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Uma tentativa de fugir da normose

PS.: Normose = “comportamentos normais de uma sociedade que causam sofrimento e morte”.

Tudo começou antes mesmo de eu engravidar. Um longo ciclo de 3 anos até que eu finalmente conseguisse “segurar” uma barriga. Ansiedade, frustração, nervosismo eram meus companheiros diários. Foi nesse período que eu percebi como respostas prontas e julgamentos externos me irritavam…

“Calma, tudo tem sua hora”; “Relaxa, vai acontecer” — me diziam insistentemente após a fatídica pergunta ao casal: “E os filhos? já está na hora!”

Desisti de falar sobre o assunto. Pode até ser que cada coisa tenha seu momento, mas eu queria um filho e aquilo não acalmava em nada minhas angústias.

Planejei tudo, tudo. Nos mínimos detalhes. As fotos, o parto, o nome, a personalidade, a vida. E que surpresa mais óbvia: nada, exatamente NADA além do nome, foi da forma que eu imaginei.

Uma gravidez de risco, dores intensas todas as vezes que ele se mexia, e eu segurando o sorriso no rosto, pois como dizem por aí “gravidez é um momento mágico”. Eu não tinha o direito de dizer que estava sendo difícil. Eu quis, eu ganhei, agora vai reclamar???

O parto: uma cesariana de urgência na 37ª semana, dias de UTI e de mais frustrações. Meu filho nasceu com 1.460gr., subnutrido e hiperglicêmico. Culpa da mãe? Claro! É o que todos pensaram!

“- Você não estava fazendo pré-natal? Você pegou referências do seu médico? Você estava se alimentando direito?”

Não tive leite, uma depressão silenciosa que me acompanhou durante toda gestação, unida a um parto sem planejamento, a retirada do meu filho instantaneamente da minha visão para interná-lo na UTI, milhões de agulhas que forçavam meu filho a ter que ficar parado igual um espantalho no meu colo, fez secar qualquer possibilidade.

E óbvio que outros milhões de julgamentos e respostas prontas estavam por vir:

“Toda mãe tem leite — Você precisa relaxar que ele desce!” “Você não está sabendo como posicioná-lo”

Me submeti a uma “ordenha”, e após 30 minutos de “massagem”, que me arrancaram lágrimas de dor, nem metade de um copinho de café havia saído do meu seio esquerdo. Convencidos de que eu realmente não tinha leite, carreguei os hematomas daquele momento por quase 1 mês, primeiro num tom arroxeado, depois esverdeado, depois amarelado, até que sumiram do corpo mas ficaram marcados em minha alma.

O retorno para casa: estávamos construindo. Saímos do nosso apê apertado vislumbrando algo melhor e mais cheio de espaço e luz para nosso filho. Falar que tivemos problemas com a obra e com grana é redundância. Isso é algo que não falha nunca! E lógico, a casa não estava pronta pra nos receber. Passamos 2 meses na casa do meu irmão. O que teve um lado maravilhoso, eu precisava de ajuda, estava pesando 49 quilos apenas (tenho 1.69), tinha pontos inflamados e nenhuma habilidade com uma criança tão frágil. Mas foi então que percebi que tantas coisas haviam me afastado do meu marido.

Ele ficava muito pouco em casa. Trabalhava até mais tarde. Dizia que estava na obra, que ia correr, que sairia com os amigos para espairecer. Entendi que ele estava se sentindo pouco a vontade de estar na casa do meu irmão. Terminamos o que deu na casa, abandonamos a parte externa, e nos mudamos.

Filho no colo; casa (semi-pronta); família e um futuro. Agora era hora em que os planos voltavam pro seu lugar, certo?

Não ia ser tão fácil essa saga de eu descobrir minha necessidade de fugir do quadrado. De me descobrir. De aceitar que a vida não é linha reta. Que entre o 8 e o 80 existem milhões de variações e possibilidades.

Uma ida ao pediatra, mais um obstáculo. Cirurgia de emergência para uma hérnia abdominal. De fato uma cirurgia simples, mas que poderia se tornar perigosa a qualquer momento, caso a alça do intestino não voltasse ao seu lugar após o esforço ou o choro do meu bebe. 12hrs de jejum para um bebê de quase 3 meses, acostumado a se alimentar a cada 3 horas. Acho que foi a primeira vez que olhei no fundo dos olhos do meu filho. Ele chorava me encarando, como se perguntasse porque eu estava privando ele do alimento. Vi lá dentro seu sofrimento, meu sofrimento, nossa ligação.

Mais um mês em casa, praticamente só eu e o meu filho, e nas raras ocasiões de estarmos os três, não havia diálogo, nem troca de carinho entre eu e meu “dito” marido.

Eu já sabia que tinha algo por trás, decidi, como uma louca (sempre julguei mulheres que faziam isso) vasculhar tudo… olhei e-mail, celular, whatsapp, hangouts, mensenger, facebook, tudo, tudo… Nenhuma surpresa. Outra pessoa na área. Roubando dele o que era pra ser meu. Dando o brilho que eu já não conseguia mais dar.

Desmoronei. Me vi num buraco tão fundo que não enxergava a luz. Me olhei no espelho e vi o resto de mulher que tinha ali, unhas descascadas, cabelo sem brilho, fios brancos, corpo esquelético. Olhei para meu filho e pensei: não tenho nada pra te oferecer. Mal consigo cuidar de mim. Mal consegui cuidar de você até hoje. Não tenho nada planejado. Nenhuma carta extra na manga.

Oscilei entre choros de horas seguidas e vontade de retomar tudo de onde parei. Não disse uma palavra a ele que sabia de tudo que estava acontecendo.

Como boa virginiana, era difícil desapegar do meu antigo planejamento. Aceitar que a vida pode ser diferente sem ser menos. Pedi pra ele para tentarmos retomar nosso casamento. Que eu ia me cuidar, que tudo seria como antes.

Ledo engano. Somos seres em constantes mudança. O hoje já não é igual a ontem. Fui marcada por experiências tão fortes que jamais conseguiria voltar para o lugar de onde vim.

Só me restou uma decisão: encarar o medo. “Não está feliz, não precisa mais voltar. Mas não fique fingindo que nada está acontecendo. Não seja morno.”

E foi assim que à 01:15 da madrugada de uma terça ele saiu pra nunca mais voltar. Não houve gritos, não mensurei as “culpas”, não me perguntei como seria, fechei a porta, vomitei a bílis, o que me fez lembrar que passara o dia sem me alimentar, fui para cama e dormi a noite inteira junto com o meu bebê.

Enfim entendi a tal fórmula de olhar sempre o copo meio cheio. E iniciei um processo de reversão. Abandonei velhos hábitos, passei a experimentar novas coisas. Quando olhava pra trás, percebi que o tempo de UTI do meu filho, por exemplo, fizera ele herdar o bom hábito de dormir a noite inteira. A magreza levará embora uma velha “pochete” que eu carregava na cintura e um nariz de coxinha que nunca gostei. Eu havia conseguido, mesmo que de forma precária, espaço para conviver e brincar com meu filho. Eu aprendi a olhá-lo nos olhos.

Mudei, me modifiquei e depois disso já passei por muitas. Poderia até escrever um livro.

Como por exemplo quando meu filho com febre altíssima convulsionou e eu sozinha dirigi e segurei a boca dele para levá-lo ao hospital. Quando pegamos um rotavírus e vomitávamos concomitantemente. Quando arrumei o primeiro “paquera” depois de 8 anos de casada. Quando desisti de achar alguém que fosse aceitar uma mulher com um filho pequeno, tantos problemas e muita bagagem, e mais que de repente dei de cara com alguém que eu poderia definir como “príncipe encantado”. Ou mesmo, os episódios no dia a dia em que tenho que lidar e encarar aquela personalidade forte daquele serumaninho.

Os desafios hoje são outros. O que me fez repartir essa história é só uma tentativa de manter em mente que as mudanças não podem parar. Não devem parar. Não quero mais estar naquele buraco. Mas que tipo de movimento preciso fazer para que isso não aconteça?