinha percorreu minha cabeça. Percorreu depois parou, e, de supetão, começou a pular, cintilar e ofuscar como se eu olhasse diretamente para o sol.

“Humanidade”.

Talvez essa seja a palavra com a interpretação mais errada na história dela mesma.

Não consigo pensar quando o ser humano foi humano de acordo com o dicionário. Em todas as línguas que conheço, as palavras “humano” e “humanidade” são sinônimos de benevolência, piedade, altruísmo. Embora existam vários exemplares de nosso espécime que praticam tais valores, não resta dúvidas de que somos nós, os responsáveis por nossa própria miséria. Guerras, fome, crimes, desigualdade social...

É no mínimo cômico que eu não consiga encontrar um conceito tão imponente quanto a “humanidade”, mas que traga toda a verdade sobre nossa espécie. Sempre que é preciso referir ao um ser humano como cruel, buscamos termos na bestialidade. Animal. Fera. Quiçá o termo mais cômico de todos: “desumano”.

Suda, a elefanta pintora

Desumano.

Que palavrinha irônica.

Se pensar bem, ela diz muito sobre nós. Acreditamos estar acima de outras espécies por sermos racionais e portanto, tudo que não é humano, deveria ser cruel. Mas a crueldade é um conceito que nós criamos. Os animais não agem com crueldade. Eles agem por sobrevivência, fome, defesa. Vários motivos, inclusive o instinto — que, por mais que as pessoas gostem de usar essa palavra para defender suas ações duvidosas, já não faz mais parte da raça humana há muito. Desde quando nos tornamos racionais. Se você duvida, lembre-se que há um ou dois anos um menino se meteu com um tigre num zoológico — e perdeu o braço. Se tivéssemos instinto, isso nunca aconteceria. (Não é assunto para agora, mas Freud já falou sobre isso com sua teoria de pulsão, caso você tenha ficado curioso é uma leitura interessante).

No caso do zoológico, por exemplo, quem é o cruel da história? Não falo do menino, mas quem é que removeu um ser de seu habitat natural e o enclausurou em uma cela para servir de passatempo para outra espécie? Não sou bióloga, mas duvido muito que esse comportamento se repita entre os bichos. O engraçado é que, sempre que um animal se comporta de forma afetuosa, é atribuído a ele a característica de humano e você pode ver pela internet a fora inúmeros vídeos e imagens de cães, gatos, elefantes, peixes, macacos e os mais variados bichos agindo de forma “humana”.

Esse cachorrinho está aqui como alívio cômico

Os conceitos estão mesmo virados….

Somos capazes de criar reféns dentro de nossa própria espécie. Fazer todo esse circo de horrores de expôr uma outra pessoa por mero passatempo. O normal é tentar tirar proveito.

Odiamos pessoas por causa de sua religião, times de futebol, orientação sexual, gênero, cor. Criamos prisioneiros dentro de um universo virtual e destruímos sua vida em troca de uma risada. Nem quero entrar no mérito da escravidão ou de pessoas que ganham a vida como aberrações de circo — literalmente.

Não choca mais um crime violento, mas as pessoas ficam surpresas quando alguém pratica um ato de compaixão sem esperar nada em troca.

Estamos sempre esperando algo em troca.

E isso é horrível. Por que não fazer o bem simplesmente por fazer? A verdade é que ser racional pode ter tirado de nós, os seres humanos, a tal da humanidade. Deveríamos parar de usar a palavra “humanidade” para nos definir, se o padrão de “ser humano” é ser benevolente, essa palavra não mais nos pertence, e não faço ideia de quando é que ela deixou de pertencer.

Gato salvando um peixinho

Se você quer ver o vídeo todo do gato salvando o peixinho, clique aqui.

Afinal, talvez a fé da humanidade esteja em outro tipo de humanidade.

Talvez?