Cosmos de bolinhas coloridas

O princípio já foi o percurso. O viajante se tornou o viajado. Dos primeiros passos lunares dados para subir no ônibus 477A, sentido Sacomã, em direção ao Parque Ibirapuera Ibirapuera, zona sul de São Paulo, não se imaginaria tamanha viagem. Pode até parecer que Pink Floyd tomou as veias, mas o ar que respiro em aquário, é de Neil Armstrong. Nunca tinha ido num planetário, a não ser quando pequena — uma lembrança que se perdeu no tempo-espaço de memórias do cérebro e que não passa de uma nebulosa quando tento viajar naquela direção das recordações. A famosa cachorra Laika sabe mais da estrelas que eu: acredito em horóscopo mas nunca tive torcicolo de olhar para o céu. Uma vantagem da saúde que não sei bem se é uma vantagem ou uma triste constatação.

O rei astro que eu ia visitar tinha nome e sobrenome: Planetário Prof. Aristóteles Orsini. Quem diria que alguém com o nome de um aluno de Platão, dois importantes filósofos, pensadores, estariam em meio à um cidade, nos servindo de plataforma para ver as estrelas. E eles não as olhavam, miravam as estrelas, os planetas, questionando a própria existência? Olhando aquelas astros de longe e pensando na vida de perto? Essa era a viagem, o convite, ser astronauta na terra, ser abduzida sem tirar o pé do chão, com a cabeça nas nuvens e a rota dos planetas circundando pensamentos. Extrair o complicado e o não-falado das estrelas. Trabalho de astrofísico, astrólogo, cosmólogo, moço do tempo e até jornalista.

O percurso inteiro do ônibus me trouxeram várias luas de pensamento sobre , as galáxias e o planetário em si: uma casa tão pequena e que abre círculos ainda mais pequenos — conhecidos como olhos — para um universo de bolas coloridas e esguicho de tinta branca que chamamos de sistema solar. O que eu, mera repórter, posso mudar numa cidade tão grande, dentro de um país tão grande, de um planeta maior ainda que faz parte de um algo maior ainda? No momento, uma mera crônica, ou reportagem, o que o universo decidir que seja, grandiosa em sua pequenez, assim como Plutão. Desço no ponto mais próximo do Parque, na Avenida Brigadeiro, e sigo em direção ao local que tenho por ir. O Parque é muito familiar porém o planetário, que até dia 24 de janeiro deste ano (2016) estava fechado por problemas que estragaram equipamentos do local. O Planetário ainda conta com uma unidade da escola de astrofísica e tem horários especiais para atender à grupos, funcionando somente no fim de semana com duas sessões diárias. Nas férias, são quatro sessões para a criançada.

Um grande hall em formato de corredor, que dá um certo clima de frescor ao local, nos recebe num clima de abdução e acolhimento. Tal arquitetura lembra os famosos filmes norte-americanos de ficção, se fecharmos os olhos por um segundo, a sombra retangular pode até remeter às máquinas alienígenas do clássico Guerra Dos Mundos. O planetário foi construído no final de 1956. O processo de instalação contou com a colaboração do professor Aristóteles Orsini, idealizador do projeto, ao lado do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz — na época, Secretário de Obras do Município — e do Prof. Abrahão de Moraes, Diretor Científico da A.A.A (Assembleia Geral da Associação dos Amadores de Astronomia de São Paulo). O prédio tem o formato que tem para se adaptar ao equipamento, mais precisamente para encaixar o projetor e a cúpula que nos permitem viajar mesmo não saindo do Planeta Terra. O formato é de disco voador, voar é mais que convite, é consequência.

Entramos numa sala circular, como os astros a serem vistos. No centro da sala uma bola que parece uma invenção maluca de algum vilão do BatMan, cheia de espelhos e refletores, que lembra também um globo das danceterias dos anos 70. Todas as cadeiras viram para essa bola. Ali é o nosso olho expandido, ali permeiam o que veremos mas ainda não foi visto, o que está longe porém num piscar, aparece perto e palpável. O “olho que tudo vê”, diriam os fãs de Senhor do Anéis, livro que gera duplo trocadilho com os planetas que estava prestes a ver. Claro que sei da limitação daquele olho mágico, mas ele era justamente isso, uma parafernalha engenhosa de ferro e vidro que permitia ver o que tinha atrás da porta chamada camada de ozônio. Era a descoberta, a luneta, a invenção maluca daquele inventor dos livros de criança. É a lembrança da infância da aspiração de cientista, da adolescência e os milhares de teste de horóscopo das revistas teen, é o seu adulta e se sentir pequena perante o gigantismo do universo.

Parecemos estar dentro de um disco voador e que a engenhoca é nosso guia, conduzida por algo extraterrestre que está distante das terras brazucas, mas está ali. Torcicolo é parte obrigatória do assento que vira espacial, da cadeira que perde a gravidade, roubada pela imaginação e os olhinhos não se cansam de mirar o pseudo-céu que a bola de espelhos inicia a projetar. A voz terna e galática inicia contando os bilhões, trilhões infinitos de estrelas que nem em muitas gerações conseguiremos contar. Emergi, tentei deixar a abdução me levar, encontrar meus companheiros de outro planeta e ir ver com meus próprios olhos se realmente existe água em Marte. Não é possível manter o profissionalismo e o objetivo quando se é raptada por alienígenas. Não seria fidedigno um relato tão elevado, cósmico. Como eu poderia fazer uma matéria mais aprofundada se nem sabemos se existe vida no universo afora? O que é jornalismo para os marcianos? Será que tem lide em Júpiter? Quais são os métodos de pesquisa de Plutão? Me nego a tentar especular sobre a experiência que foi uma sessão no planetário do Ibirapuera, cada viagem é única. Quem sou eu, além de mera jornalista do Planeta Terra para guiar o deslocamento mental, emocional e geográfico de alguém?

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