Nosso encontro teve um final feliz. Nunca pensei em marcar algo para o Dia dos Finados, mas, nesse caso, não queria mais esperar. Durante quase um mês, trocamos mensagens no Whatsapp. Foram áudios, fotos…chegamos até ao ponto de compartilhar imagens de família! Na hora em que finalmente nos vimos, já parecíamos conhecidos de longa data.

Esse não foi um encontro qualquer. Foi um encontro com a família Ccarita Dorneles.

Há um ano desempregados, Miguel e Daiani se viram como podem. Moram na Lomba do Pinheiro, a 20km do centro da Capital. Não têm carro, nem créditos no cartão TRI. Ela revende saquinhos de lixo e faz faxinas. Se revezam para cuidar dos dois filhos, Miguel Ângelo, de 6 anos, e Helena Micaela, de 3 meses.

Miguel, Miguel Ângelo, Daiani, Helena e a gatinha Tita

Eu os conheci por causa de um ex-namorado, o Carlos. Ele estava caminhando pela cidade após uma manhã de trabalho, quando viu Daiani com a filha nos braços, à época com uma semana de vida, pedindo ajuda no semáforo. Ela queria um carrinho de bebê, pois ficava difícil trabalhar na rua com a recém-nascida no colo. O Carlos ajudou com alguns reais, mas ficou com aquele apelo martelando em sua cabeça. Ele me contou, e o apelo martelou na minha também.

O carrinho foi entregue no final de semana seguinte ao encontro na sinaleira, mas a missão não terminava por ali. Quando surgiu a oportunidade de realizar uma entrevista etnográfica para a disciplina de Antropologia, na Faculdade, veio a minha mente a lembrança da Daiani e do Miguel.

Estava na hora de eu encontrá-los pessoalmente e conhecer a sua história.

1. De Whats em Whats: a negociação

Carlos me passou o número deles. No dia 25 de outubro, enviei uma mensagem de 2’10” falando sobre a entrevista. Miguel respondeu, cheio de dúvidas e com voz apreensiva. Expliquei novamente e veio a confirmação: ”Ok tudo bem. Que horas seria?”. Agendamos para a próxima segunda-feira, 29, mas Daiani acabou desmarcando.

Dias depois, ela revelou o porquê:

Ela queria me receber com café. Não tinha gás, não tinha café.

Comprei um gás e remarcamos.

Em razão de alguns desencontros, nossa conversa ficou agendada para o dia 2 de novembro, Finados. Dois dias antes, recebi um desabafo:

Esse foi o último sinal para mim mesma de que aquela entrevista etnográfica iria além. Não era mais apenas uma questão de observar,ouvir e escrever. Era uma questão de fazer o que eu sempre quis fazer: mostrar que o Jornalismo tem o poder efetivo de ajudar alguém.


2. Um clichê verdadeiro: a onda de solidariedade

Eu tinha um dia para juntar o máximo possível de doações para a família Ccarita Dorneles. Na manhã do dia 1º de novembro, enviei uma mensagem aos meus colegas de turma. Terminei com: “Se puderem ajudar, vai ser muito bom. Obrigada ❤”. Recebi ótimas respostas. O pessoal iria colaborar. Recebi, também, uma mensagem debochada: “Levo uns trocos que eu tenho sobrando aqui. Se eu lembrar kkkkkk”. Não gostei.

Ao chegar ao trabalho, à tarde, resolvi publicar um story no Instagram para tentar ampliar essa rede de solidariedade.

Sequência de stories no Instagram convocando os amigos para ajudarem

O resultado foi incrível.

O Pablo Bohrer, um colega da época do colégio que eu não via há 10 anos, entrou em contato. Está morando em Porto Alegre e quis colaborar com uma cesta básica. Combinei de buscá-la na manhã seguinte em um posto de gasolina na Avenida Bento Gonçalves, onde trabalha. Também recebi mensagens de outras pessoas querendo ajudar. Cheguei a receber um depósito de R$ 50,00 de um jornalista, dinheiro que foi totalmente revertido em leite.

Quando chegou a noite, meu coração já estava cheio de alegria pela repercussão da história da Daiani e do Miguel. As pessoas realmente me ouviram e verdadeiramente se mobilizaram. Em tempos de relações descartáveis e da efemeridade do que se lê/vê na internet, achei uma baita conquista. Em aula, reforcei o pedido aos colegas. Não deu tempo de anotar os nomes de quem ajudou, pois moedas e notas caíram em minhas mãos a uma velocidade que eu não esperava. Engoli o choro. Juntamos R$ 70,60 em menos de 5 minutos.

Não sei se é possível alguém estar tão feliz em uma manhã de Finados, mas eu estava. Acordei, coloquei todo o dinheiro arrecadado na minha niqueleira dos Beatles e fui ao supermercado. Antes, uma pequena parada: farmácia. Parte do dinheiro serviu para comprar meio quilo de leite Nestogen 1, o necessário para alimentar a pequena Helena. No super, foram pacotes e mais pacotes de massa, de bolachas salgadas, bolachas doces, 12 litros de leite, achocolatado e mais uma cesta básica: R$ 125,33 revertidos em vida.

Sequência de fotos que revelam o itinerário da compra de alimentos com o dinheiro das doações

O próximo passo era transportar tudo para a Lomba do Pinheiro. Mais uma vez, eu contei com ajudantes mais que especiais.


3. Motoristas 5 Estrelas ★★★★★

Eu estava carregando mais quilos do que minhas costas aguentam. Passei pelo caixa do supermercado sem ajuda alguma. Senti fisgar na lombar a dor das minhas duas hérnias de disco. Depois de duas dolorosas viagens, respirei fundo e cheguei até frente do Zaffari para chamar um Uber.

Partida: Zaffari Fernando Machado, Cidade Baixa
Destino: Estrada Afonso Lourenço Mariante, 4884, Lomba do Pinheiro
Valor: R$ 28,30

A sorte começou a pintar a partir daquele momento.

Quem me recebeu foi o Mauro Ávila, motorista alto astral que prontamente pegou as caixas de leite da minha mão e pediu que eu entrasse no carro. Nosso trajeto durou pouco mais de meia hora. Fiquei até feliz pelo congestionamento em frente ao Cemitério Jardim da Paz por causa do Dia de Finados. Assim deu mais tempo de conversar com o Mauro.

Lembro de sentir até as cordas vocais cansadas de tanto falar. O Mauro é tão cativante que recebeu de um padre uma “medalhinha do Papa” em plena corrida. Ele disse que não era em vão que estava me transportando naquele dia. Quando contei a ele meu objetivo, prontamente me entregou um cartão com seu número. “Quero ajudar na próxima. É só me chamar que eu vou e já aciono meus amigos pra colaborarem também”.

Cartão que o Mauro me entregou no fim do percurso

No final da corrida, quando me deixou em frente ao 4884, tiramos uma foto. A Daiani já estava chegando para abrir o portão quando ele disse: “essa menina é de ouro”.

Eu e o motorista Mauro na Estrada Afonso Lourenço Mariante, na Lomba do Pinheiro

Se a sorte não brilha duas vezes para a mesma pessoa em um dia, eu fui exceção. Na volta, da Lomba do Pinheiro para a Sertório, onde trabalho, tive mais uma viagem incrível, dessa vez com o Fabiano.

Partida: Estrada Afonso Lourenço Mariante, 4884, Lomba do Pinheiro
Destino: Avenida Sertório, 1988, Navegantes
Valor: R$ 35,61

De repórter, virei entrevistada. Em pouco mais de 40 minutos, o Fabiano descobriu toda minha minha trajetória — desde a desistência da advocacia ao amor pelo jornalismo e pelas histórias que um repórter pode contar. Ele é morador de periferia e me fez refletir ainda mais sobre os momentos que eu havia experienciado até então. “O pobre ajuda o pobre, porque a gente sabe como é”.

Eu e o motorista Fabiano em frente ao meu trabalho, na Zona Norte de Porto Alegre

Ele me elogiou pela entrevista, mas alertou: “Na próxima vez, te cuida. Tem muita gente querendo se aproveitar de gente como tu. Na periferia, tem muita coisa boa, mas tem também muita maldade.” Quando fui descer do carro, ele disse “peraí, peraí, peraí, vamos tirar uma foto! Um dia ainda vou dizer que te transportei”.


4. A Família Ccarita Dorneles

Foi uma viagem de meia hora até chegar à Estrada Afonso Lourenço Mariante, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Pareceu, de fato, uma viagem. Conforme me afastava do centro da capital, me aproximava de uma zona por muitos esquecida ou ignorada. Onde eu moro, Centro, existem cerca de 39 mil pessoas. No Pinheiro, 54 mil.

Pesquisei, no Google, as notícias sobre o lugar onde moram Miguel, Daiani e a família. Eis os resultados:

Reportagens sobre a Estrada Afonso Lourenço Mariante são constantemente vinculadas a crimes

A vida por lá não é fácil. Quem precisa se deslocar ao centro da Capital necessita de organização e paciência. Os ônibus nem sempre passam com a frequência que prometem e nem sempre estão funcionando como deveriam.

Afonso Lourenço Mariante, 4884

Essa é a casa em que vivem Daiani, Miguel, Miguel Ângelo, Helena Micaela e Dona Erci, a avó. Quando cheguei, a primeira frase que ouvi foi “mas tu é uma boneca!”. Ela veio de Daiani, com um sorriso no rosto, já abrindo o portão do pátio e dizendo para eu me sentir em casa. Fizemos três viagens para descarregar as doações. Conheci toda a família e nos dirigimos à cozinha para dar início à entrevista.

Ela abriu a geladeira para me mostrar que não havia nada, mas, em cima da mesa, me esperavam um copo de água, pão e café.

Por quase duas horas, conversamos. Rimos, choramos, nos abraçamos. O ambiente na casa dos Ccarita Dorneles é muito tranquilo. Por vez ou outra, o Preto, um cachorro de rua gigante, late e interfere no bate-papo. Em meio a uma reflexão sobre estudos, pula no meu colo a Tita, a gatinha da casa.

Tita, a mais recente mãe de cinco gatinhos da família Ccarita Dorneles

Assuntos não faltaram durante nosso encontro. Desde os mais banais, como o incômoda das mulheres com a sujeira dos homens, até os mais profundos, que não podem sequer ser aqui mencionados a pedido de Daiani. Vamos em partes:

A parte boa do fundo do poço

“A gente bateu com tudo. Meu filho, que tava lá atrás, voou pra frente. A vó afundou a cabeça e ficou em coma por três meses”. Foi no dia 10 de dezembro de 2017. Para Miguel, esse foi o evento mais traumático de sua vida (o fez perder um emprego após duas semanas de experiência). Não gosta nem de lembrar. Quando escuta uma freada, lembra imediatamente do acidente e se arrepia.

Esse acidente foi um ponto de mudanças para toda a família. A Daiani nem sabia, mas, naquele momento, estava grávida de 3 meses.

Apesar do trauma, ela vê o lado positivo. “Foi uma coisa muito boa pra nós. Isso nos ajudou a ter mais amor um pelo outro, mais união. Respeito que parece de pessoas idosas. A gente não tem mais medo de nada, porque estamos unidos.” Miguel ainda complementa com bom humor:

Enquanto falávamos sobre o acidente, observei atentamente as reações do casal. Miguel relaxado e Daiani sempre preocupada com que tudo estivesse perfeito para eu conseguir o que queria. Nem percebi que a pequena Helena dormia no carrinho ao lado da cozinha, tamanho o silêncio que fazia. Apenas em um momento ela chorou e deixou a mãe nervosa, não porque ela poderia estar precisando de algo, mas porque o choro poderia atrapalhar a minha gravação.

“Pode ficar à vontade, viu, Dai”, foi o que eu disse, me sentindo ridícula por falar isso a alguém que está em sua própria casa.

Na frente da casa, ouvi Miguel Ângelo mexendo em sacolas. Poucos minutos após o início de nossa entrevista, ele entrou na cozinha, com um semblante sapeca e um pacote de bolachas recheadas nas mãos. Todos nos olharmos ternamente, pois o alimento fazia parte das doações que haviam recém chegado. O papo continuou, o pequeno despejou as bolachas em um pote e se retirou.

Daiani Dorneles e Miguel Ccarita Chuctaya

Negra, 26 anos, ensino fundamental, dois filhos. E muito amor. E muita fé. E muita esperança.

O sonho dela é ser educadora. Para isso, quer terminar o Ensino Médio o quanto antes. “Pra eu cobrar alguma coisa, preciso dar o exemplo”. Está concluindo o 2º grau através da Educação para Jovens e Adultos (EJA), mas nem sempre consegue ir às aulas por falta de dinheiro para abastecer o cartão escolar.

Muitas vezes, durante o papo sobre estudos, percebi em Daiani a vergonha por julgar não saber tanto quanto o marido. Ela ri, olha para baixo, pede desculpas por alguns erros, e diz: “ele que sabe”, “ele pode te explicar melhor”, “é por isso que eu admiro muito o meu marido”.

Durante a maior parte da nossa conversa, Daiani foi brincalhona, descontraída, leve. Foi o assunto família que a impactou:

Por muitos minutos, a mãe de 26 anos ficou cabisbaixa. Chorou, pediu desculpas pela emoção, mas eu e Miguel a deixamos confortável para continuar. A conversa voltou a descontrair quando perguntei sobre a paixão dela pelo marido e sobre como um peruano e uma porto-alegrense se conheceram.

O Miguel é negro, tem 36 anos, ensino médio completo no Peru e no Brasil e é técnico em ótica. Mora em nosso país desde 2003, o que deixa seu sotaque peruano quase imperceptível. Veio em busca de uma vida melhor em solo gaúcho, já que, na época, diz que a crise no país de origem era cruel — mas não tão ruim quanto o Brasil atual, reflete.

Ele se considera um aventureiro. Nunca teve medo de mudar e alçar voos diferentes. Estava prestes a aceitar uma oportunidade de mudança para a Austrália quando conheceu Daiani. Envergonhada, mas com um ar de orgulho, ela diz que achou ele muito lindo desde a primeira vez em que se viram, quando ele estava parado próximo a uma cerca de uma casa próxima a sua. Sem pudor, a menina, à época com 19 anos, convidou o peruano-gaúcho para ir ao cinema. E assim surge uma história de amor. Já são sete anos de parceria, dois filhos, uma casa própria e, agora, o desafio do desemprego e das necessidades que enfrentam juntos.

Não tem como falar sobre essa família sem falar em fé. Perdi a conta de quantas vezes Deus e Jesus Cristo foram mencionados durante nossa conversa. Me identifiquei, pois sou também uma pessoa de muita fé. Apesar de todos os percalços pelos quais Miguel e Daiani vêm passando, a esperança em encontrar dias melhores pela frente parece, de certa forma, tranquilizá-los.

Da mesma maneira que pedem por ajuda, também ajudam como podem. Os dois têm um respeito gigante pelos animais de rua, por exemplo. Em casa, estão cuidando de um cachorro de grande porte, de um gato e de cinco felinos recém-nascidos. Um deles, inclusive, ficou em meu colo me arranhando durante a entrevista.

Sobre caridade, Miguel relembra algo que ouviu na igreja:

Um até breve

O final de nossa conversa foi abreviado pelo meu trabalho, que não deu trégua nem em feriado. Perto da uma hora da tarde, precisei me despedir, não sem antes tirar muitas fotos com a família, conversar com o pequeno Miguel Ângelo, ganhar desenhos pintados por ele para colar em meu quarto, abraçar todos e, aí sim, partir. A promessa é de uma volta ainda esse ano, dessa vez para um churrasco.

Momentos antes de ir embora, uma foto com toda a família Ccarita Dorneles

5. Repercussão

Faz cinco dias que eu os conheci.

Em todos esses cinco dias, recebi mensagens de pessoas querendo conhecer mais a história dos Ccarita Dorneles e ajudar. Uma postagem no Facebook rendeu 172 curtidas, 31 comentários e 11 compartilhamentos. Recebi roupas e dinheiro, mas foi através da disseminação dessa história que atingi o mais impactante: uma oferta de emprego para Miguel.

A história rendeu, também, um pequeno depoimento para a rádio Band News FM, de Porto Alegre (FM 99,3), para a qual eu trabalho. Uma das apresentadores viu a sequência de stories que fiz no meu Instagram sobre a reportagem e seus frutos e acabou comentando ao vivo, no programa Band News Happy Hour.

Já a relação com a família se fortaleceu. Trocamos mensagens pela internet, acompanho o crescimento do Miguel Ângelo e da Helena Micaela, e o próximo passo é um participar de um belo churrasco de domingo.